Sociedade

OLIMPÍADAS E O CAOS

Obras caindo aos pedaços e superbactérias mostram a verdadeira cara da cidade olímpica

Faltando pouco menos de dois meses para a abertura dos jogos olímpicos de Rio 2016, ninguém na cidade fica surpreso quando aparece no jornal mais um caso de acidente ou mal funcionamento de uma obra recentemente inaugurada combinada com orçamentos milionários e corrupção.

Juan Chirioca

RIO DE JANEIRO

terça-feira 14 de junho de 2016| Edição do dia

Uma ciclovia cenográfica (que custou R$45 milhões) para ’inglês ver’ que desabou com a primeira ressaca do atlântico, o VLT que parou de funcionar no segundo dia de funcionamento. Buracos no recém inaugurado Túnel do Joá. Isso se soma aos descaso da supervia, do BRT e do metrô, que só terá inaugurada sua nova linha em 2018.

A cidade aos poucos vai deixando para trás a imagem de canteiro de obras, mas continua um caos, mudando cada semana os trajetos dos ônibus e a hora do rush dura o dia inteiro. Mas com isto o Carioca já até que está acostumado. Perigosamente acostumado, se pensarmos na atual situação critica da cidade do Rio de Janeiro.

Neste esquema a prefeitura não tem atuado sozinha. O papel que o governo do Estado teve (e ainda tem) no aprofundamento da crise em que está imersa a cidade do Rio não é menor, e é mais uma expressão da crise do Estado do Rio que coloca como uma possibilidade cada vez mais real e concreta a iminência do fechamento de hospitais, escolas e universidades.

A prefeitura sente menos os embates da crise, mas os sente. Em abril desse ano, por exemplo, a câmara dos vereadores autorizou a prefeitura a vender 15 terrenos públicos. A prefeitura justifica a venda dos imóveis por incapacidade de arcar com os custos de gestão e manutenção dos terrenos e que, por isto, e diante da possibilidade destes imóveis serem ocupados por Trabalhadores sem teto, ou seja, usar imóveis para dar moradia aos setores mais desprotegidos da sociedade, o melhor para a Prefeitura era vendê-los.

No final de contas é o projeto de desmonte do Estado e generalização da privatização implementados pelo PMDB, tanto no Brasil como no Rio de Janeiro, onde desde o governo golpista de Temer até a prefeitura do Rio estão em mãos do PMDB que detêm o monopólio de exploração da cidade maravilhosa há já vários anos. Ainda mais a partir do governo Cabral em 2006 que, a partir da aliança com o Lula, trouxe ao Estado e à cidade um forte fluxo de investimento federal (para maiores esquemas de corrupção), coisa que não acontecia anteriormente com figuras de oposição ao PT como Garotinho e Cesar Maia.

Atualmente o governo Pezão/Dornelles, com um estado já falido, anuncia mais cortes ao mesmo tempo que não falta o dinheiro para subsidiar e perdoar dividas milionárias de empresas privadas. A relação de corrupção do PMDB com a cidade do Rio de Janeiro vai até o Senado, pois os empresários da Carioca Engenharia, Ricardo Pernambuco e Ricardo Pernambuco Junior confessaram o pagamento de R$52 milhões em propinas para Cunha para este liberar os recursos do FGTS para super-financiar as obras imobiliárias da OAS, Carioca Engenharia e, claro, a ’infaltável em esquemas de corrupção’ ODEBRECHT.

E se isso tudo já parece demais, superbactérias foram encontradas amplamente nas águas do Rio de Janeiro (100% das amostras com super bactérias na praia de Botafogo, 90% na do Flamengo, e 50% e 60% nas praias de Ipanema e Leblon respectivamente). Essas super bactérias não afetam só seres humanos, fortalecendo também outras bactérias tornando-as imunes a antibióticos.

Mais expressivo, ainda da gestão nefasta do governo da Prefeitura e do Estado RJ, é que essas superbactérias não deveriam estar presentes nas águas do mar, são encontradas normalmente em hospitais e numa cidade onde o esgoto de muitos hospitais públicos é tratado como esgoto comum e por tanto vão parar nos rios, canais no oceano e na baia.

A questão de limpar as águas da cidade do Rio de Janeiro era uma questão importantíssima na candidatura da cidade para sediar os jogos olímpicos de 2016, lá em 2009. Mas o PMDB tornou uma questão que vai além de não criar condições mínimas para possibilitar o funcionamento dos jogos olímpicos, pois afeta e coloca em risco a vida de toda a população da cidade, em mais um esquema de corrupção. A UTR-Irajá, Unidade de Tratamento do Rio Irajáobra de infraestrutura que pretendia limpar a Baia de Guanabara está pronta para funcionar, custou R$40 milhões mas não tem limpado ainda sequer 1 litro de água da baia.

Nem Estado e nem a Prefeitura assumiram os custos operacionais da estação de tratamento, mostrando mais uma vez a desordem e o descaso para com as questões referentes a servir à população e que neste caso o importante não era limpar a Baia, mas desviar recursos para o setor privado com obras super faturadas e uma falsa promessa para garantir a vitória da candidatura carioca para sediar os jogos, da mesma forma que não foi importante ter o metrô funcionando nas olimpíadas, mas sim pegar bilhões dos cofres do estado e da União.

Todo um gigantesco processo de transformação urbana que tem mostrado com mais força seu caráter nefasto e contrário aos interesses e necessidades reais da população carioca quanto mais se aproxima das olimpíadas. O balanço da transformação urbana será provavelmente um dos temas centrais nos debates nas eleições a prefeito da cidade este ano, onde ficará difícil para o já infame candidato agressor de mulheres Pedro Paulo, defender o inexistente sucesso da “reforma”.

Seja quem for o candidato vencedor das eleições desse ano, receberá para administrar uma cidade falida e numa situação econômica nacional e internacional provavelmente mais agravada. Sabendo do verdadeiro legado que deixou na cidade e do futuro que lhe espera ao Rio, o prefeito Eduardo Paes fugirá para Nova York, longe das críticas e ataques, para limpar a sua imagem política e voltar como possível candidato à presidência (?) pelo PMDB e também (pasmem) para dar aulas em Harvard sobre o papel das cidades no desenvolvimento do país.

O buraco é mais embaixo no Rio e a falência do estado combina-se com uma situação ambiental que atenta contra a saúde de milhões de cariocas, turistas e, no caso dos jogos olímpicos, contra centenas de esportistas do mundo todo.




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