Economia

TRIBUNA ABERTA

O vindouro dilúvio das dívidas

À medida que o coronavírus provoca fechamentos (lockdowns) ao redor do mundo, o capitalismo terá de se defrontar seu calcanhar de Aquiles: a enorme montanha do endividamento global.

quinta-feira 2 de abril| Edição do dia

Publicado originalmente em Tribune Magazine. Leia aqui.

Enquanto a pandemia de coronavírus se espalha violentamente pelo globo, ameaçando desencadear uma catástrofe humanitária em sua esteira, o mundo subitamente se encontra em meio a um experimento econômico sem precedentes: o que acontece se você forçar um virtual desligamento da atividade produtiva e comercial numa economia global já prejudicada por anos de crescimento anêmico e níveis recordes de endividamento?

Segundo o Instituto de Finanças Internacionais, a dívida total atingiu US$ 253 trilhões no final de 2019, ou o equivalente a 322% do PIB global – o nível mais alto em que já esteve. Agora que grande parte da Europa e da América do Norte estão seguindo a China na imposição de lockdowns de vastas dimensões, crescem as preocupações em torno da viabilidade dessa imensa pilha de dívidas. Na aguda contração econômica dos próximos meses, amplamente prevista como a pior da história em tempos de paz, incontáveis devedores terão dificuldades de pagar suas dívidas. Isto, por sua vez, ameaça desencadear uma forte crise internacional da dívida que fará o crash de mercado e a recessão global de 2008-9 parecerem brincadeira de criança.

Para ser claro: essas vulnerabilidades sistêmicas precedem a pandemia atual e estão há mais de uma década tomando forma. Há anos, os especialistas têm alertado repetidamente sobre os crescentes níveis de endividamento global – com muitos assinalando que mesmo um choque relativamente leve, como um aumento sustentado das taxas de juros, poderia facilmente jogar o mundo numa nova crise financeira. Agora em janeiro, a nova diretora do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, compartilhou sua preocupação de que as novas instabilidades no mercado possam deixar a economia global suscetível a uma repetição da Grande Depressão.

Naquele momento, poucas pessoas poderiam ter previsto a o escopo e a intensidade da emergência de saúde pública que ainda haveria de chegar. Mas, ao contrário do novo tipo de coronavírus que desencadeou esta crise médica, as montanhas de dívida que ameaçam, agora, afundar a economia global não são nenhuma força da natureza: foram feitas pelo homem e, em grande medida, uma consequência das formas particulares escolhidas pelos policymakers para lidar com a crise financeira passada.

Como todos sabemos, governos ao redor do mundo responderam à crise de 2008 resgatando as instituições financeiras, o que levou a um rápido aumento dos níveis da dívida pública, especialmente na Europa, onde a resultante perda de confiança dos investidores provocou a crise das dívidas soberanas da Europa, que nunca foi verdadeiramente resolvida. Este segundo estágio da crise financeira global marcou o início de uma década de austeridade, com muitos governos agressivamente cortando seus gastos sociais – inclusive no setor de saúde – enquanto faziam tudo que estava em seu alcance para sustentar o sistema financeiro global.

Os principais bancos centrais do mundo rapidamente se juntaram ao esforço de preservação da economia mundial financeirizada, baixando as taxas de juros a níveis históricos e injetando o equivalente a US$ 11 trilhões na circulação através dos programas de quantitative easing (QE). Essas intervenções monetárias dramáticas ajudaram a evitar um colapso total do sistema financeiro global, mas vieram às custas de uma nova onda de investimento especulativo e um rápido aumento dos níveis de endividamento global, que deixaram a economia mundial extremamente vulnerável a um choque externo imprevisto.

E que choque: uma paralisação quase completa da atividade produtiva e comercial em algumas das principais economias mundiais, combinada a um colapso dos preços do petróleo e um crash quase instantâneo dos mercados de dinheiro e capital, que ameaçaram congelar os sistemas de crédito e de pagamentos internacionais em meio a preocupações com o colapso das cadeias globais de fornecimento e níveis de desemprego disparando! Se algum dia existiu uma tempestade perfeita, só pode ser esta.

Enquanto os mercados financeiros derretiam ao longo das últimas duas semanas, os principais bancos centrais interviram agressivamente mais uma vez, derrubando as taxas de juros de volta para os seus níveis historicamente mais baixos e anunciando a extensão das linhas de swap do Federal Reserve estadunidense e um gigantesco novo esquema de QE comprando títulos. Mas, mesmo combinado às espetaculares “bazucas” fiscais a que estão recorrendo alguns governos ocidentais, isso pode não ser suficiente para conter a onda de falências e de default das dívidas gerada pela parada súbita da economia real.

