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TRIBUNA ABERTA

Os 7 delírios da nova direita pão com ovo

Gostaria de ter sido o inventor da feliz expressão: direita pão com ovo. Esta expressão nasceu como correspondente e antípoda natural do adjetivo esquerda caviar no contexto de um debate comezinho e cansativo. Monopólio desses trópicos que passam por tempos enfadonhos e tristes, a expressão responde um ressentimento tosco e invejoso, vil e baixo, inescrupuloso e raivoso da nova direita.

segunda-feira 12 de setembro| Edição do dia

Traduz, a meu ver, com êxito, o que é a direita que se formou sob a égide do consumo. Um grupo formado, em grande parte, pela classe média defensora de um poder patriarcal ligado às raízes de uma estrutura arcaica já demonstrada por Sérgio Buarque de Hollanda. Constituída por aqueles que não sendo donos de capitais se tornaram defensores e guardiãs de seus donos. Por aqueles que ignoram que o que torna uma pessoa capitalista não é gostar do capitalismo, mas deter excedente de dinheiro para reinvesti-lo e torná-lo maior, ou seja, transformá-lo em capital.

É necessário traçar um perfil mais apurado dessa nova direita, alguns trabalhos já estão tentando dar conta desse fenômeno que explodiu a partir de 2015. Assim como já há a importante constatação de que essa direita detém um caráter popular, pela primeira vez, no Brasil. Por enquanto resta-nos detectar algumas de suas atividades que na voracidade de criar um inimigo comum, tornam seus delírios forças simbólicas que incidem objetivamente na realidade política nacional. O silêncio dessa nova direita ante um governo golpista, diz mais sobre ela do que seus gritos histéricos pela volta da ditadura. Sendo assim, abaixo apresento alguns desses delírios:

1. A falsa dicotomia entre Mercado e Estado:

Como liberais de mercado a nova direita enxerga no Estado o mal absoluto. O Estado deixa de ser um efeito dos problemas existentes no mundo capitalista para se tornar a causa. Para estes, o avanço britânico se deu pela invisible hand (mão invisível) de Adam Smith e não pelo fato de que a Grã-Bretanha, um século antes da revolução industrial acontecer, já havia executado um rei e o lucro privado e desenvolvimento econômico já tinham sido aceitos nos limites da institucionalização estatal.

Ignoram totalmente a questão das medidas protecionistas estatais, no século XIX, utilizadas para proteger a indústria interna e promover a sua expansão com a criação, imposta, de um mercado externo que será o propulsor da Primeira Grande Guerra. Acreditam que há uma relação de igualdade no mercado mundial e que não há submissão de mercados e nem economias dependentes como, no caso, a brasileira.

Ignoram que a adesão ao neoliberalismo – ou seja, Estado policialesco – foi o que forjou, nas economias desenvolvidas, a grande e profunda crise econômica do subprime iniciada em 2008 e até hoje em desenvolvimento. Por fim, ignoram que o Estado é uma faceta importantíssima para a manutenção e desenvolvimento econômico reduzido ao balcão de negócios dos tubarões do mercado financeiro.

2. A esquerda é adepta do totalitarismo

Apesar de não saberem o que é totalitarismo ou quem definiu tal conceito, eles o aplicam à revelia para desqualificar o posicionamento de esquerda. Como se a esquerda fosse uma só. E como se o conceito de totalitarismo fosse vinculado estritamente ao conceito de ditadura comunista. Raymond Aron e Franz Neumann usaram esse termo na tentativa de analisar a força integradora do fascismo que buscava homogeneizar as diferenças – isto é, aniquilá-la – e fundamentar uma identidade nacionalista.

Mas foi nas mãos da brilhante Hannah Arendt que esse conceito encontraria força porque marcado pela universalidade da experiência catastrófica nos campos de concentração. O conceito de totalitarismo, tal como observado por Arendt, está ligado justamente ao advento da Revolução Industrial e o trabalho como forma da dominação social.

