25 de julho: ESPECIAL MULHERES NEGRAS

Onde estão as mulheres negras na universidade?

As mulheres negras correspondem a cerca de 25% da população brasileira, porém, são a maioria nos postos de trabalho mais precários, nos serviços de limpeza e cuidados, muitas vezes reproduzindo os trabalho domésticos. O salário de uma mulher negra corresponde a aproximadamente 30% do total do salário de um homem branco pela mesma função, até mesmo quando essa função já é de um salário extremamente baixo, como entre os terceirizados.

Iaci Maria

Estudante de Pedagogia

sábado 25 de julho de 2015| Edição do dia

Foto: Rodrigo Paiva/UOL

As mulheres negras correspondem a cerca de 25% da população brasileira, porém, são a maioria nos postos de trabalho mais precários, nos serviços de limpeza e cuidados, muitas vezes reproduzindo os trabalho domésticos. O salário de uma mulher negra corresponde a aproximadamente 30% do total do salário de um homem branco pela mesma função, até mesmo quando essa função já é de um salário extremamente baixo, como entre os terceirizados.

Nas universidades, a realidade não é muito diferente. As mulheres são maioria cursando ensino superior, mas mulheres e homens negros ocupam ainda um espaço muito pequeno entre os universitários.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2011, 9% dos jovens negros entre 18 a 24 anos estavam no ensino superior, já entre o grupo de brancos da mesma idade, esse número sobe para 25,6% matriculados em cursos de graduação no mesmo ano. Em pesquisa feita pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), em que foi observada a porcentagem de estudantes negros que concluíram seus cursos, apenas 6,13% se auto-declaram pretos ou pardos. E esses números são ainda menores em carreiras como medicina, no qual o percentual é de 2,66%. Considerando os concluintes que prestaram o Enade, em 2010, somente 16.418 estudantes concluintes se declararam negros, de um total de 267.823 universitários. No ano de 2009, foram 35.958 alunos concluintes negros entre 663.943 estudantes que prestaram o exame.

Nos últimos anos, com a expansão das vagas públicas e notável maior expansão nas vagas privadas, e com a implementação de cotas raciais e sociais em algumas universidades, ampliou-se o número de negros a ingressar no ensino superior. Mas, como é possível observar nas pesquisas, ampliou-se, na mesma proporção, a quantidade de estudantes brancos, o que mostra que mesmo com mais negros estudando, seguem sendo a mesma minoria proporcional, em um país onde representam aproximadamente 50,7% da população.

Ao mesmo tempo, as mulheres negras são a maioria entrando pelos fundos da universidade, para ocupar não as salas de aula, mas os banheiros com vassoura e esfregão na mão: são a maioria entre os trabalhadores terceirizados, nos piores e mais insalubres empregos, com salários miseráveis e nenhuma garantia e segurança de manutenção do emprego.

Expansão da universidade. Onde estão as negras?

Os últimos 12 anos de governo PT com Lula e Dilma foram carregados de promessas de expansão da educação e melhores condições para a população. Criou-se o REUNI, para expandir vagas nas universidades federais, e o ProUni, para subsidiar com dinheiro público as vagas privadas, além de programas como FIES, que facilitam que uma juventude mais precarizada acesse o ensino, mas tendo como base anos e mais anos de endividamento.

Com isso, cria-se um forte projeto de elitização do ensino superior, pois uma grande parte das vagas criadas pelo REUNI são nos cursos de formação de mão de obra qualificada, como as licenciaturas, já o ProUni, cobre as vagas ociosas de todos os cursos, sendo a maioria nos cursos mais voltados para serviços e educação e são nessas vagas, públicas e privadas, que vão se concentrar todo o setor negro ingressante. Ainda assim, a maior parte dos negros estão nas universidades privadas, se endividando, pois o vestibular serve como um filtro social e racial, que impede a entrada da juventude pobre e negra nas universidade públicas. Os poucos negros que entram acabam indo para os cursos mais precarizados. Ou seja, cursos voltados para tecnologias e visados pelo lucro que geram (como as engenharias, o direito e medicina), seguem com suas vagas restritas apenas para um setor da sociedade: os jovens oriundos das classes médias com mais condições de se preparar para o vestibular, que na ampla maioria são jovens brancos. São também os cursos que recebem investimento de empresas privadas, para produzir conhecimento e tecnologia aos seus interesses.

Às mulheres negras cabe ocupar as vagas nas licenciaturas, serviço social, saúde básica... Cursos que, por não gerarem grandes lucros, não recebem grandes investimentos e são cada vez mais sucateados. São também os cursos mais preconceituosamente vistos como formação para um trabalho essencialmente feminino.

