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CATALUNHA

Os Comitês de Defesa da República se organizam para “romper com a normalidade” na Catalunha

Frente ao golpe institucional do Regime de 78 se reorganizam os Comitês de Defesa da República, depois do encontro de coordenação que duplicou sua quantidade. Qual greve precisamos? Quais reivindicações? Qual República?

Cynthia Lub

Barcelona | @LubCynthia

terça-feira 7 de novembro| Edição do dia

“Exigimos a liberdade daqueles que estão presos pelos seus ideais”. “Frente ao golpe de Estado que estamos vivendo, agora mais do que nunca precisamos romper com essa falsa normalidade: paremos o país de forma iminente. Fazemos um chamado para participar das diversas mobilizações descentralizadas a partir da própria segunda-feira na primeira hora da manhã. A partir de quarta-feira devemos dar um passo a frente: bloqueemos a economia, ainda que o Estado espanhol tente impedir o exercício do nosso direito de greve”.

Assim termina o comunicado realizado no último sábado, 4 de novembro, no IV Encontro de coordenação dos Comitês de Defesa da República de toda Catalinha no qual participaram representantes de 172 comitês de toda a Catalunha, quase o dobro que no primeiro encontro em outubro.

No mesmo propõe “Aturem la falsa normalitat, surt al carrer, busca el teu CDR i participa” (Paremos a falsa normalidade, saia às ruas e procure seu CDR e participe).

O primeiro desafio é se reorganizar pela liberdade dos presos políticos, enfrentar o 155 e as medidas repressivas do Regime de 78 e “defender a República”. Para isso propuseram ações que ajudem a motorizar a greve convocada para a próxima quarta-feira, 8 de novembro, coordenando-se com as entidades soberanistas, ANC e OMNIUM, assim como com os sindicatos “comprometidos” com a greve. Estas ações começaram na segunda-feira pela manhã com fechamentos de ruas e rodovias.

Qual greve precisamos?

Muitos são os debates ocorrendo nas assembleias: Qual tio de greve fazer? Como conquistar apoio massivo? Há um grande acordo em que a greve deve “bloquear a economia” e não fazer uma paralisação civil como propuseram as entidades e partidos soberanistas no último 3-O. Junto à CCOO e UGT. Contrariamente, a jornada de greve e mobilização do 3-O superou esta proposta, parando setores chave como o transporte, assim como numerosas empresas contra a patronal, ainda que sem o apoio das direções da CCOO e UGT.

Ainda que os obstáculos para levá-la adiante sejam vários, os CDR se propuseram a realizá-la da mesma forma frente ao clamor de milhares de pessoas por “Vaga general ja” (Greve geral já) nas manifestações pela liberdade dos presos políticos, apoiado pelas entidades soberanistas como Ómnium e a ANC.

Um dos problemas é que está convocada por somente um sindicato, a intersindical CSC, que é parte da esquerda sindical catalã independentista que no último 3 de outubro convocou uma greve geral para repudiar a repressão do 1-O.

Frente à possível criminalização, a CSC declarou que as greves por motivos políticos “estão proibidas”, mas destacaram que a convocatória é completamente legal, destacando que a mesma está relacionada com “a regressão nos direitos trabalhistas, a precariedade, a falácia da saída para a crise”, entre outras razões.

A CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) da Catalunha, de ideologia anarcosindicalista, não convocou para a greve, alegando motivos legais ou alta de tempo em um primeiro comunicado no qual chamam “o conjunto dos filiados e filiadas, a todas as seções sindicais e sindicatos da CGT na Catalunha a refletir sobre a gravidade desta situação e a valorizar libremente, atuando com consciência, sua participação na greve geral do próximo 8 de novembro”. É assim que se começaram a somar à convocatória federações e seções sindicais como educadores, metalúrgicos, entre outros. Uma posição titubeante que tira força da convocatória dentro da CGT Catalunha.

Tampouco convocam a IAC (Intersindical Alternativa de Catalunya), a COS (Coordinadora Obrera Sindical), ainda que tenham comunicado que apoiariam a greve e chamado à participar. A CNT (Confederación Nacional del Trabajo) e Co.bas ainda não se pronunciou.

Diferentemente da greve do 3-O, a esquerda sindical se preparou poucp e tarde frente à grave situação e o ataque do Regime. Isso é um obstáculo para garantir uma greve que paralise toda a Catalunha, porque será bem difícil que se convocem assembleias nos locais de trabalho para debater democraticamente como e porquê fazer greve; coisa que por si só as direções da CCOO e UGT já deixaram de fazer há décadas, ligado a que novamente nem chamam, nem apoiam a greve.

