Gênero e sexualidade

ETIMOLOGIA

Origem da palavra “puta”

Em dicionários, acepções, etimologias e ideologias.

Nora Buich

Integrante da Comissão de Mulheres de Astillero Río Santiago

domingo 28 de agosto| Edição do dia

“Evidentemente, eu diria “que eu morra se já não perdi este puto”. Mas se as boas maneiras me proíbem realmente de dizê-lo, não direi: “perdi este garoto”.

Esses versos latinos, do final do século 1 a.C., seriam um dos primeiros registros em que puto, que era equivalente a jovem, se associa com a prostituição. Dalí em diante a palavra passou a ser utilizada em sua forma feminina.

Sobre a origem da palavra puta, em sua página digital a Real Academia Española (RAE), contém esta primeira introdução: Quiçá do lat. Vulg. *puttus, var. do lat. Puttus ‘menino’. É estranho que a RAE apresente tão vaga informação sobre suas origens, quando há numerosa documentação sobre esta palavra.

No dicionário Crítico Etimológico Castellano e Hispánico de Joan Corominas encontramos que provém da palavra putta (menina jovem), feminino de putto (menino jovem), adolescentes femininos e femininas que na época romana estavam associados à prostituição.

Em várias publicações e páginas confiáveis da internet encontramos que “os filólogos clássicos, associam a palavra puta com o latim putta (menina jovem, especialmente “menina de rua”) cujo significado em latim adquire valor de prostituta, derivado na realidade de puto”.

Na arte, putti é outra forma de nomear crianças puras (anjos), que são um ícone clássico, com que se adornam quadros, esculturas, relevos, etc. Estes representam uma cena com fundo erótico ou inclusive religioso na qual, de alguma maneira, a intenção é demonstrar o amor divino.

Voltando a Real Academia Española, esta instituição guarda entre suas joias a edição digitalizada do Tesouro da Língua Castelhana ou Espanhola de Sebastián de Covarrubias, datado de 1611 é considerado o primeiro dicionário monolíngue do castelhano.

Em uma linha bastante distinta, Covarrubias escreve que puta é: a rameira ou mulher ruim. Quase podre, que sempre está quente e cheirando mal. Em que contexto escreve seu dicionário? A Europa de 1600 está se transformando lentamente do feudalismo para o capitalismo. Há fome, guerras, quedas dos salários e isso afeta muito mais as mulheres. Como escreve Silvia Federici no livro Calibán y la Bruja. Mujeres, cuerpo y acumulación originaria (Buenos Aires, Tinta Limon, 2010) – “Caliban e a Bruxa. Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva”: “Em meados do século XVI as mulheres estavam recebendo apenas um terço do salário já reduzido dos homens e não conseguiam se sustentar com o trabalho assalariado, nem na agricultura nem no setor manufatureiro, motivo que indubitavelmente é responsável pela gigantesca extensão da prostituição nesse período”.

Além do mais, a Igreja Católica mostra a mulher como débil mental, propensa a fazer tratos com o diabo. Começa a caça às bruxas, o ataque aos direitos reprodutivos e a introdução de novas leis que sancionam a subordinação da esposa ao marido no âmbito familiar. São estampadas dois tipos de mulheres: a Maria santa e boa, trancafiada em casa, e a perdida Eva, pecadora e expulsa do paraíso.

O capitalismo avança, com ele a divisão das classes sociais e se acentuam as tendências de que: às mulheres, em geral, têm seus direitos cerceados, porém é a mulher do burguês aquela que pode ficar em casa, cuidando dos filhos, a quem se pretende preservar sua honra porque é a esposa daquele que possui os bens e os meios de produção. Em comparação, as mulheres operárias e camponesas são humilhadas, castigadas e obrigadas a ser uma mercadoria a qual o burguês compra, na fazenda, na oficina, na fábrica e também no prostíbulo.

Com hipocrisia, a prostituição é condenada moralmente porém não é eliminada. Isto porque para que o bom burguês não desonre sua santa esposa, comete os piores pecados com a puta do prostíbulo. E os prostíbulos não estão em pleno centro da cidade... nem tampouco estão longe, para que o senhor chegue rápido quando assim necessitar.

Assim, o mundo público é para os homens e as mulheres se tornam parte do mundo privado. As putas são as únicas públicas. Contudo, estamos falando do século XVII, hoje é diferente...

Volto a página digital RAE, e encontro exemplos dos usos da palavra puta: “casa de putas (prostituição)” e seu sinônimo “casa de lenocínio”. O que isso significa? Casa de mulheres públicas, diz o dicionário. Igual ao século XVII!

E quantas vezes escutamos: se veste como uma puta, anda como uma puta, tem cara de puta, etc. Quando dizem frases como essa estão dizendo o mesmo que a igreja para justificar as mulheres queimadas na fogueira, para retirar, por exemplo, o direito de exercerem medicina, o direito de decidir quando desejam ter filhos ou não ter, o direito a gozar livremente se seus próprios corpos.

Quando se diz isso, está se reforçando a ideia de que a mulher é menos que o macho, que é uma qualquer a qual o patrão pode pagar menos dinheiro pelas mesmas tarefas.

Um Dom Juan é um tipo considerado lindo, já Dona Joana é a mulher que limpa; o homem atrevido é valente, porém as mulheres atrevidas são mal-educadas, putas; um homem rápido é um tipo inteligente, sagaz, mas uma mulher rápida é uma puta.

Se convidamos alguém para sair somos dadas: putas; se tomamos as ruas para exigir nossos direitos ou simplesmente saímos para nos divertir, somos vagabundas: putas, se temos muita experiência na vida, somos mulheres da vida: putas. O homem público é aquele que atua nos âmbitos sociais e políticos, a mulher pública é aquela que exerce a prostituição.

O homem não é julgado por sua roupa, por seus encontros sexuais, por sua cara – que seria “por suas intenções e atitudes”. Porque é evidente para todos que: seu corpo e o mundo lhe pertencem, ainda que a esta altura vale perguntar-se: A quais homens pertence o mundo, à todos? Não.

Aquelas que opinamos, que exigimos nossos direitos, gozamos de nossas sexualidade como bem entendemos... saímos às ruas e arrancamos da prisão doméstica as mulheres como Belén* somos as putas. Porque, afinal, tudo que sai da norma estabelecida, é catalogado de forma a nos diminuir frente aos homens.

A esta altura, vou concordar com Covarrubias sobre o fato de que somos podres, mas não por nossos “desejos carnais” se não por nossa situação.

Muitas de nós estamos podres, fartas de aguentar o machismo e esse sistema no qual servimos como uma luva ao machismo para lucrar mais e mais! Estamos estafadas, fartas das instituições que, como a Real Academía Española, reproduzem valores e preconceitos patriarcais! Por isso, se queremos começar a transformar as coisas, vamos começar não repetindo como um eco as palavras daqueles que nos humilham e nos castigam. Pois, se existe algo que cheira mal, definitivamente, não somos nós.

*Jovem que foi presa há mais de dois anos por ter sofrido um aborto espontâneo. Saiba mais sobre quem é Belén nessa matéria: Você sabe quem é Belén? Uma presa devido a um aborto espontâneo [nota da tradução].




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