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Opressão e exploração: identidade de gênero, raça e antagonismo de classe no capitalismo

quarta-feira 25 de julho| Edição do dia

Opressão e exploração: a relação entre feminismo e marxismo

A relação entre exploração e opressão atravessa o debate e as tensões entre marxismo e feminismo há pelo menos 50 anos. Muitas vezes autoras e autores versaram sobre análises e saídas que acabam por separar, por um lado, do ponto de vista histórico e estratégico, no sentido do combate, ou igualar, por outro, as duas categorias, como se as mulheres fossem uma classe social. Queremos aqui dar centralidade para a combinação entre ambas, entendendo suas diferenças a partir de uma perspectiva marxista da relação entre o antagonismo de classe e a identidade de gênero e raça. Entendemos que a opressão à mulher, bem como a exploração de classes é anterior ao próprio surgimento do capitalismo, assim como aponta Engels em seu livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, mas que é exatamente nessa divisão da sociedade em classes que também se dá a origem da opressão à mulher.

“...o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros” (ENGELS, 1984, p.71).

Essa perspectiva histórica de que Engels trata combate as visões naturalizantes da opressão à mulher, como se fosse uma lei natural a condição das mulheres na sociedade, e mostra como tanto os antagonismos de classe e de gênero se dão nos marcos da divisão social do trabalho, assim também como já se combinam, desde antes do surgimento do capitalismo, as classes sociais com o surgimento do patriarcado. Queremos dizer aqui que antes mesmo do surgimento do capitalismo enquanto sistema econômico se dava a relação entre opressão e exploração e que esta vai ganhar cada vez mais potencialidade a partir do surgimento do próprio capitalismo - que se estrutura sobre o patriarcado.

A partir de uma visão marxista, entendendo que a história se constitui a partir da luta entre classes sociais, podemos dizer que as sociedades se relacionam com a natureza e garantem a reprodução da vida com a centralidade do trabalho. No capitalismo, isso assume a forma de que uma classe minoritária detém os meios de produção e outra, majoritária, apenas a sua força de trabalho, portanto exploração é a relação entre essas classes, na qual uma a partir de explorar a força de trabalho da outra consegue se apropriar do excedente do trabalho produzido. Um conceito importante dessa expressão é o de mais-valia, que é a raiz da exploração do trabalho, onde uma fatia do que é produzido fica com uma classe, na forma de salário, para a reprodução da vida, e todo o restante é apropriado a classe dominante, havendo tempo de trabalho não-pago, que gera, com isso, mais-valor.

Ou seja, exploração é uma categoria que expressa a relação econômica dos antagonismos de classe, que na sociedade capitalista se simplifica gerando duas classes sociais fundamentais: a burguesia e o proletariado.

Já a categoria de opressão não alude a uma relação fundamentalmente econômica, mas social, definindo que existe uma relação de subordinação entre grupos sociais distintos, que pode ser relacionada à raça, etnia, gênero, religião, padrões culturais, sexualidade, que por processos históricos distintos passam a atribuir a determinados grupos desvantagens em relação a outros, usando para isso a ideia da diferença que se transforma em dominação de um grupo sobre outro (D’atri, 2017). Nesse sentido, podemos dizer que as mulheres, que em nossa sociedade carregam uma relação social de subordinação em relação aos homens, não são uma classe social. Pelo contrário, por serem um grupo social podem atravessar as distintas classes, já que sua posição em relação ao trabalho do ponto de vista da produção não é determinada pelo fato de ser mulher, mas pela classe social que ocupa junto a outros homens. Porém, isso não quer dizer que não há relação entre exploração e opressão; é justamente a relação entre essas duas categorias que se tornou indispensável para a análise marxista da sociedade atual, bem como às perspectivas emancipatórias dos grupos oprimidos.

