DITADURA MILITAR / “ANOS DE CHUMBO” / TORTURA

Olavo Hanssen: acaba de ser reaberto caso do operário morto em sessões de tortura por agentes de Estado

Gilson Dantas

Brasília

sábado 3 de novembro| Edição do dia

Olavo Hanssen: acaba de ser reaberto caso do operário morto em sessões de tortura por agentes de Estado

O caso de um dos operários mortos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar acaba de ser reaberto por membros do Ministério Público [MPF] de SP. Eles denunciam omissão, cumplicidade e ação do Estado contra a vida de Olavo Hanssen.

Em maio de 1970, o operário Olavo Hanssen foi preso arbitrariamente por agentes policiais e, como informa o G1, “foi submetido a afogamentos quando nu, espancamentos no ´pau de arara´ e à ´cadeira do dragão´, assento revestido de metal onde presos políticos eram eletrocutados com pernas e pulsos amarrados, geralmente molhados e com sal na boca para aumentar os efeitos da corrente elétrica. Choques também foram aplicados com o aparelho conhecido como ´pianola Boilesen´, cujas teclas liberavam diferentes cargas de energia quando pressionadas”.

Covardemente assassinado nas dependências do Estado, por agentes da ditadura militar de 64, agora se fazia necessário, para o Estado, criar uma versão pública fake, que não tivesse nada a ver com o ocorrido.

“Inicialmente, os órgãos policiais – como assinala o G1 - criaram uma versão indicando que Hanssen teria morrido por causas naturais e que seu corpo havia sido encontrado em um terreno baldio. Porém, em seguida houve uma nova versão, segundo a qual a vítima teria se suicidado com veneno, sendo então arquivado o caso”.

O Estado tem-se negado, desde então, a assumir seu papel naquela operação sinistra.

A novidade, de dias atrás, é que por ação do MPF, acabam de ser denunciados três daqueles agentes de Estado: o ex-delegado Josecir Cuoco, hoje com 99 anos [que teria comandado as torturas], um procurador militar aposentado e um juiz militar, ambos acusados de omissões [o procurador por ter endossado a versão de suicídio, ao aprovar o relatório do policial sem investigação e o outro magistrado por ter determinado o arquivamento do caso, sem apuração].

A Comissão Nacional da Verdade chegou, no entanto, a acolher depoimentos que apontam para morte – no caso Hanssen – em decorrência de tortura. E que não deixam de pé a versão oficial de suicídio.

Por sua vez, esta iniciativa do MPF parte do pressuposto de que “a morte de Hanssen é imprescritível e impassível de anistia, uma vez que foi cometida em contexto de ataque sistemático e generalizado do Estado brasileiro contra a população civil, o que caracteriza o episódio como crime contra a humanidade”.
Segundo a Folha, “Hanssen foi preso em 1º de maio de 1970 enquanto entregava panfletos numa celebração intersindical em comemoração ao Dia do Trabalhador.

Ele morreu após ser submetido a sessões de tortura nas dependências do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), no centro de São Paulo. As sessões de tortura ocorreram durante mais de seis horas ininterruptas nos dias 2 e 8 de maio sob o comando do então delegado Josecir Cuoco, com a participação do chefe da equipe de interrogatórios preliminares do Dops, Ernesto Milton Dias, e do investigador Sálvio Fernandes do Monte, ambos já mortos”.

Ainda na mesma reportagem da Folha de SP, “A atuação dos denunciados Durval e Nelson buscou apenas ‘legitimar’ a morte de Olavo, omitindo-se no dever de investigar e perseguir os responsáveis pela tortura e a morte da vítima. A omissão tinha o claro propósito de assegurar que os responsáveis pela morte ficassem fora do alcance da Justiça, o que realmente ocorreu”, destacou o procurador da República Andrey Borges de Mendonça, autor da denúncia do MPF.

De acordo com ele, a conduta de ambos fazia parte da sistemática de repressão do aparelho ditatorial, contribuindo para que o Ministério Público e o Judiciário da época não apurassem torturas e mortes ocorridas no período”.

A Folhainforma que "esta é a 38ª denúncia ajuizada pelo Ministério Público Federal nos últimos seis anos em todo o país contra envolvidos em crimes relativos à ditadura militar”

A verdade é que, no caso do Brasil, onde foi lveada a cabo uma transição democrática sob clara tutela militar, aquela anistia foi parcial ao ponto de vetar o julgamento dos torturadores e mandantes da ditadura.

Todos os agentes de do chamado “terrorismo de Estado” foram perdoados.

É importante que essa iniciativa do MP tenha chegado no momento em que procedimentos estão sendo tomados para apagar tais memórias. Isto é, passos estão sendo tomados para, desde o Estado, para se ir ainda além, com o beneplácito do ministro-chefe do Supremo [Toffoli, do STF], no sentido de tratar de reescrever a narrativa histórica daquele processo e “mostrar” que não houve golpe militar. Em seu lugar teria havido outra coisa: um “movimento”. O qual, curiosamente, em nome da democracia, apelou para tanques de guerra e tropas para rasgar a Constituição em vigor e liquidar com o que havia de democracia no Brasil.




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