Internacional

ARGENTINA - VISITA DE OBAMA

#ObamaGoHome

Obama chegou sob forte segurança e com a bandeira estadunidense desfraldando na Praça de Maio. O macrismo em busca de investimentos. Uma visita provocativa a 24 de Março.

Fernando Scolnik

Buenos Aires | @FernandoScolnik

quinta-feira 24 de março de 2016| Edição do dia

Depois de 10 anos, um presidente estadunidense foi recebido na Argentina. Após sua viagem histórica a Cuba, Obama chegou no país no marco de um novo governo e um contexto de fortes crises em países da região como Brasil e Venezuela. Cuba e Argentina são duas escalas diferentes de uma mesma viagem, com um único objetivo: disputar, numa situação dinâmica, a primazia dos interesses estadunidenses na região.

A chegada de Obama à Argentina é acompanhada desde ontem por uma imagem carregada de simbolismo: as bandeiras da principal potência mundial tremulam sobre a Praça de Maio.

Entretanto, não são só bandeiras. Sobre o território nacional, voam também aeronaves Boeing C40C, C-17, Globemaster III, caças F-116 e helicópteros Black Hawk, para proteger a visita de Obama. Circula também a informação de que chegaram ao país 300 agentes do Serviço Secreto norte-americano para reforçar o esquema de segurança. Os atentados de ontem em Bruxelas tem sido utilizados para redobrar a militarização, ainda que, obviamente, sem fazer referência nenhuma à responsabilidade dos Estados Unidos pelas intervenções no Iraque, Afeganistão, Líbia ou Síria, que semearam o terreno para o surgimento do Estado Islâmico, organização que reivindicou os brutais atentados de ontem.

Junto a este operativo, chegaram também, com Obama, CEOs de grandes empresas que buscam negócios no país. O macrismo os espera ansioso, animado com a chegada de investimentos que (duvidosamente) reativem a economia nacional. Para atraí-los, esforça-se levando adiante as tarefas que pede o mercado, cuja consequência para os trabalhadores é o ajuste em marcha.

Terá um papel importante nestes dias, então, a Câmara de Comércio Argentino-Estadunidense (Amcham), que reúne 614 companhias deste país que operam na Argentina. Os operários de fábricas como Lear ou Donnelley sabem bem do que se trata: tem marchado, em numerosas ocasiões, até a Amcham contra a exploração laboral e as práticas antissindicais destas empresas multinacionais.

Hoje, a chamada “volta aos mercados internacionais” é a proposta das classes dominantes para sair do estancamento econômico, demonstrando que em nada se superou a dependência econômica do país. Como “diversão” para receber Barack Obama, ontem, foi votado no Senado parecer favorável ao pagamento dos “fundos abutres”. Uma nova entrega nacional está em marcha, e será com os votos, no Congresso Nacional, do Cambiemos, mas também da Frente para la Victoria, da Frente Renovador e outros blocos.

“Acabamos com o isolamento”, é como o presidente Mauricio Macri se refere a esta relação com as potências imperialisras, e é o que o mesmo considera a principal conquista de seus primeiros 100 dias de gestão. A chegada de Obama ao país é o maior símbolo desta política, que deve ser enfrentada para evitar um maior submissão que só será paga pelos trabalhadores e o povo.

24 de Março: uma homenagem cínica

O presidente estadunidense terá hoje uma agenda apertada: se reunirá com Macri, farão juntos uma coletiva de imprensa, visitará a Catedral Metropolitana, irá à Usina de Arte para ser nomeado Cidadão Ilustre da Cidade de Buenos Aires, participará de um seminário empresarial na Sociedade Rural e de um jantar de gala no Centro Cultural Nestor Kirchner com dirigentes do oficialismo, mas também da oposição, como Miguel Angel Pichetto e José Luis Gioja da Frente para la Victoria.

Contudo, um dos momentos mais polêmicos da vista de Obama será na quinta-feira, às 10 horas, quando irá, junto a Macri, ao parque da Memória, no 40º aniversário do golpe militar, para realizar uma homenagem às vítimas da ditadura.

Desta maneira, Mauricio Macri, membro de uma família cujo grupo empresarial se enriqueceu e cresceu durante a ditadura, homenageará aos desaparecidos junto ao Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, que dirige as intervenções militares de seu país, comanda milhares de assassinatos com drones, mantém aberto o centro de torturas de Guantánamo e é conivente com o gatilho fácil contra os negros e outras minorias em seu país.

Ontem, familiares dos desaparecidos publicaram uma carta na qual pediram que “não nos utilizem para que o imperialismo lave a cara”, e consideraram que “é um insulto à memória de nossos 30.000 companheiros presos desaparecidos receber o presidente do país que fomentou e apoiou o golpe militar mais sangrento que a Argentina já viveu, assim como no resto dos países da região”.

Nora Cortiñas, referente da Mães da Praça de Maio – Linha Fundadora, afirmou que “o Governo dos Estados Unidos mata, persegue e está fazendo desastres em muitos países do mundo. Como apareceria aos olhos das milhares e milhares de vítimas que, na Argentina, rendemos-lhe homenagem (a Obama), que estivemos lhe apertando as mãos, dizendo-lhe ‘obrigado, obrigado’? Obrigado pelo que? Por favor”.

Cortiñas também pôs em dúvida a seriedade do anúncio dos Estados Unidos a respeito da abertura de arquivos sobre a ditadura argentina. Evocou que, anos atrás, a Casa Branca “mandaram alguns arquivos, mas tinham folhas com nomes censurados. Agora vai acontecer a mesma coisa, seguramente. Vão vir com rasuras como já aconteceu”, denunciou.

Desde a Frente de Esquerda, a deputada nacional Myriam Bregman, advogada procuradora de causas lesa-humanidade, informou que apresentará na Câmara Baixa um projeto de lei “para que sejam abertos os arquivos da repressão, que continuam em poder do Estado” e questionou que os “Estados Unidos nos disse que abriria os arquivos sobre a ditadura argentina quarenta anos depois como se fosse uma história acabada, mas não é, porque grande parte dos genocidas continuam livres, quatrocentas crianças sequestradas não recuperaram sua identidade e as empresas ianques que tiveram centros clandestinos em suas plantas, como a Ford, continuam fazendo negócios impunemente no país. Por acaso vamos poder julgar os funcionários dos EUA responsáveis pela promoção Plano Condor na região?”.

24 de Março: a homenagem dos lutadores

Neste 24 de Março, a Frente de Esquerda dará as costas a Obama e marchará junto ao Encontro Memória, Verdade e Justiça, e dezenas de organizações políticas, sindicais e estudantis. Pelos 30.000 companheiros presos-desaparecidos. Pela prisão de todos os genocidas. Contra o imperialismo, a impunidade e a entrega do país. Contra o ajuste e a repressão. Sejamos milhares nas ruas com estas bandeiras.

Traduzido por Seiji Seron




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