É na relação entre opressão e exploração que se “potencializam e renovam as formas de exploração e de dominação capitalista”, já que a subordinação das mulheres e dos negros enquanto grupo aprofunda a exploração do trabalho, ao mesmo tempo em que rebaixa as condições de trabalho e salário de toda a classe trabalhadora - em O Capital, Marx utiliza a definição de “cheap labour”, o trabalho barato. Assim, a mulher, antes enclausurada no ambiente doméstico, com um trabalho que não é pago, garante toda a esfera reprodutiva do trabalho, o que assegura as condições para que ela, quando isso passa a se dar, e os entes de sua família possam trabalhar todos os dias. Nesse sentido, determinam-se as duplas e triplas jornadas, somando a jornada de trabalho ao cuidado com os filhos, à limpeza da casa, à alimentação, ao cuidado com os doentes, à lavagem das roupas. Isto é, as mulheres, além de serem um fator de superexploração da mão-de-obra, maximizando diretamente a mais-valia gerada, seguem sendo, com suas duplas e triplas jornadas, componente fundamental de geração de valor indiretamente, garantindo as tarefas de reprodução da vida, como trabalho não-pago apropriado pela classe detentora dos meios de produção.

A entrada ao mercado de trabalho significou um avanço porque se trata da incorporação das mulheres à produção, passando a ser parte da classe trabalhadora produtiva, ao mesmo tempo em que esse avanço se dá de forma precária, nos piores postos de trabalho e com os piores salários, e isso afeta com ainda mais força as mulheres negras. Para a acumulação primitiva de capital e surgimento da exploração capitalista, foi vital inserir o trabalho forçado no centro da vida dos negros. Assim, o trabalho foi elemento de nivelar, pela brutal exploração, homens e mulheres negras, se comparado com homens e mulheres brancas. Para se ter uma ideia, já em 1890 nos EUA, das 2,7 milhões de mulheres negras, mais de 1 milhão eram trabalhadoras assalariadas, fora as que trabalhavam em empregos não formais (DAVIS, 2016). Assim, a relação entre racismo, machismo e capitalismo e portanto entre opressão e exploração, torna-se ainda mais potente, fazendo das mulheres negras as mais exploradas dentre os explorados, marcando também o trabalho nos dias atuais, como podemos ver com a enorme diferença salarial entre mulheres negras e homens brancos (TRISTÁN, 2017).

Assim, sustentamos que é o pertencimento à determinada classe social que nos divide enquanto grupo. Ainda que as mulheres, sobretudo as mulheres negras, sejam socialmente subordinadas pelo Estado, fazendo com que homens e brancos ocupem posições superiores na sociedade, essa opressão será demarcada pela classe da qual é parte, que faz com que inclusive mulheres possam ser exploradas por outras mulheres. Isso significa que, em uma sociedade estruturalmente fundada sobre a desigualdade, a partir da existência da propriedade privada dos meios de produção e da exploração do trabalho, existe uma classe social que se sustenta a partir dessa desigualdade e dela fazem parte inclusive mulheres, negros (em minoria), LGBTs e outros setores oprimidos. A questão é que essa desigualdade se articula a determinadas diferenças, social e historicamente determinadas, e as transforma em motor. Logo, é certo que a opressão à mulher faz com que na nossa sociedade a maioria dos explorados e a minoria dos exploradores sejam mulheres, e menos ainda mulheres negras, mas também é certo que não podemos tratar um grupo social como algo em si, ou perdemos assim qualquer potencial de transformação, já que qualquer perspectiva emancipatória passa pela abolição desse sistema de desigualdade. Em outros termos, não é possível qualquer perspectiva emancipatória sem o fim da classe social que se beneficia da e sustenta a desigualdade, pondo fim à propriedade privada. Embora uma menina imigrante nos EUA e Melania Trump sejam mulheres, a classe lhes impõe interesses antagônicos irreconciliáveis - já que a existência de uma mulher como Melania Trump é possível apenas em detrimento da menina imigrante nos Estados Unidos.

É essa relação que também mostra Angela Davis, incluindo aí com muita centralidade o debate racial, em seu livro “Mulheres, raça e classe”, quando fala da sufragista Susan B. Anthony:

“A forte posição feminista de Susan B. Anthony era também uma forte reflexão da ideologia burguesa. E foi provavelmente devido ao poder cego da ideologia que ela falhou em compreender que a classe de mulheres trabalhadoras e bem como as mulheres negras estavam fundamentalmente ligadas aos seus homens pela exploração de classe e opressão racista que não discriminava entre os sexos. Enquanto o comportamento sexista dos seus homens definitivamente tinha que ser desafiado, o inimigo real – o seu inimigo comum – era o patrão, o capitalista ou quem fosse responsável pelos salários miseráveis e as insuportáveis condições de trabalho e a discriminação racista e sexista no trabalho” (DAVIS, 2016, p.47).