Inclusive se rechaçou convocar a greve geral na Taula per la Democracia para “não prejudicar a economia”. no perjudicar a la economía”. A propósito, o dirigente da Catalunha em Comú, Xavier Domènech, também desmarca argumentando que não será nem “massiva”, nem “inclusiva”.

O grande desafio da esquerda sindical era, frente tamanho ataque do Regime, garantir a greve do 8N e ajudar na massificação, extensão e coordenação dos Comitês de Defesa da República em bairros, locais de trabalho e estudo, promovendo assembleias nos locais de trabalho para debater como preparar um plano de luta operária e popular. A única maneira efetiva de derrotar o golpe institucional do PP e da coroa, apoiado pelo PSOE e Cs e exigir a liberdade dos presos políticos.

Quais reivindicações?

Outro dos debater em curso é como fazer com que a classe trabalhadora se transforme no principal protagonista da luta democrática do povo catalão, começando com participar massivamente da greve. É importante considerar que setores importantes são indepedentistas e não confiam em uma República dirigida pelo Junts pel Sí, ou seja, pelos mesmos partidos que organizaram brutais cortes e privatizações que estão sendo pagas pela maioria dos trabalhadores e dos setores populares.

A respeito disso, em alguns CDR onde os militantes da CTR estiveram presentes, junto a outros ativistas defendemos a necessidade de incorporar as demandas sociais à demanda central de lutar pela liberdade das presas e presos políticos e enfrentar a repressão. A única maneira de que a classe trabalhadora abrace a causa democrática do pobo catação, contra as medidas do 155 do Regime de 78 e que além disso os CDRs sejam organizados nos seus locais de trabalho.

Um exemplo disso é que o CDR de Nou Barris que já incorporava as demandas sociais às democráticas com o lema por um “Sim de classe”. Ou o de Horta-Guinardó, onde se votaram para a greve do 8N demandas como:

Construamos uma República da classe trabalhadora

Pela anulação da Reforma trabalhista do PP (2012)

Pelo aumento do salário mínimo interprofissional

Basta de precarização do trabalho e terceirizações

Basta de privatização dos serviços públicos

Defendemos as instituições democraticamente eleitas

Exigimos a liberdade dos presos políticos

Denunciamos o Estado fascista e repressor

Apesar de não compartilharmos do projeto de formar um novo Estado independente, ainda menos o Estado capitalista proposto pelo Junts pel Sí, consideramos imprescindível defender o direito a que se cumpra a vontade majoritária expressa pelo povo catação, por isso defendemos que se constitua uma república independente.

Ainda assim, não acreditamos que sob a hegemonia política dos representantes históricos das grandes empresas e famílias da burguesia catalã possa ser levada adiante, porque para isso é necessária a mobilização da única classe que pode fazer tremer a burguesia e seu tão “amarrado e bem amarrado” Regime de 78: a classe trabalhadora.

Por isso é indispensável decidir como resolveremos as grandes demandas sociais e democráticas pendentes, desde a luta contra o modelo de “democracia para ricos” da qual os convergentes tem sido parte, até acabar com o desemprego dividindo as horas de trabalho, conseguir serviços públicos e gratuitos financiados com impostos aos ricos ou a nacionalização dos bancos e das grandes empresas.

Para que a luta em curso possa abrir caminho para um verdadeiro processo constituinte, onde toda esta agenda possa ser debatida, é importante aprofundar a autoorganização operária e popular, independente dos partidos capitalistas, para combater a repressão e que a partir dele se determine qual deve ser a agenda completa pela qual lutar. Este é um grande desafio para os CDR, para qual é necessária uma filme aliança com a classe trabalhadora.

Qual República?

São muitas as vozes que, ainda que defendam ativamente o direito de decidir da Catalunha e lutem pela liberdade dos presos políticos e as medidas repressivas do 155, não esperam nada da República catalã dos partidos capitalistas.

Isso leva a um debate sobre qual direção o movimento democrático atual precisa. Para nós é necessário construir uma direção a partir da classe trabalhadora e dos setores populares que seja alternativa à direção sua burguesa. E assim abrir o caminho para conquistar uma República catalã socialista, da classe trabalhadora frente ao que oferece a direção do processo.

Algo que somente se pode realizar em total independência e combate contra a própria burguesia catalã e em uma luta comum com o resto dos trabalhadores e setores populares do Estado contra o Regime de 78 e os capitalistas. Um mesmo combate que poderia colocar as bases para uma livre federação de repúblicas que não seriam do IBEX35 [nome dado à bolsa de Madri] ou do Círculo de Economia, mas sim das e dos trabalhadores.




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