Opinião

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Ocupar, resistir e ser exemplar: jovens no Paraná e as 300 ocupações

quinta-feira 13 de outubro| Edição do dia

Visitei vários dos colégios ocupados na região de Curitiba, assim como tenho conversado com muitos voluntários que têm feito o mesmo. Nosso sentimento é o mesmo: Que geração magnífica está ascendendo à vida política!

Eles e elas questionam mais, pesquisam, perguntam, são desconfiados é verdade, são curiosos e por isso aquela, essa, educação cartesiana, autoritária e militar em que fomos educados não tem funcionado tão bem com estas mentes inquietas de nativos digitais. Não sou educador, nem especializado em comportamento de jovens da geração Z, nascidos até 2010, mas a educação das escolas tradicionais não privilegia suas capacidades. Salvo alguns professores iluminados como Gabi Viola, que fez junto aos alunos um funk para ensinar Marx tornando a educação horizontal um processo construtivo, geralmente os alunos são obrigados a aprender os verbos ouvir, obedecer e suportar.

Não funciona mais sufoca-los com livros e aulas intermináveis quando o mundo em que vivem oferecem tanta informação quanto um livro didático não pode mais carregar. Seus celulares são portas para vários outros mundos, a um clique oculto de seus professores, em suas mãos. Eu mesmo tive a experiência, em um projeto que participei, de dar aulas usando a tecnologia. Para sair do convencional escolhi a teoria do hyperlink, uma das precursoras da internet, e adolescentes usaram celulares e computadores para descobrir novos conhecimentos sozinhos. Aprenderam sem mim que o Wikipedia funcionava sobre esta teoria.

Claro não estou falando aqui para queimarmos livros, mas sim para repensarmos a maneira como insistimos em ensinar estes jovens. Elas e eles são aprisionados(as) em escolas com grades, salas fechadas e o conhecimento é expositivo ao ponto de ser repetitivo. Nos pergunto humildemente: Acreditamos que o conhecimento de alguém formado no ensino médio a poucos anos é “maior” ou melhor do que o de um destes secundaristas? Por que alguns se sentem tão confortáveis em dizer que eles estariam sendo manipulados?

Nossa sociedade é preguiçosa. Não pesquisa, não participa das escolas e há os que acham, como ouvi de uns engravatados perto de um colégio central: “vão destruir o colégio”. Pobre daquele que tentar manipular estes jovens, empurrar algo goela abaixo, cooptar. Os que acusam todo este movimento de cooptação não conversaram com jovens das ocupações.

Nestes dias em que eles tomaram as escolas para si o que tem acontecido é provocador para sociedade, ainda mais se ela for conservadora. Os jovens têm ensinado música uns aos outros, como na oficina de bateria do CEP. Profissionais, professores, pais e mães têm ensinado fotografia, teatro, cinema, redação e música. Além disso, em São José dos Pinhais, no colégio Guatupê, encontrei uma escola recém limpa e jovens contando de seus recentes afazeres. Há mais de um ano eles não podiam usar o anfiteatro da escola e nem o bicicletário, então resolveram por em ordem o que a direção bagunçou.

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Foram necessários dois dias, mas os jovens organizaram o bicicletário e arrumaram o anfiteatro, além disso eles questionavam o recebimento de R$ 100.000,00 para melhorias que não ocorreram.

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Em todas escolas os alunos limpam, organizam, se ajudam, distribuem alimentos e doações para outras escolas. Outras ocupações organizam mutirões de pintura e revitalização. Porém, a mídia convencional, preguiçosa, não conta estas histórias.

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O que está acontecendo com nossos alunos é que assumem a responsabilidade por suas escolas, suas decisões e seu futuro. São 300 escolas ocupadas com ideias, carinho e preocupação com o futuro e algumas das lições que temos que tirar disso são:

- Não menospreze uma geração com tanto acesso à informação.
- Não desacredite sua capacidade de organização.
- Não acredite que eles acreditam tão facilmente quanto você, pois eles sabem que a mídia tem interesses.
- Eles defenderão seus interesses cada vez mais daqui para frente.
- Aprendamos com eles também, pois ficar olhando a história nem para aulas mais serve. “O negócio é participar”.
- Enquanto falamos “Eu ensino”, “educo”, ... com hierarquia falharemos.




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