Ao realizar a distinção de que “o comportamento sexista dos seus homens”, contendo aqui a noção em “seus” como da sua própria classe, deve ser “desafiado”, enquanto existe um “inimigo real”, o capitalista, Davis trabalha com a distinção fundamental entre opressão e exploração. Na raiz, ao contrário da relação de exploração, o que se coloca é que homens e mulheres, brancos e negros enquanto grupos sociais não carregam por constituição interesses irreconciliáveis segundo os quais o fim das opressões signifique a abolição dos grupos socialmente dominantes - não é preciso objetivamente acabar com homens, brancos, etc, para por fim às opressões, enquanto isso é necessário quando se trata de burgueses e proletários. A emancipação do trabalho e o fim da exploração tem como pressuposto o fim da apropriação individual do produto do trabalho, significando o fim da propriedade privada. Isso dá bases a que um seja “desafiado”, já que no seio da classe trabalhadora, enquanto ideologia dominante, há machismo, racismo, LGBTfobia e distintas manifestações de opressões, e isso, dentre outras questões, trabalha a que mulheres e homens, negros e brancos não se vejam como parte da mesma classe social e coloque os setores oprimidos em posições de subordinação, e o outro seja considerado “inimigo real”.

Da insubordinação à institucionalização: o feminismo da segunda onda e a resposta neoliberal

O feminismo da denominada segunda onda é o que esteve em debate diretamente com as categorias marxistas de exploração, classe social, trabalho, exatamente porque também é parte de um dos períodos históricos de ascenso da classe operária, que compreende os anos de 1968 até 1976, resultado do fim do boom econômico do pós-guerra, produzindo a perspectiva de enfrentamento com os pilares da Ordem de Yalta, o imperialismo e suas derivações nas semi-colônias e também contra o stalinismo. Assim surgem experiências como o Maio de 68 francês, mobilizações nos EUA contra a guerra do Vietnã, a Primavera de Praga, o Cordobaço na Argentina, e os processos de libertação nacional em Angola e Moçambique, e se ergue, junto a essas experiências, também uma enorme potência do movimento dos setores oprimidos, com Stonewall, o movimento negro com seu “Black-power” e os panteras negras, além de um poderoso movimento feminista subversivo, que queima sutiãs e grita por igualdade, relacionada ao corpo, ao trabalho e aos salários.
É nesse mesmo período, assim como aponta Piscitelli, que estão situados os debates em torno do conceito de gênero, retirando o “ser mulher” do âmbito da natureza, do “sexo”.

Assim, as feministas da chamada segunda onda protagonizam um movimento de mulheres que se organiza internacionalmente e, apesar das diferenças internas de correntes de pensamento, como feministas socialistas e feministas radicais, constituem-se num movimento anti-instituição, que se liga aos processos da luta de classes para questionar a casa, o trabalho, e toda vida social de opressão às mulheres, conquistando direitos no que tange ao salário, à reprodução, além de retomar nas universidades e grandes centros de conhecimento a história das mulheres e as discussões referentes à identidade de gênero.

Esse processo de ascenso da classe operária e dos setores oprimidos foi derrotado e desviado, combinando repressão, concessões do Estado, buscando cooptar para dentro das instituições burguesas expressões da luta das mulheres, e traição de suas direções social-democratas e stalinistas, com expressões nos golpes militares na América Latina e de capitalização às democracias capitalistas nos países centrais. A resposta a esse processo foi uma contraofensiva imperialista chamada neoliberalismo, simbolizada por Reagan e Thatcher, que trouxe uma enorme degradação do trabalho e da vida social, com privatizações, desemprego crescente, formação de grandes favelas e que estabeleceu a exacerbação do indivíduo e varreu a insubordinação do feminismo da segunda onda, dando lugar à fragmentação da classe operária como sujeito de transformação da sociedade capitalista e a ideia de que a revolução social não era mais possível, portanto restava o capitalismo como única saída, fincando assim a estratégia de alcançar demandas por dentro do Estado e da libertação restrita ao âmbito individual.

