Economia

TRIBUNA ABERTA

O vírus também é uma emergência econômica

Publicamos abaixo a tradução de um artigo de Martin Wolf publicado no Financial Times que pode ser de interesse para nossos leitores pela sua análise, para além das suas conclusões, no qual ele anuncia uma dura depressão econômica e explica os pacotes de resgate dos diferentes governos.

terça-feira 24 de março| Edição do dia

A pandemia não foi inesperada, mas a realidade sempre é diferente das expectativas. Isso não é só uma ameaça para a saúde, também pode ser uma ameaça econômica maior que a crise financeira de 2008-2009. Tratá-lo requererá uma liderança forte e inteligente. Nisso, os bancos centrais tiveram um bom começo, a responsabilidade recairá agora sob os governos. Nenhuma outra situação demonstra melhor porquê um estado, dirigido por pessoas capazes de diferenciar especialistas de charlatães, é tão vital para o âmbito público.

Uma pergunta central é quão profunda e longa será a emergência de saúde. Uma esperança é que o bloqueio de países (como na Espanha) ou regiões de países (como na China) eliminará o vírus. No entanto, inclusivo se isso resulta certo em alguns lugares, claramente não será certo em todos os lugares. Um extremo oposto é que até 80% da população mundial poderia ser infectada. Com uma possível taxa de mortalidade 1%, isso poderia significar 60 milhões de mortes adicionais, equivalentes à Segunda Guerra Mundial. Esta calamidade provavelmente também tomaria tempo: a gripe espanhola de 1918 teve três ondas durante um ano. No entanto, é mais provável que isso termino no meio: a taxa de mortalidade será menor, mas a doença tampouco desaparecerá.

Sendo assim, o mundo poderia não voltar ao comportamento anterior à crise até praticamente o começo de 2021. As pessoas mais jovens poderiam voltar mais cedo ao seu comportamento normal. Mas as mais velhas não o farão. Além disso, inclusive se alguns países eliminam a doença, se manterão as quarentenas contra outros. Em resumo, é provável que o impacto do coronavírus seja severo e prolongado e até lá os formuladores de política devem pelo menos se planejar para isso.


Gráfico mostrando o crescimento do endividamento de empresas não-financeiras como percentual do PIB Global. Azul escuro mostra as empresas de Economias Desenvolvidas e azul claro as empresas de Mercados Emergentes.

A pandemia já espremeu tanto a oferta quanto a demanda. Os bloqueios "lockdowns" direcionam os insumos essenciais mas restringem uma ampla gama de consumos, especialmente entretenimento e turismo. O resultado será uma forte queda na atividade no primeiro semestre deste ano.

A depressão já é uma ameaça. É provável que muitos lares e empresas fiquem sem dinheiro logo. Inclusive nos países ricos, uma grande porcentagem da população quase não conta com reservas. O setor privado, sobretudo o setor corporativo não financeiro, também tem se afundado no endividamento.

A demanda dos consumidores se debilitará ainda mais, com isso as empresas irão à falência. Agentes se negarão a vender para empresas que estejam a beira da falência, a não ser que possam oferecer pagamento adiantado obtendo empréstimos: nisso voltarão a surgir dúvidas sobre a saúde do sistema financeiro. Existe o risco de um colapso de demanda e a atividade econômica que vai muito além do impacto direto da emergência sanitária.


"Os Bancos Centrais jogaram quase tudo na crise financeira" Gráfico mostrando a taxa básica de juros básica dos Bancos Centrais dos EUA (azul escuro), União Européia (azul claro, rosa é a taxa de depósitos, sempre negativa), Inglaterra (verde) e Japão (azul entre as linhas da União Européia).

Também será particularmente difícil conter a propagação da doença em países com seguro social limitado e controle social débil. Isso afeterá sobretudo os Estados Unidos: muitas pessoas doentes se negarão a ir ao hospital e também se verão obrigadas a trabalhar. A segurança social seria mais eficiente.

Como credores de última instância, os bancos centrais devem garantir a liquidez mantendo baixos custos dos empréstimos e financiando a oferta de crédito, tanto direta como indiretamente. Mas hoje os bancos centrais não podem oferecer solvência. Não podem sustentar os salários dos lares, nem assegurar as empresas contra este colapso da demanda. Nisso entra o papel dos governos também como credores e consumidores de última instância, que nesse momento podem e devem garantir a liquidez e os salários dos lares.

A dívida pública a longo prazo tem juros tão baixos que não deveria haver medo de se endividar mais: Alemanha, Japão, França e o Reino Unido agora podem pedir empréstimos durante 30 anos em uma taxa nominal de menos de 1 por cento, Canadá de 1.3 por centro e os Estados Unidos de 1.4%.

Por isso essa seria uma crise de tempo limitado, com consequências econômicas e sanitárias que os governos devem gerenciar. A nível nacional, o mínimo básico é um pagamento generoso para licenças médicas e seguro desemprego, inclusive para os trabalhadores autônomos durante o período de crise. Se isso é difícil demais, os governos podem enviar um cheque a todos.


"A exceção da Itália, os custos de empréstimos de longo prazo desabaram" Gráfico mostrando a queda nos rendimentos de títulos governamentais, que são a base para os juros de empréstimo.

No entanto, inclusive isso não seria o suficiente se o custo humano e econômico de uma falência em massa e uma nova depressão tem que ser evitados. Emmanuel Saez e Gabriel Zucman da Universidade de Berkeley sustentam que: “A forma mais direta de prover… o seguro é fazer que o governo atue como comprador de última instância. Se o governo substitui completamente a demanda que se esvai, cada negócio pode seguir pagando seus trabalhadores e manter seu capital social, como se estivesse operando…. normalmente.” Anatole Kaletsky de Gavekal já recomendou uma resposta similar.

Fornecer esse alívio não criará um risco moral. Ser ajudado durante uma pandemia que acontece “uma vez em um século” dificilmente fomentará a irresponsabilidade atroz. Pois mesmo se as empresas pediram emprestado para além da conta, iriam a falência no final.

Este plano é muito melhor que os empréstimos e as garantias de empréstimos, propostas pelo governo alemão. As empresas utilizarão empréstimos somente para garantir sua sobrevivência durante a crise, não necessariamente para pagar seus trabalhadores. Além isso, os empréstimos deverão ser pagos, criando um peso quando se encerre a pandemia. No entanto, neste programa proposto, os pagamentos podem ser condicionados à manutenção dos trabalhadores. O programa também terminará naturalmente, com a pandemia em si. Posteriormente os governos podem impor impostos adicionais para recuperar o que desembolsarem.

É essencial manter os ingressos e minimizar os custos a longo prazo do colapso das empresas. Além disso, dentro da zona do Euro será essencial ajudar os governos cuja capacidade de endividamento é limitada. A nível mundial, os países emergentes vulneráveis também necessitarão ajuda para gestar as crises sanitárias e econômicas. Também será vital reverter o nacionalismo de soma zero das políticas atuais, que torna mais difícil a reconstrução de uma ordem global cooperativa e saudável.

Isso também acontecerá, mas não será amanhã. A pandemia corre o risco de criar uma depressão. Salus rei publicae suprema lex (a salvação do povo seja a lei máxima). Na guerra, os governos gastam livremente. Agora, também, devem mobilizar seus recursos para prevenir um desastre. Pense grande, atue agora. Juntos.

Publicado originalmente em inglês no Financial Times

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