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VENEZUELA

Oposição e Governo mediram forças nas ruas de Caracas

Embora o chavismo também marchasse neste 1 de setembro, o centro da atenção política nacional estava sobre a manifestação que convocou a oposição com seu chamado a “Tomada de Caracas”.

sexta-feira 2 de setembro| Edição do dia

A direita tomou a iniciativa política nas últimas semanas fazendo girar tudo em volta de seu chamado a uma “Tomada de Caracas” neste 1 de setembro para pressionar, segundo seus dirigentes, para que se realize neste ano o referendo revogatório do mandato do presidente Maduro. O governo de Maduro entrou nessa dinâmica e diante do temor de que fossem massivas, dedicou-se a convocar marchas prévias e o próprio 1 setembro, acentuando até os últimos dias que a direita preparava um golpe de Estado.

O dia era esperado carregado de tensão política, sobretudo por diversos fatos que tendiam gerar ansiedade por ter sido antecedido de situações nada claras, como foram as detenções feitas pelas agências de segurança, relacionadas a supostas atuações de dirigentes da oposição, como Yon Goicoechea da Vontade Popular (partido de Leopoldo López) , que teriam sido apreendidos detonadores de explosivos.

Enquanto nas primeiras horas da manhã de quinta-feira continuasse a tensão, tudo prenunciava que não haveria uma escalada violenta. Desde o dia anterior a oposição aglutinada na chamada Mesa de Unidade Democrática (MUD) dava um giro em sua organização, concentrando todos seus esforços na zona leste de Caracas, na qual controla os municípios, e abandonando um chamado prévio a confluir à Praça Venezuela, no município Libertador, controlado pelo chavismo, que geograficamente constitui o Distrito Capital, e onde se encontram os principais organismos públicos incluindo a casa presidencial, o Palácio de Miraflores.

Escrevemos em um artigo anterior que até o momento a MUD não havia conseguido fazer uma demonstração de forças massiva nas ruas, nem antes nem depois de obter seu triunfo eleitoral do último 6 de dezembro, para conseguir pressionar mais o governo de Maduro e conseguir torcer-lhe o braço. Mas nesta quinta a oposição conseguiu impor uma considerável quantidade nas ruas, embora não tenha coincidido com o que se esperava, levando em conta toda a campanha construída anteriormente e o próprio nome que indicava a “Tomada de Caracas”.

É preciso deixar claro que estiveram longe de concentrar um milhão de pessoas como maliciosamente têm afirmado seus organizadores. Mas desta vez aproximou-se com algo parecido com as últimas marchas do ano de 2007, com dezenas de milhares. Superou inclusive as marchas que convocaram quando questionavam o resultado eleitoral, que elegeu Maduro, ou com relação às que protagonizou no ano seguinte, que tomaram relevância não pela massividade, mas pelas ações de violência que terminaram deixando um saldo de 48 mortos.

Tratando-se de comparações, a oposição colocou mais manifestantes nas ruas nesta quinta-feira que o Governo e o chavismo, a julgar pela quantidade de ruas que a direita conseguiu articular forças, sobretudo na Av. General Francisco Miranda (zona leste da cidade) onde mostrou maior visibilidade concentrada. De todo modo, é preciso ressaltar que apesar de estar golpeado pela crise e a debilidade, o governo não ficou pra trás, concentrando uma brutal manifestação na histórica Avenida Bolívar, na zona central de Caracas, mas sem chegar a fazer retumbar como fazia o falecido presidente Chávez.

Foi marcante, ordenado e o tempo que levou manifestação, incluindo um ato final com um fechamento bastante curto. A concentração terminou com a leitura de um comunicado do secretário executivo da MUD, “Jesús Chúo” Torrealba, no qual insistia sobre as datas para o revogatório, e o chamado a realizar naquela mesma quinta-feira um panelaço às 8 da noite, e na quarta-feira seguinte, 7 de setembro, mobilizações nos escritórios do CNE em toda Venezuela, e na quarta seguinte, dia 14, a oposição convocou um protesto de 12 horas em todas as capitais do país. Foi uma jornada pacífica, apesar de alguns focos violentos horas depois, após anunciar o chamado a dispersão, é de se supor que o setor mais moderado impôs sua política na manifestação de conjunto. Também dirigiu suas palavras ao presidente da Assembleia Nacional, Ramos Allup, mas sem dizer nada marcante, como se buscasse não sair do roteiro previamente acordado.

Se o que a oposição buscava era mostrar forças, não só eleitoralmente como já fizera no passado 6D durante as eleições, podemos dizer que conseguiu mostrar força política nas ruas, embora não nos níveis de sua convocatória. O governo, apesar de além do que havia indicado, terá que aceitar que a marcha não passou das 30 mil pessoas.

Também escrevemos que na verdade o que a oposição estaria tentando impor é buscar uma nova correlação de forças a seu favor no marco da tensão política nacional e as prováveis negociações que poderiam realizar-se nos bastidores, assim como as lutas a respeito do referendo revogatório.

Poucos fizeram leitura da marcante visita de menos de um dia do ex-presidente espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que conjuntamente aos ex-presidentes da República Dominicana, Leonel Fernández, e do Panamá, Martín Torrijos, constituem a mediação internacional que vem dialogando tanto com o Governo como com a MUD nas áreas de acordos políticos que canalizem a conflitiva situação nacional. Nada veio a público, fez suas reuniões reservadas para partir logo ao Estado Espanhol. Terá vindo Zapatero tentar novas pontes entre o governo e a oposição, seu provável encontro com a MUD terá incidido em que este setor tenha decidido evitar a mínima confrontação, incluindo-se a zona leste de Caracas? No mundo dos bastidores tudo pode acontecer, e uma viagem de poucas horas não se faz por turismo político.

O que vem agora? Ainda está por vir a depender de como decantem as águas. Se a MUD decidiu-se diante dos olhos do mundo a não sair pela via mais violenta de rua, ao estilo das manifestações de março e abril de 2014, é um indicativo de que seu peso mostrado agora nas ruas, fará valer uma eventual mesa de negociações.

Como escrevemos em nossa declaração, o próprio processo de referendo, que hoje mancha de vermelho vivo a confrontação entre o chavismo e a oposição direitista, poderia ser o terreno de buscar “consensos”. Ou seja, um pacto que permita apontar a “transição” a um pós-chavismo mais estável, funcional à necessidade de ordem da classe dominante, mediante acordos básicos entre a oposição, setores do chavismo e a FANB, com apoio da “comunidade internacional” (o imperialismo, os mediadores internacionais, os governos da região) e do Papa que, como sabemos, está atuando na crise do país.

Seguramente algo mudou a situação do país. Realizar o referendo neste ano ou no ano que vem se traçará por acordos que chegarem a oposição e o governo. Diante do nível de crise econômica e polarização social, o conflito entre o governo e a oposição, que quer acelerar os tempos para poder tirar Maduro, tensionando a corda ao limite. O mesmo faz Maduro, por exemplo, nesta quarta ameaçou ter preparado o decreto para acabar com a imunidade dos funcionários públicos incluindo os deputados da Assembleia Nacional. Bravata ou não, está por ver-se. Nesta situação de instabilidade política, nada se pode descartar. Esperar e ver.




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