Nesses marcos, grande parte do feminismo abandona a luta contra a ordem social, ideológica e moral imposta pelo capitalismo e adentra o horizonte da luta por “reconhecimento”, canalizada às noções de transgressão e resistência simbólica. Segundo Daniel Bensaïd, a resistência “é em primeiro lugar, um ato de conservação, a defesa encarniçada de uma integridade ameaçada pela destruição”. Se, por um lado, as experiências do movimento operário com as social-democracias e os PCs, que no plano político tornam-se diretamente implementadores dos ajustes neoliberais e no plano sindical aprofundam a burocratização das entidades sindicais nos países centrais, que avançam na tutela do Estado, por outro, a noção de movimentos sociais, enquanto “sociedade civil organizada”, que a partir de suas pautas tem espaço aberto na agenda dos governos capitalistas, marca o divórcio entre as organizações operárias e os movimentos dos grupos oprimidos nesse período - isto é, a separação da luta contra a opressão da luta contra a exploração. Assim, o estado de “conservação”, citando Bensaïd, que se pode observar a partir das estratégias de “resistência” é parte, em última instância, de um não-enfrentamento com as instituições do “Estado-democrático”, que deixa de ser interpretado, no seio da luta de classes, enquanto instrumento da classe dominante.

A insubordinação que havia arrancado conquistas às mulheres, a partir de sua força, transforma-se numa estratégia pautada pela negociação de direitos com a agenda neoliberal, em regimes democráticos nos quais paulatinamente se conquistaria equidade de gênero. O fato é que, em paralelo a isso, o mundo do trabalho sofria profundas transformações, com um processo de “feminização” marcado por gigantesca expansão da participação das mulheres na força de trabalho, sendo, entretanto, a cara (muitas vezes negra) da terceirização que se expande, das subcontratações e da informalidade. Isto é, ao passo que se assistia à institucionalização dos movimentos sociais, dentre eles o feminista, mais do que nunca a opressão servia à precarização do trabalho para superexplorar.

Um debate com o conceito de interseccionalidade

Como parte dos debates que se instalaram no período, está a relação do movimento de mulheres com as noções de “igualdade” e “diferença”. Enquanto se postula, por um lado, que a noção de “igualdade” entre homens e mulheres, com centro na discussão das “relações de poder”, deu base à cooptação de parte do movimento feminista pelo Estado pautada por um igualitarismo aos homens e acusado pelas feministas “da diferença” de se venderem por migalhas a um sistema patriarcal, a discussão da “diferença” surge em resposta, pela valorização da feminilidade, da mulher como “outro” e por isso tendo como saída o que seriam suas vivências particulares e redes de solidariedade entre as mulheres, como “bolhas” de um mundo feminino. É nesses marcos que mulheres negras, lésbicas, dos países chamados de “Terceiro Mundo” questionam esses valores “femininos” que mascarariam as diferenças entre as próprias mulheres. Qualquer “universalismo” ou “essencialismo” do conceito “mulher” teria caráter normativo e expressaria a dominação da mulher branca, anglo-saxônica, heterossexual, sendo impossível a noção de um sujeito político único. Da diferença de gênero e raça, passa-se a discutir as diferenças entre as próprias mulheres, com suas distintas experiências de opressão e identidades - assim como dentre os próprios negros. Os estudos localizados e os novos estudos culturais no campo acadêmico vêm como uma resposta a isso, no intuito de esse sujeito político fragmentado falar por si mesmo. (D’Atri, 2017)

É nesse contexto que Crenshaw escreve:

"A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as conseqüências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. Utilizando uma metáfora de intersecção, faremos inicialmente uma analogia em que os vários eixos de poder, isto é, raça, etnia, gênero e classe constituem as avenidas que estruturam os terrenos sociais, econômicos e políticos. É através delas que as dinâmicas do desempoderamento se movem. Essas vias são por vezes definidas como eixos de poder distintos e mutuamente excludentes; o racismo, por exemplo, é distinto do patriarcalismo, que por sua vez é diferente da opressão de classe. Na verdade, tais sistemas, freqüentemente, se sobrepõem e se cruzam, criando intersecções complexas nas quais dois, três ou quatro eixos se entrecruzam."

