ASSASSINATO NO RIO

Os 80 tiros que vem de longe: Comando Militar do Leste fez escola de massacre no Haiti

Os 80 tiros que mataram Evaldo Rosa, de 51 anos, sambista e pai de família, vieram de longe. O Comando Militar do Leste, comandado pelo ex-interventor, general em exercício Walter Souza Braga Netto, teve 102 de seus membros enviados ao Haiti. Lá, fizeram escola de massacre das massas negras.

Mariá Tubman

Brasília - DF

terça-feira 9 de abril| Edição do dia

Os 80 tiros que mataram Evaldo Rosa, de 51 anos, sambista e pai de família, chocaram o país e criaram revolta no Rio de Janeiro, estado no qual as massas negras, trabalhadoras e pobres estão sendo vítimas de uma onda de massacres racistas por parte das forças armadas do Estado.

A revolta origina no fato de que o carro que Evaldo dirigia levava sua família, inclusive o filho de 7 anos, a uma festa de chá de bebê numa tarde de domingo. Sem qualquer motivo aparente - o único visível, inclusive, é a cor da pele - o carro foi imediatamente alvejado pelos militares quando passava pelo bloqueio que eles faziam na região de Guadalupe, noroeste da cidade.

Foram 80 tiros, uma ofensiva cujo único resultado é a morte imediata. O que levou a que esses militares fizessem isso? Segundo sua declaração inicial, foram motivados por autodefesa, pois os tiros teriam partido primeiro do automóvel de Evaldo. A família nega essa versão, e conta sua própria versão, a única que pôde ser confirmada pelos vídeos que começaram a circular na internet. A ação militar não teve, realmente, qualquer motivo aparente. Seus motivos são exclusivamente os mesmos que levaram à chacina do Fallet, ao assassinato de Marielle e tantos outros derramamento de sangue que não saem das nossas cabeças: estamos vivendo uma situação política de enorme intensificação da violência de Estado contra as massas negras, pobres e trabalhadoras, que será coroada e institucionalizada com o pacote de Moro. O objetivo mais longínquo é manter sob controle desde já as massas que podem ser portadoras da oposição ativa à reforma da previdência, plano número 1 do governo Bolsonaro, que até agora não se pronunciou sobre o ocorrido.

Esses tiros também vieram de longe. O Comando Militar do Leste, comandado pelo ex-interventor, general em exercício Walter Souza Braga Netto, teve 102 de seus membros enviados ao Haiti. Lá, fizeram escola de massacre das massas negras. A missão de suposta ação "humanitária" (tão humanitária quanto as tropas enviadas às fronteiras venezuelanas), instalada em 2004 e finalizada apenas em 2017, foi alvo de denúncias permanentes de assédio sexual, estupro, agressão, homicídio, entre outras violências contra as massas negras vítimas de desastres naturais que só foram tão destrutivos devido à enorme espoliação imperialista dos EUA e França sobre esse pequeno país. As tropas foram enviadas pelo então presidente Lula, e se mantiveram lá durante todos os anos de gestão do PT e depois do golpista Temer.

A história do Haiti, entretanto, é grandiosa. O país foi palco da primeira e única revolução negra vitoriosa, que em 1794 acabou com a escravidão e independentizou o país. Como medida de espoliação imediata, a França impôs ao Haiti que pagasse uma multa pela independência, depois sacramentada pelo FMI - cuja principal potência é os EUA. Os juros meteóricos fazem com que a dívida externa haitiana seja um dos maiores gargalos de dívida do mundo, impedindo qualquer tipo de política de obras públicas e de planos de assistência social aos mais pobres e afetados pelo terremoto de 2010, que levou à extensão não de uma ajuda financeira e social aos haitianos, mas ao prologamento da suposta "ação de paz" com militares da Minustah.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Enquanto o Rio de Janeiro rui com as chuvas que se intensificam desde o final de semana, Bolsonaro, Witzel e Crivella oferecem apenas a presença de militares e a total ausência de qualquer plano de obras públicas para impedir o desastre que atinge a vida das trabalhadoras e trabalhadores e dos mais pobres. As empresas privadas, por outro lado, receberam uma série de ajudas financeiras do prefeito Crivella, enquanto as universidades e escolas públicas são forçadas a cancelar aulas devido a queda de telhados e muros.

A ajuda "humanitária" da presença de militares, diga-se de passagem, que aprenderam sua "humanidade" matando e estuprando as mulheres e homens haitianos, frente a uma cidade que rui no marco de uma enorme crise fiscal, só poderia levar ao quadro desta terça-feira: mortos pelas enchentes e pela destruição da chuva; feridos pelo trabalho forçado em locais de trabalho atingidos pela chuva. Junto da chuva, correm também as lágrimas de Luciana, chora a morte de seu marido Evaldo, de apenas 51 anos.

Seria incorreto, entretanto, dizer que a primeira vez que o Comando do Leste mirou a testa negros foi no Haiti. Duque de Caxias foi o principal quadro histórico do Comando, reivindicado por eles até hoje, e que teve no seu "currículo" o massacre que as forças lealistas de 1839 a 1845 realizaram na repressão à Balaiada, um dos principais levantes escravos e de setores empobrecidos do Maranhão. A cidade de Caxias (MA), onde o então coronel Luís Alves de Lima e Silva matou centenas de revoltosos, é a que ele escolheu para batizar sua nova patente de Duque, oferecida por D. Pedro II. Duque de Caxias virou seu novo, em "homenagem" às execuções de balaios.

O Comando do Leste historicamente atua sobre as regiões do Rio de Janeiro e Minas Gerais, locais do país onde houveram centenas de revoltas negras e onde o papel da escravidão na formação social e econômica é central. Não surpreende que desse Comando, especializado na repressão às massas negras, seja um dos maiores contingentes da Minustah, tampouco que na sua volta ao Brasil, seja autor de 80 tiros contra um único carro, cheio de uma família negra. Não há qualquer resposta em relação à morte de Evaldo que possa passar por fora de exigir que esses militares sejam julgados por um júri popular, sem qualquer proteção especial do tribunal militar. Que as empresas responsáveis pela construção civil e obras no RJ, que já receberam milhões do Estado, sejam expropriadas sem indenização e se abra um plano de obras públicas controlado pelas trabalhadoras e trabalhadores, que dê à RJ a resposta que as massas precisam, não mais mortes e sangue, como quer Moro, Bolsonaro, Witzel, Crivella e cia.




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