Técnica como domínio social que alija de si os diferentes, tentando conformar e homogeneizar todos. A nova direita, para quem o pórtico de Auschwitz é correto, nem sonha que a estrutura totalitária tem mais em comum com o domínio dos corpos através da redução do homem a apêndice da moderna forma de produção de mercadorias, do que com a ditadura abstrata que tanto fetichiza.

3. O PT é comunista.

Talvez, esse seja o maior delírio da nova direita pão com ovo. O PT é tão comunista quanto o PSC é socialista. Não é preciso refletir na postura pró capital, mais que pungente, impregnado na política econômica do PT durante seu tempo de sobrevivência no governo. E isso não é de agora, já no primeiro mandato de Lula na “Carta aos brasileiros” – ou como se diz por aí, carta aos banqueiros – ficou claro qual seria o direcionamento das políticas econômicas petistas. Lula deu um abraço nas ambições do mercado financeiro, não apenas se negou a renegociar a dívida externa, como também, se negou a regulamentar o movimento do capital financeiro. O que o PT fez foi no máximo uma política com pequenos lastros sociais de corte fracamente keynesiano. É preciso muito delírio para afirmar que haja aí qualquer coisa de comunista.

4. O fascismo e o nazismo são ideologias de esquerda

Não há dúvida que foram os ideólogos (profetas e astrólogos) dessa nova direita que incutiram em seus seguidores essa mentira disseminada (e financiada) por toda a internet. O fortalecimento da economia nacional é, para estas figuras que grassam abundantemente, sinal de socialismo.

Esses senhores ignoram que o partido Nazi foi o principal beneficiário da doação burguesa temerária pelo avanço do Partido Comunista da Alemanha. Partido composto principalmente por membros sobreviventes da esfacelada Liga Espartaquista que sofreu duramente durante a revolução de 1919 na qual Rosa Luxemburgo foi assassinada por membros da extrema direita que mais tarde estarão no partido Nazi.

Mas deixemos que o próprio Hitler fale como eram amistosos o encontro dos comunas com os nazis: “Sim, quantas vezes nossos amigos vermelhos compareciam até ali, em colunas cerradas, com a missão bem delineada de dispersar aquilo tudo na mesma noite, à força de porrada, pondo um fim àquela história, E quantas vezes esteve tudo perto disso mesmo! As intenções do adversário foram aniquiladas apenas pela energia férrea de nossos líderes e pelas medidas brutais de nossa polícia defensiva que os arrebentavam” (Main Kampf, 2015 p.447).

5. Vivemos uma ditadura comunista

Na nova onda reacionária que recorre ao jargão superado de uma guerra fria inexistente, há a convicção amalucada de uma ditadura comunista que se impôs na era petista. Muito embora a imprensa utilizasse a retórica irresponsável e belicosa; a polícia Federal agisse livremente nas suas investigações; e o Ministério Público e a Justiça tivessem aprisionado integrantes importantes da alta cúpula petista, os profetas dessa nova direita garantem que vivemos numa ditadura de caráter comunista.

Uma alucinose cujo delírio interessado e radical não conhecia limites e se via de todo desobrigado a checar a realidade dos fatos. E assim, um novo fascismo surgiu nas mãos de articulistas, caseiros e de autoexílio, que atacavam qualquer ideia ou projeto progressista de caráter simplesmente humanista. Um fascismo de mercado do qual tudo o que está para além do mercado deve ser aniquilado e visto com ódio.

6. No Brasil há um marxismo cultural

Essa concepção não é apenas um ultraje a mínima inteligência, como oculta por trás de si a tentativa de aniquilar qualquer crítica ao modo de vida existente sob a égide do capital. Pensamento que no programa Escola sem partido encontrou sua objetivação social. O que tal postura denuncia é a vontade de unidade de pensamento que presume a total ausência de críticas de um mundo cada vez mais desigual. Dito de outro modo, é o medo suscitado pela força da teoria marxiana que se mantém atual porque todos os problemas por ela denunciados permanecem inalterados.

7. Vá pra Cuba

O que dizer dessa ordem reacionária? Assim, que tiver uma folga vou... mas, não se engane eu volto!




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