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ALEMANHA

Onda racista após agressões sexuais em Colonia

"Mil refugiados intoxicados acusam massivamente as mulheres alemãs." Assim se escreveram os primeiros títulos depois do Ano Novo na cidade de Colonia. E ficou claro que muitas mulheres sofreram um pesadelo de violência sexista. Pelo ocorrido utilizam-se agora para uma campanha racista massiva.

Lilly Freytag

Berlim, Alemanha

Andrea Lamantia

Berlim, Alemanha

sexta-feira 8 de janeiro de 2016| Edição do dia

Durante Ano Novo na Colonia, pelo menos 75 mulheres sofreram violência sexual frente a catedral da cidade, em um lugar público e cheio de gente, quando só queriam celebrar o Ano Novo. Cada vez que acontece algo assim, é um caso que se soma a violência cotidiana contra as mulheres. Um martírio para as mulheres afetadas, em que muitas seguem sofrendo inclusive anos depois da violação. Cria-se um clima de medo para todas as mulheres que torna mais difícil desfrutar a vida. A violência contra as mulheres também consolida uma "ordem" em que os espaços públicos são masculinos e as mulheres potenciais vítimas.

Ano Novo na Colonia e as reações

O abuso sexual é gravíssimo para as mulheres, mas independentemente de quem as abusou. Porque quando o sexismo se mostra e escandaliza apenas quando homens imigrantes, para depois - ignorando o sexismo do alemães brancos - fazer ideologia da própria "superioridade cultural", isso se chama racismo. É o que se pode observar nos eventos ocorridos na Colonia.

O que se passou exatamente? Na noite de Ano Novo supostamente se reuniu um grupo de mais ou menos mil homens - embora os números variem muito a depender da fonte - em frente a catedral de Colonia. Alguns deles supostamente abusaram e roubaram as mulheres aproveitando a multidão. Inclusive, fala-se de pelo menos uma violação. A imprensa local informou sobre os feitos e uma semana depois todos falam do acontecido. Já se fizeram mais que 100 denúncias com a polícia, das quais pelo menos 75 falam de abuso sexual.

Embora ainda falte informação, porém há um fato que saiu fortemente ao conhecimento: Segundo fortes testemunhas, os agressores haviam sido em sua maioria imigrantes do Norte da África. Este acontecimento obviamente deu uma forte plataforma a direita, que culpa a origem dos agressores como decisivo para os abusos.

O que está claro é que se trata de casos horrorosos de sexismo e violência contra as mulheres que tem que se denunciar obviamente. Porém também está claro que está tendo lugar uma instrumentalização brutal dos fatos por parte dos racistas. O secretário geral do partido conservador CSU, Andreas Scheuer, por exemplo, demandou a deportação imediata dos refugiados que exerçam violência sexual.

Porém não apenas houve reações a direita. Na tarde de terça-feira, várias centenas de pessoas sairam a rua em Colonia para protestar contra a violência contra as mulheres, porém também contra a instrumentalização racista dos acontecimentos. Levantaram banners "contra o sexismo - contra o racismo".

"Os acontecimentos no Ano Novo foram uma expressão extrema de violência sexual contra mulheres. Isso é grave. Porém a violência contra mulheres é um fenômeno cotidiano que sofrem muitas", opinou uma participante. A moderadora do ato, Tanja Wiesehof, disse: "O problema da violência machista não é um caso isolado e muito menos um que tenha a ver com imigrantes".

Racismo e sexismo cotidiano

Embora existam muitos políticos que agora advertem contra uma suspeita generalizada para cima dos imigrantes, o foco na origem dos agressores é o problema. Quem se importaria em mencionar se fossem homens alemães? Sem dúvida, a "indignação" que reclama um político do partido de Merkel CDU, Jens Spahn, não seria tão grande se os agressores fossem identificados como sujeitos "nativos", e é duvidoso até que ponto a imprensa teria noticiado com tanta força sobre os acontecimentos, inclusive se as mulheres abusadas tivessem denunciado os delitos. Apenas em uma pequena fração dos casos de assédio sexual na Alemanha houve denúncias para a polícia, porque a experiência indica que em muitos casos não se acredita nas mulheres, que são apontadas como culpadas.

