Cultura

Opus XV, de Cia. Antropofágica

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quarta-feira 18 de abril| Edição do dia

Foram mais de dois convites para ver a nova peça da Cia. Antropofágica, mas a rotina de trabalho, os problemas pessoais, tarefas domésticas, a falta de vontade de pegar um transporte público precarizado; todos os obstáculos cotidianos impostos pelo capitalismo me fizeram adiar e adiar a aceitação de tais convites - e que pena, pois ao sair do teatro meu único arrependimento era não ter visto nada da Antropofágica antes.

Opus XV se propõe a ser uma peça que conta a história da companhia antropofágica contextualizando historicamente sua existência, contando a história de seus integrantes, suas peças e suas influências.

A peça começa com uma cena em 1933, um trabalhador negocia uma dívida de 1000 reis, que já pagou duas vezes, mas ainda assim a dívida permanece. Não se chega a lugar nenhum durante a negociação, uma negociação que não pode ser chamada de negociação, pois se trata de uma violência. O trabalhador sai da sala, o homem com o qual negociava faz uma ligação onde berra “fuzile-o, fuzile-o” e o trabalhador é morto a tiros. Se trata aqui de uma cena de O rei da vela, peça de Oswald se Andrade - com certeza uma forte influência a Antropofágica.

As luzes se apagam, uma luz frágil sobre uma atriz que está no meio do público, fala um trecho de Érico Veríssimo sobre a tarefa de um escritor/artista: "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto." Esse trecho marca muito bem o que é essa cena, que denuncia uma realidade, que ainda permanece atual longe dos grandes centros; marca muito bem o que é essa peça; e marca também a trajetória da Cia. Antropofágica. E riscando fósforos incansavelmente os atores nos levam a outro espaço.

Seria difícil escrever sobre cada cena, escolho falar das que mais me tocaram, me atravessaram e ficaram em mim.

Ao chegarmos ao teatro (o espaço em si) os atores, então cobertos por um lençol como uma espécie de móvel em uma casa abandonada para que não se acumule pó, são descobertos, estão nus sentados em cadeiras e se apresentam, não como personagens, mas como indivíduos, pessoas reais, que constroem a companhia. Assim nus, sem adereços nenhum, se afirmam como sujeitos, parte de um coletivo; a cena se dilui com cada ator repetindo seu nome e a fala “sou de esquerda, faço cenas anti machistas, antirracistas, anticapitalistas.”

Assisti a peça antes do julgamento do Habeas Corpus do Lula, escrevo esse texto depois e é preciso dizer algumas coisas: 1. sou contra a prisão de Lula pela falta de provas 2. os ministros que votaram contra o habeas corpus foram nomeados pelo PT. dito isso confesso que chorei com a cena em que se canta o tema da primeira eleição de Lula, quando cada ator conta o que estava fazendo naquele ano, quando é relembrado o período do lulismo, um período de conciliação de classes; mas porque o choro? porque dói lembrar que muitos e muitos trabalhadores confiaram em Lula, e no PT, e foram traídos, e permanecem sendo traídos, tendo suas lutas freadas em nome de um bem maior, na defesa descarada do regime vigente.

Outra questão latente que permeia a peça é a questão das mulheres - que pode parecer dramatizado demais para alguns olhares, mas é necessário que seja assim para que se escancare uma violência que é tão cotidiana e naturalizada.

A Cia. Antropofágica não se intimida em criticar a indústria cultural, que transforma a arte em mercadoria para servir aos capitalistas afim de alienar ainda mais a classe trabalhadora. Desfilam Princesas da Disney, Mickey, Piu-Piu, super heróis... e toda sorte de figuras que representam essa indústria cultural que tentam a todo custo sufocar uma arte Anticapitalista.

A peça se encerra com um retorno a cena em que se repete a fala de Érico Veríssimo e os atores riscam fósforos incansavelmente, é como se a Cia. Antropofágica dissesse que não irá desistir e continuará resistindo e iluminando - mesmo com uma chama frágil como a de um fósforo - cumprindo seu papel de artista.

Eu que tanto me nego como artista porque não encontro como o ser em meio a exploração e opressão do capitalismo sai com uma força e uma resistência rebocada, com a certeza de que sou artista e que meu papel é continuar a riscar fósforos com os meus poemas.

Serviço:
Sexta e sábado - 21h
Domingo - 19h
Local: espaço pindorama
Até 22 de abril




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