Se a noção de “igualdade” cumpre o papel de escancarar as relações de poder e o caráter histórico da dominação racial e patriarcal, desnaturalizando qualquer concepção de “feminino” e “masculino” em si mesmo, a compreensão de distintas identidades oprimidas cumpre o papel de expressar a magnitude da subordinação aos quais os grupos oprimidos são submetidos, com a reaparição do conceito da categoria classe como relevante à experiência da opressão. Entretanto, o conceito de “subordinação”, nos marcos da definição de “opressão de classe”, trata “classe” como mais uma variável que deve ser levada em conta na compreensão da dominação das identidades. Assim, embora o conceito de interseccionalidade tenha surgido buscando confrontar o feminismo burguês branco, suas bases dão uma resposta equivocada à relação entre opressão e exploração, já que não parte da diferenciação entre essas categorias.

Nesses marcos, ao mesmo tempo em que o marxismo “questiona a abstração metafísica da igualdade formal que aprisiona as diferenças concretas em um universalismo vazio” (D’Atri), o pertencimento de classe não pode ser agregado a uma soma de identidades, porque é a partir da posição dos sujeitos no mundo material que as identidades se constituem e as diferenças adquirem dimensão concreta, em relação às demais identidades. Isso porque não se trata de ver relações de subordinação em abstrato, já que isso esconde o papel chave que a economia cumpre na sociedade, isto é, do uso que o capitalismo enquanto sistema concreto faz das diferenças, transformando-as em desigualdade. É nessa organização societal que se constróem gênero, raça, etnia, sexualidade.

Desse modo, frente à compreensão das experiências concretas dos sujeitos, existe como armadilha a contra-cara do essencialismo que vê uma mulher única: a absolutização das diferenças, impedindo a atuação coletiva. Isso fortalece a perspectiva de que se trata de uma emancipação individual, gradual e evolutiva de superação de cada sujeito, com seus próprios valores e aspectos culturais, em suas lutas particulares por “empoderamento”. Essa saída, por si mesma, pressupõe a aceitação das relações econômicas capitalistas, fundantes da desigualdade, o que significa, em última instância, não dar uma saída de classe à exploração.

Conclusão

Concluímos assim que por mais que historicamente há inflexões, o feminismo sempre teve o marxismo como um de seus interlocutores exatamente pela necessária articulação entre as categorias de exploração e opressão. Do ponto de vista analítico, é evidente que existem múltiplas experiências de opressão, com distintos elementos de subordinação na vida social, mas, enquanto saída, encarar classe como “mais uma variável” corrobora para essa noção particularista. Isso não significa dizer que a luta contra a exploração é condição suficiente à luta contra a opressão, porque isso seria recair em reducionismos econômicos, já vivenciados na história, como o próprio stalinismo (como se, expropriados os burgueses, as mulheres estariam automaticamente emancipadas). Entretanto, o peso das derrotas históricas e do neoliberalismo na constituição das teorias feministas tem como risco o não entendimento da luta contra a exploração como condição necessária ao combate à opressão, transformando a luta das mulheres, dos negros e demais setores oprimidos em um mero ato de “resistência”, sem nenhuma perspectiva que aponte à emancipação de fato (a oposição entre empoderamento, lido como uma saída individual, e emancipação) - é o que está contido na crítica à interseccionalidade.

Referências Bibliográficas

ASSUNÇÃO, Diana. Feminismo e Marxismo. In: ASSUNÇÃO, D. D’atri, A (org). Feminismo e Marxismo. São Paulo: Edições Iskra, 2017. p.11-30.

CRENSHAW, Kimberle. Documentos para o encontro de especialistas em aspectos da
discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, ano 10, 2002.

D’ATRI, Andrea. A complexa relação entre patriarcado e capitalismo. In: ASSUNÇÃO, D.


. Feminismo e Marxismo. São Paulo: Edições Iskra, 2017. p.31-42.


. Pão e rosas: identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo. São Paulo: Iskra, 2008.


, Feminismos populares: resistência ou revolução (permanente). Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/Feminismos-populares-resistencia-ou-revolucao-permanente. Acesso em: 2 Jun 2018.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.

TRISTÁN, Jenifer. Mulheres negras, capitalismo e revolução. n: ASSUNÇÃO, D. D’atri, A (org). Feminismo e Marxismo. São Paulo: Edições Iskra, 2017. p.109-122.




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