É um passo adiante que se acredite nas mulheres quando elas denunciam os assédios cotidianos aos quais se vêem submetidas. Mas é uma mostra de um racismo aberto que só se dê credibilidade e espaço na imprensa nos casos em que se trata de denúncias de mulheres brancas contra imigrantes.

A operação ideológica é semear suspeitas sobre a comunidade imigrante, como se imigrantes e refugiados fossem sempre sexistas e como se a violência contra as mulheres por parte de alemães "nativos" fosse uma exceção. Pelo contrário, os assédios sexuais são parte da vida diária das mulheres que vivem na Alemanha, sem importar sua origem. E têm lugar em todos os setores da sociedade. Milhões de mulheres são afetadas por assédio sexual em seus locais de trabalho e nas ruas, mas principalmente no âmbito privado, na família. Além disso, enfrentam permanentemente piadas e publicidade sexista. A hashtag #Aufschrei ("grito"), que dois anos atrás usou como tema o sexismo cotidiano, encontrou resistência, mostrando a aceitação que o sexismo tem na sociedade.

Em Colonia isso se expressa principalmente no carnaval que em cada ano é uma festa do abuso sexual normalizado. Por exemplo, uma tradição do carnaval renano é o "beijinho": os homens no desfile de carnaval pedem para mulheres jovens lhes darem um beijo na bochecha; quem não quer participar é uma "desmancha-prazeres". O periódico colonês explica: "o ’beijinho’ segundo advogados alemães é parte da tradição. Quem o interpreta como assédio sexual deveria ficar longe do carnaval". Assim uma pessoa pode interpretar o mundo da maneira que lhe convém.

A violência sexual só é reconhecida se "os outros" a exercem. Se são homens alemães que a exercem - e isso como parte da nossa "boa tradição" alemã! - é culpa das mulheres se elas se expuseram a isso. Um caso clássico de culpabilização da vítima.

As novas propostas do prefeito de Colonia são semelhantes. Haverá regras de comportamento para mulheres e meninas para eventos grandes, como se fosse responsabilidade das vítimas se proteger contra o sexismo. E haverá "regras de comportamento para os carnavalistas de ’outras culturas’ para que ’não confundam o que é um comportamento alegre em Colonia com o que não tem a ver com ser aberta’ sexualmente". Claro, não é sempre fácil de reconhecer o que é machismo, já que o verdadeiro sexismo é normalizado e encoberto pela ’tradição’".

Com a mesma lógica e em delimitação de outros países, a igualdade de direitos na Alemanha se converte cinicamente em um exemplo. Assim, a ex-ministra da Família, Kristina Schröder, exigiu uma discussão sobre as "normas de masculinidade em outras culturas e legitimam a violência", enquanto que a "feminista" de direita Alice Schwarzer seguiu com as difamações racistas e falou de uma falsa tolerância para homens muçulmanos que, em sua opinião, trariam o terror e a guerra para Colonia e que colocariam em perigo as conquistas da equiparação.

Juntos contra o sexismo e o racismo

Enquanto os direitistas de Pegida e outros grupos só se interessam pelos direitos das mulheres se podem usá-los para sua própria agenda racista, em outros casos, o bem estar das mulheres não importa nem um pouco para eles quando fazem com que elas retrocedam ao seu papel tradicional na família ou quando querem proibir o acesso ao aborto. Sua preocupação pela autodeterminação sexual e corporal das mulheres é portanto uma fraude cínica. Isso também fica claro quando consideramos que só as mulheres alemãs brancas estão falando, porque em nenhum caso eles estão dispostos a proteger mulheres imigrantes e refugiadas que são deportadas para a miséria.

As "feministas" de direita como Alice Schwarzer muitas vezes conseguem se mostrar como defensoras das mulheres. Mas em seus feitos não se interessam pelos problemas reais da maioria das mulheres. Pelo contrário, estão a favor de intervenções imperialistas e não se preocupam com as consequências que elas implicam para as mulheres e o conjunto da população dos países afetados. Com esse apoio alimentam o racismo em seu próprio país e promovem o enfrentamento entre as mulheres na Alemanha. Fazem isso porque seus interesses não são os mesmos da maioria das mulheres e porque vivem uma vida completamente diferente com outras possibilidades: os milhões de euros que Alice Schwarzer tem em suas contas bancárias na Suíça são exemplo disso.

Tradução: Alícia Noronha e Artemis Lyrae




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