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Os argelinos pedem a queda de todo o regime em sua décima sexta-feira de protestos

Após a queda do Presidente Bouteflika, os argelinos continuam na rua exigindo que todos os representantes do antigo regime saiam. Nesta sexta-feira eles comemoraram sua décima semana de protestos.

sábado 27 de abril| Edição do dia

Centenas de milhares de argelinos participaram dos protestos nesta sexta-feira na décima semana de manifestações. Tendo conseguido derrubar o Presidente Abdelaziz Bouteflika, eles agora exigem a queda completa do antigo regime.

"Nenhuma manobra vai nos servir para nos impedir. O povo está determinado a completar o que começou. Eles devem e vão partir." - explicou um jovem dos bairros da capital, ao comprar uma bandeira nos dezenas de vendedores ambulantes que estavam nas calçadas.

Os manifestantes se reuniram nas escadas dos correios, um majestoso edifício de estilo otomano que é um dos símbolos da capital, Argel, no meio de um forte operativo das forças repressivas.

Como nas sextas-feiras anteriores, "degas, degas" (fora, fora) e "legitimidade pertence ao povo" foram as consignas mais repetidas entre uma onda contínua de bandeiras da Argélia e da comunidade berbere (Amazigh).

Depois de conseguir a queda do ex-presidente Bouteflika, os manifestantes não aceitam que nenhum dos membros da casta política e militar que faziam parte de seu governo assumisse a transição política.

Nessa transição, eles não poderiam ser, segundo os manifestantes, nem o presidente do Senado, Abdelkader Bensalah, chefe interino de Estado, nem o ex-ministro do Interior e atual líder do governo, Nouredin Bedaui.

Nem o chefe do Exército, o general Ahmad Gaïd Salah, o braço direito do presidente há quinze anos, e o homem que forçou sua renúncia um mês atrás, exigindo que o artigo da Constituição que permite que o presidente seja desqualificado por motivos de saúde se aplicasse.

Desde então, Gaïd Salah se tornou o homem com mais influência no país, apesar do fato de que o movimento popular o rejeita por fazer parte do círculo de poder e por múltiplos escândalos de corrupção.

Depuração para tentar limpar a imagem do antigo regime

Salah, que denunciou uma "conspiração interna" apoiada do exterior, mas sem esclarecer detalhes - aplaudiu esta semana o lançamento de uma suposta campanha de "mãos limpas", no qual o objetivo principal é grupos de empreendedores mais próximos de Bouteflika.

Particularmente contra Issad RebRab, bilionário dono do maior conglomerado ligado ao poderoso chefe dos serviços secretos argelinos, amigo próximo do presidente da França, Emmanuel Macron, e vinculado ao poderoso chefe dos serviços secretos argelinos, Mohamad Mediane "Tawfik".

E contra a rica família Kouninef, mecenas da Bouteflika desde os anos setenta, e o presidente do círculo de empresários da Argélia, Ali Hadad, que foi preso semanas atrás, quando ele tentou fugir do país.

A décima manifestação popular coincide sexta-feira com várias mudanças importantes também em empresas estatais, como a companhia nacional de hidrocarbonetos Sonatrach, em mais uma tentativa de fingir uma ruptura com o regime de Bouteflika por aqueles que durante anos têm sido a seu lado.

Esta "limpeza" interna contra parte de um setor da burguesia argelina que durante anos se beneficiou de sua relação com Bouteflika, mostrando atritos como os mencionados acima, incluindo políticos, militares e empresária da casta que busca reestabilizar o regime e sacrificar um pouco das figuras mais repreensíveis.

O antigo regime argelino tirou lições da primavera árabe de 2011 e pretende, como no Egito, que o Exército cumpra um papel central na transição e, se necessário, o papel do governo. No entanto, como visto nas mobilizações atuais que não param, e pedem a queda de todo o regime, nada indica que possa fazê-lo sem grandes contradições.




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