A diferença entre raça e classe, que já começa na procura dos cursos, faz surgir dois tipos distintos de universidades, dentro de uma mesma universidade: a universidade masculina, branca e rica, em que os estudantes frequentam os cursos de maior prestígio social; e a universidade feminina, negra e pobre, formada pelas estudantes negras que ingressam nos cursos comumente sucateados, que representam as carreiras tradicionais e a continuidade das atividades tidas como femininas.

Essa divisão faz diminuir, nas mulheres negras, a expectativa de mobilidade social, que seria possível com o curso de áreas valorizadas e com prestígio social, e faz com que elas se contentem com uma medida preventiva para manter certo nível salarial. Muitas delas nem consideram o ingresso nas pós-graduações e, as que o fazem, precisam matar um leão por dia, enfrentando o racismo e todas as dificuldades enfrentadas na graduação, muitas vezes, ampliadas.

Além de todas essas questões, a mulher negra ainda tem que enfrentar a naturalizada noção de meritocracia recorrente nas universidades, as piadas racistas em classe e o descaso, desinteresse e, até mesmo, resistência em relação às pesquisas e discussões sobre a cultura negra, sobre personalidades negras na história e sobre a questão racial numa universidade elitista e majoritariamente branca.

Às que entram, muitas vezes apenas resta desistir

Iniciamos o ano de 2015 com ataques do governo federal à educação. Já foram mais de 9 bilhões de reais cortados do MEC, o que aprofunda uma crise orçamentária que já existia desde o fim de 2014. Foram cortes no FIES, demissão de trabalhadores, cortes e atrasos nas bolsas, etc. Os demitidos foram exatamente os trabalhadores terceirizados, o que significa colocar centenas de mulheres negras nas ruas, sem ter condições de continuar sustentando suas famílias e filhos.

As primeiras bolsas estudantis a serem cortadas foram as de permanência, o que mais uma vez coloca as mulheres negras na situação mais vulnerável, pois são a maioria entre os estudantes que necessitam de tais bolsas. Ou seja, ainda depois de conseguir passar pelo filtro social que é o vestibular, ingressar na universidade e ter que lidar com cursos sucateados e sem investimento, as mulheres negras também são obrigadas a passar pelo processo – humilhante, muitas vezes – de implorar por uma bolsa de permanência estudantil, que nunca são suficientes para a demanda.

São também maioria entre as estudantes mães, e precisam garantir seus estudos e criar seus filhos sem o apoio das reitorias, que não garantem vagas a todas as estudantes e seus filhos nas moradias e nem garante creche gratuita para os filhos de todas as estudantes e trabalhadoras, inclusive das terceirizadas.

Essa negligência das reitorias quanto ao direito à assistência estudantil, mina os sonhos das mulheres negras que tanto lutaram para ingressar na universidade. Muitas delas, sem alternativa, abandonam os cursos e a promessa de mudança.
As barreiras às mulheres negras na universidade ficam evidentes se notamos que raramente vemos mulheres negras dando aula nas universidades e à frente de pesquisas, assim como tão pouco estudamos a história de mulheres negras, suas obras e feitos.

Basta de mulheres negras ocupando apenas as sobras!

É necessário colocar um “basta!” na realidade dessas estudantes e trabalhadoras, acabar com o racismo vivido dentro da universidade. E para isso, as estudantes devem estar aliadas aos trabalhadores. As cotas raciais devem ser urgentemente implementadas, enquanto uma ação afirmativa e demanda histórica do povo negro, e deve ser proporcional à população negra de cada estado. Mas as cotas, ainda que fundamentais, ainda não são capazes de garantir toda a juventude negra dentro da universidade. O vestibular, que é um filtro de classe e, sendo de classe, no Brasil é necessariamente de raça, deve acabar e o governo deve garantir vagas públicas para que toda juventude possa estudar, para que os filhos das trabalhadoras terceirizadas possam também estudar.

Para acabar com o racismo vivido em cada espaço da universidade, é necessário enxergar de onde vem e como se aplica. Não basta exigir o fim do racismo e a punição aos racistas, é necessário exigir garantia de continuidade na universidade, com permanência estudantil para todas que necessitam, assim como seus filhos. É necessário questionar porque existem cursos com alto investimento enquanto outros fecham pesquisas, cortam bolsas, que não por acaso são os cursos de concentração negra. As mulheres negras, junto ao conjunto dos estudantes e trabalhadores, precisam enfrentar as reitorias, que mantém trabalho terceirizado, e são agentes da elitização da universidade, para exigir o fim da terceirização e a efetivação das trabalhadoras terceirizadas sem a necessidade de concurso público.

É fundamental lutar por uma transformação radical da universidade, pondo abaixo sua estrutura racista e levantando uma universidade que produza conhecimento voltado aos trabalhadores, às mulheres negras e toda população!




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