Opinião

ELEIÇÕES 2018

Onde estará o próximo Daciolo de PSOL e PSTU?

O candidato da direita, Cabo Daciolo, é fruto da política oportunista dos dois partidos de esquerda para com as forças policiais.

terça-feira 14 de agosto| Edição do dia

No primeiro debate presidencial das eleições deste ano ocorrida na quinta (9/08), a Rede Bandeirantes brindou a audiência com um debate fraudulento à altura destas eleições controladas pela Lava Jato, que está escolhendo à dedo os candidatos que podem concorrer. Mas esta não foi a única surpresa. Ao lado dos inúmeros candidatos reacionários apresentados pela burguesia estava um novo rosto desconhecido até então. O Cabo Daciolo, lançado pelo Patriota (ex Partido Ecológico Nacional), entrou na competição para arrancar votos do reacionário Bolsonaro com um discurso em defesa dos militares, contra a ameaça do comunismo e com "Deus no comando".

Em seu encerramento, o candidato não só terminou lendo um trecho da Bília, como ainda reivindicou o ex candidato Enéas, dizendo que ele sempre esteve certo e não foi levado à sério:

Daciolo é uma aposta para arrancar votos de Bolsonaro e tentar dar alguma chance para Alckmin chegar no segundo turno. Seu partido é uma legenda de aluguel que mudou de nome para "Patriota", tentando convencer o próprio Bolsonaro a sair pela sua legenda.

Mas não é só destas intrigas que é feita a candidatura de Cabo Daciolo. O que nem todo mundo sabe é que quem cumpriu um papel fundamental para lançá-lo na arena da política nacional, sem o qual ele não seria jamais candidato à presidência, foi a própria esquerda, pela via do PSOL e do PSTU. Sim, o candidato responsável pela nacionalização de memes como a "URSAL", ou que declarou que o problema do Brasil é a falta de amor, foi criado e gestado dentro o PSOL, tendo sido disputado até o final pelo PSTU! Mas como o candidato deixou claro na Band, em seu governo, "o comunismo não vai ter vez":

Daciolo é mais uma prova da falência da política de "Segurança Pública" da esquerda do Rio. Insistindo na política de filiar policiais e membros do aparelho repressivo do estado em seus partidos, ignoraram inclusive que a greve dos bombeiros, que Daciolo liderou em 2011, além de pedir melhores salários para policiais tinha dentre suas reivindicações, que fossem comandados por um militar e não por um civil. Criticavam Dilma por colocar um civil no comando do Ministério da Defesa. Para o "Patriota" Daciolo e os bombeiros grevistas, isto era um ultraje, pediam que fosse um general, brigadeiro ou almirante. Esse é o tipo de anticomunista que PSOL e PSTU disputaram.

A ilusão de que os policiais são parte da "classe trabalhadora", posição que criticamos inúmeras vezes no PSOL e no PSTU, levou o PSOL a criar seu próprio Bolsonaro. A disputa foi acirrada e o PSTU tentou ganhá-lo ate o final.


Congresso da ANEL, entidade estudantil do PSTU, em 2011 e "com Deus no Comando".

Em 2016, pós golpe institucional, Daciolo foi ganhando a cena posando em fotos ao lado de Bolsonaro, e em seguida propondo uma emenda à Constituição de 88, pendido para modificar a parte em que está "todo o poder emana do povo", que ficaria substituída por "todo poder emana de Deus". Isto foi demais para o PSOL, que começou a receber críticas de seus próprios eleitores. Como manter Daciolo significava perder votos, aí sim, o PSOL decidiu expulsá-lo. Enquanto tardavam para decidir a expulsão, escrevemos este texto

O PSOL ainda decidiu que Daciolo manteria seu mandato mesmo assim. Se não fosse isso, talvez nem fosse candidato à presidência hoje. Ao contrário de ser filho da "onda conservadora", Daciolo foi gestado pela própria esquerda carioca que segue repetindo os mesmos erros ao filiar centenas de policiais nacionalmente, e, no Rio de Janeiro, lançar um delegado de polícia como deputado, para "disputar os policiais para a consciência de que são trabalhadores". Os mesmos policiais que, no caso, não investigam o assassinato de Marielle, e são responsáveis pela morte de inúmeros jovens negros como Marcos Vinícius e muitos outros.

Ao invés de aprender com esta experiência, o PSOL decidiu fazer uma política ofensiva de filiação de centenas de policiais para "dar resposta ao problema da segurança pública" no Rio de Janeiro. Até lançarão um delegado como candidato no Rio de Janeiro! Imagine quantos Cabos Daciolos estão sendo gestados dentro do PSOL neste momento? Aberto aos policiais e fechado para a independência de classe, o PSOL chega mesmo a defender que no Rio de Janeiro o problema da violência policial, que manda helicópteros para atirar em cima das casas dos moradores de favela, é a "falta de investimento em inteligência". Esta mesma inteligência que não é usada para investigar o assassinato de Marielle, e, ao contrário, é usada para reprimir os movimentos sociais e as greves de trabalhadores, como vimos nos casos dos 23 ativistas condenados do Rio.

Este mesmo afinco para filiar policiais, não vemos o PSOL demonstrar em qualquer outra categoria de trabalhadores. A mesma comparação entre a greve dos bombeiros e as greves de outras categorias poderia ser feita.

Até os dias de hoje, PSOL e PSTU seguem reivindicando terem "disputado" o seu "Bolsonaro" para as ideias "socialistas". E realmente "disputaram" ele, afinal Daciolo defendeu o limitado programa de "auditoria da dívida pública" defendida pelo PSOL (ao contrário de Guilherme Boulos no debate da Band).

Na verdade, Guilherme Boulos e o PSOL estão tão preocupados em se prepararem para gerir o Estado, que abrem mão da elementar medida anticapitalista de não pagamento da dívida pública. O próprio programa reformista de auditoria da dívida pública foi mais abertamente defendido por Daciolo. Que um candidato que se tornou o grande meme nacional tenha levantado esse programa é uma demonstração que para ser socialista tem que se ir por muito mais do que apenas a auditoria, como defendemos neste artigo.

Essa persistência nos erros só é possível por conta do abandono de uma estratégia e um programa de independência de classe, que tenha como centro os trabalhadores, e não a filiação de policiais como se isso fosse resolver a crise social que só pode ser respondida com educação, saúde e emprego, o que se garante atacando os capitalistas. Ao contrário disso, PSOL e PSTU gestaram o seu próprio "Bolsonaro", que tem chances de receber mais votos que as duas legendas juntas!




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