Sociedade

CRISE CLIMÁTICA E ECOLÓGICA

Onda de calor na Sibéria: 38 ºC, a temperatura mais alta da sua história

Temperaturas recordes, incêndios florestais e vendaval de mariposas. "As três pragas do Ártico"? Não é natural, nem divino.

sexta-feira 26 de junho| Edição do dia

Imagem: Siberia vía Sentinel 3 de Copernicus.

Na imaginação popular, ter ondas de calor persistentes nos lugares mais frios da Terra é praticamente impossível. Mas o folclore e as crises climáticas não se dão bem: em questão de meses, a Antártica, a Groenlândia e agora a Sibéria experimentaram as temperaturas mais altas de sua história, no contexto do aquecimento global acelerado.

A cidade russa de Verjoyansk, na República de Sakha-Yakutia, cujas temperaturas no inverno podem chegar a -70 ºC, registrou no último sábado 38 ºC, a maior temperatura de sua história, superando o recorde anterior de 37,2 ºC. Nesta época do ano são esperadas na cidade temperaturas em torno de 20 ºC. "O aquecimento do Ártico está oitenta anos à frente", afirmam cientistas da região, citados pelo jornal local Vesti Yakutii.

Como acontece nesses casos, a Organização Meteorológica Mundial antecipou na terça-feira que irá verificar os relatórios de Verjoyansk para estabelecer se realmente foi uma temperatura recorde no Ártico. Os aumentos de temperatura nos pólos estão relacionados ao calor transportado pelas correntes oceânicas, o que resulta no derretimento do gelo e da neve na região.

Não é natural

A importância de desvendar essa questão está no fato de que o derretimento do Ártico ameaça o permafrost, a maior reserva de dióxido de carbono e metano da Terra. Se isso acontecer, liberaria o dobro de gases de efeito estufa do que atualmente existe na atmosfera.

Como já discutimos no La Izquierda Diario, os gases de efeito estufa retêm parte do calor na atmosfera, sem a qual a temperatura da Terra seria de -18 ºC. São gases necessários e que contribuem para o equilíbrio do sistema terrestre. No entanto, uma concentração excessiva desses gases resulta em um superaquecimento da superfície terrestre. O dióxido de carbono se destaca por sua quantidade, é liberado pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão), madeira e atividade vulcânica.

Para o Serviço de Mudança Climática do Copernicus, o programa de observação da Terra administrado pela Agência Espacial Europeia e pela União Europeia, maio de 2020 foi o mais quente já registrado, e curiosamente, as temperaturas mais altas acima da média ocorreram na Sibéria, onde atingiram 10 ºC a mais do que o normal.

Mas não se trata apenas de maio, alertam eles, como evidenciado pela temperatura atingida no último sábado em Verjoyansk. Freper Vamborg, cientista do Copernicus, observa que durante todo o inverno e a primavera, temperaturas do ar acima da média se repetiram, especialmente desde janeiro deste ano.

Para Vamborg, “Embora o planeta como um todo esteja se aquecendo, isso não acontece de maneira uniforme. A Sibéria Ocidental se destaca como uma região que mostra mais tendência de aquecimento, com maiores variações de temperatura”. Por esse motivo, o especialista considera que o inesperado não é que ocorram essas grandes "anomalias de temperatura", mas o quão persistentes ao longo do tempo elas tem ocorrido. De fato, estima-se que nos últimos trinta anos o Ártico tenha esquentado duas vezes mais rápido que a média global.

A região virou notícia pelo infeliz incidente perto da cidade de Norilsk, quando desabou um tanque da Nornikel, a principal empresa de mineração russa, derramando 21.000 toneladas de diesel no Ártico. As autoridades russas tiveram que declarar estado de emergência federal.

Também como consequência das altas temperaturas e da queima de pradarias, a esse cenário se soma as pragas de traças de madeira e incêndios florestais, que no ano passado devastaram cerca de dez milhões de hectares de floresta na Sibéria. E a situação é ainda mais complicada no sul da Sibéria, especialmente nos distritos de Tulun e Lago Baikal, onde as chuvas aumentaram, causando inundações.

A "armadilha" da crise climática, que faz com que muitos não a considerem um problema sério, é que ela não apresenta novos fenômenos, mas sim a exacerbação daqueles que já ocorrem: por exemplo, os incêndios na Austrália não eram incomuns, mas não eram tão longos e antecipados. As ondas de calor na Sibéria também não são novas, mas sua duração sugere o impacto de mudanças mais estruturais e irreversíveis no clima da Terra.

Está claro que o famoso e previsto "efeito de quarentena" devido à desaceleração econômica global não pôde deter os efeitos mais extremos da crise climática. De fato, maio detém outro recorde além das altas temperaturas: registrou um pico histórico na concentração de gases de efeito estufa.

A crise climática é o desafio que as práticas vorazes e destrutivas do capitalismo colocam a humanidade neste século: superar esse sistema e pensar e preparar uma transição energética para uma matriz sustentável e diversificada, baseada em energias renováveis e eficiência energética.




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