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DOSSIÊ: Dia internacional da mulher negra, latino-americana e caribenha

Opressão a serviço da superexploração: mulheres negras ganham 40% menos que homens brancos

A gritante desigualdade salarial entre mulheres negras e homens brancos no Brasil tende a aumentar com os ataques do governo golpista e a precarização cada vez maior das condições de trabalho. Mas a vida das mulheres negras vale muito mais do que o lucro deles.

terça-feira 25 de julho| Edição do dia

Em pesquisa divulgada em março deste ano, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou dados alarmantes a respeito da desigualdade salarial entre homens e mulheres e entre negros e brancos. O estudo, um “Retrato das desigualdades de gênero e raça 1995-2015”, apontou que, em média, uma mulher negra ganha 40% a menos do que um homem branco no Brasil. As mulheres brancas, apesar de terem salário médio superior ao salário de negros e negras, ganham significativamente menos do que os homens brancos no país.

Também segundo a pesquisa, mesmo ganhando menos, as mulheres trabalham em média 7h30 a mais que os homens por semana. Essa discrepância se dá por conta do trabalho doméstico não remunerado, tarefa quase que exclusivamente da mulher dentro do lar – mesmo quando essa mulher trabalha tanto quanto o homem da família fora de casa, quando realiza trabalho igual e recebe salário inferior.

A naturalização do trabalho doméstico como tarefa feminina recai mais fortemente sobre as negras. O emprego doméstico remunerado é a ocupação principal de 18% das mulheres negras, quase o dobro da porcentagem de mulheres brancas ocupando estes postos. Uma óbvia herança escravocrata que se mantém viva nas incontáveis mulheres negras que seguem trabalhando como babás, empregadas domésticas e afins e na própria arquitetura já naturalizada no país, com apartamentos cujos atrativos comerciais sempre contam com uma abominável “dependência de empregada”.

A precarização do trabalho tem gênero e raça no Brasil. Os postos de trabalho mais precários, como os terceirizados, são ocupados majoritariamente por mulheres negras. Dentre o trabalho doméstico remunerado, uma tendência alarmante se expressou: o número de mulheres trabalhando como diaristas cresceu, numa demonstração de ainda maior precariedade no emprego doméstico.

Não à toa, mesmo com um aumento de 64% na sua renda média ao longo desses vinte anos, as mulheres negras não chegam a receber sequer o salário mínimo pressuposto, que qualquer trabalhador sabe que deveria ser mais alto. Em 2015, quando o salário mínimo era de R$788, o salário médio entre as mulheres negras era de R$763. E entre as trabalhadoras negras, 10,2% eram analfabetas em 2015, contrastando com os 4,9% de mulheres brancas na mesma condição.

LUTAR CONTRA AS REFORMAS É QUESTÃO DE VIDA OU MORTE PRAS MULHERES NEGRAS

O estudo feito em 2015 é alarmante, e mais ainda se levarmos em conta que de lá pra cá um golpe ocorreu no país e hoje a classe trabalhadora se vê em luta contra as reformas trabalhista e da Previdência, após a ampliação da terceirização. Em meio a tantos ataques aos trabalhadores, o setor mais precário vai ser o mais afetado.

Se a perspectiva de não se aposentar revolta os trabalhadores de todo o país, imaginemos a situação das milhões de mulheres negras submetidas a todo tipo de trabalho precário, ao emprego doméstico sem carteira assinada e praticamente sem direitos trabalhistas, que historicamente ganham um salário bastante inferior ao do restante de sua classe.

A ampliação da terceirização tem de ser vista como de fato é: a ampliação em grandes proporções da superexploração das mulheres negras. O ataque aos direitos trabalhistas pesam muito mais sobre as costas daquelas que sempre tiveram menos direitos, menor salário, piores condições de trabalho. Migrando entre diferentes empregos precários por toda a vida, qual a perspectiva da mulher negra e pobre de se aposentar se for aprovada a reforma da Previdência?

A VIDA DAS MULHERES NEGRAS VALE MAIS QUE O LUCRO DELES

Durante os anos de governo petista, as mulheres negras sentiram na pele o que significa um governo de conciliação de classes onde os empresários e banqueiros lucraram “como nunca antes na história desse país”: 12 milhões de postos de trabalho terceirizado. Agora, com a crise e os ataques, as burocracias sindicais traem a classe trabalhadora ou fazem corpo mole, fingindo lutar contras as reformas sem organizar a base dos trabalhadores enquanto fazem coro à campanha de Lula para 2018.

Como poderia interessar à mulheres negras voltar o mesmo governo que ocupou o Haiti com suas tropas, que não legalizou o aborto que mata diariamente mulheres pobres – na sua maioria negras -, e que não lutou contra o golpe que hoje mostra muito bem a que veio?

Os interesses das mulheres negras trabalhadoras nunca poderão ser conciliados com os interesses dos patrões. A burguesia que elabora as reformas é a mesma que depende das opressões, como o machismo e o racismo, pra poder superexplorar o conjunto dos trabalhadores. Os baixos salários das mulheres negras puxam pra baixo o salário médio do trabalhador. As condições precárias de trabalho a que essas mulheres são submetidas deterioram as condições de trabalho do conjunto da classe.

As nossas vidas valem muito mais do que o lucro deles, o lucro de uma burguesia racista e machista. A luta contra a desigualdade salarial entre negros e brancos, homens e mulheres é parte da grande luta contra os ataques dos patrões e dos governos. E a luta contra as reformas é uma batalha de vida ou morte para todos os trabalhadores, principalmente para as mulheres negras.

O combate ao racismo e ao machismo também é uma luta da classe trabalhadora. Apenas com os trabalhadores tomando nas suas mãos a luta por uma sociedade sem opressões é que se torna possível vislumbrar uma real emancipação das mulheres negras e de todos os oprimidos.




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