Particularmente, há três áreas de preocupação. Primeiro, é uma ironia cruel que o país mais duramente afetado pela pandemia – a Itália –seja também o que carrega a maior dívida soberana da Europa (e a quarta maior do mundo). O setor bancário italiano, sofrendo com a inadimplência e altamente exposto à dívida do próprio governo, também é um dos mais frágeis do continente. Segundo uma análise do Financial Times, o colapso econômico em andamento da Itália representa, por isso, uma “ameaça existencial” à Eurozona e ao sistema financeiro da Europa.

Uma segunda área de preocupação diz respeito aos níveis rapidamente crescentes de dívida em países em desenvolvimento e mercados emergentes. No último mês de dezembro, antes mesmo que a irrupção de uma pandemia de coronavírus fosse reconhecida oficialmente, o Banco Mundial já tinha alertado sobre o risco de uma grave crise da dívida global em meio a “maior, mais rápida e mais ampla” onda de acúmulo de dívidas no Sul Global nos últimos 50 anos.

Segundo o FMI, quase metade dos países devedores da África Sub-sahariana estão correndo o risco de não conseguirem pagar o serviço da dívida, ou já não estão conseguindo [“debt distress”, no jargão do Fundo]. Na América Latina, a Venezuela está em default, o Equador abandonou um programa do FMI após os massivos protestos do ano passado, e a Argentina está empenhada, atualmente, numa complexa renegociação de sua dívida com funcionários do Fundo, apenas um ano e meio depois de ter recebido o maior resgate do FMI na história. O Líbano suspendeu os pagamentos de um Eurobond de US$ 1,2 bilhões algumas semanas atrás.

Até agora, os mercados emergentes foram especialmente golpeados pela reação de pânico dos investidores à emergência de saúde pública, tendo havido uma dramática fuga de capitais estrangeiros desde o começo do ano. Como nota Adam Tooze, a fuga de capital total dos mercados emergentes chegou a US$ 55 bilhões nas últimas oito semanas – uma taxa duas vezes maior que a do auge da crise financeira global de 2008 ou durante a “birra do afunilamento” de 2013 [“taper tantrum”, quando o Federal Reserve anunciou uma desaceleração dos programas de QE]. Se esses fluxos de saída não forem estabilizados, haverá uma onda de defaults.

Finalmente, a terceira área de preocupação tem a ver com o rápido acúmulo de dívidas entre empresas não-bancárias. Em outubro do ano passado, o FMI emitiu um sério aviso sobre a bomba-relógio que são os US$ 19 trilhões de dívida corporativa fazendo tique-taque sob a superfície da economia mundial. O Fundo descobriu que 40% das dívidas corporativas em oito economias avançadas seria impagável no caso de uma queda com metade da gravidade da anterior. Do jeito que as coisas estão agora, parece que estamos à beira de algo muito pior que isso.

Só este ano, uns US$ 2 trilhões de dívida corporativa deve ser rolada. Mas, com os mercados de crédito congelando e os credores se recusando a aumentar seus empréstimos para as empresas, muitas companhias indubitavelmente descumprirão seus prazos de pagamentos ao longo dos próximos meses. Embora os bancos estadunidenses sejam muito mais fortes agora do que em 2008, sendo pouco provável que quebrem tão cedo, a onda de falências corporativas resultante terá um sério efeito cascata sobre o mercado de crédito paralelo e desregulamentado (shadow banking), que engoliu trilhões de dólares em títulos corporativos arriscados durante o boom especulativo da década passada, alimentado pelos bancos centrais.

Numa reviravolta ainda maior, alguns dos setores mais endividados, que têm os papeis de maior valor com vencimento neste ano, também são os mais expostos aos efeitos da pandemia: linhas aéreas internacionais, fabricantes de carros europeias e empresas extratoras de petróleo de xisto estadunidenses (estas últimas são duplamente afetadas pela combinação da demanda declinante por petróleo e a simultânea guerra de preços lançada pela Arábia Saudita este mês [março]).

A bolha de dívida corporativa irá estourar duramente. De acordo com um recente estudo da OCDE, mais de metade dos títulos corporativos de investimento não liquidados têm um rating (classificação de risco) BBB – pouco acima do status de junk (lixo). Além disso, uma fração significativa das empresas de capital aberto (16% nos EUA e 10% na Europa) já eram consideradas “empresas zumbis” antes da pandemia; muitas destas estão fadadas a afundar no vindouro dilúvio das dívidas.

A pandemia de coronavírus pode, então, acabar sendo uma ameaça existencial não só para milhões de seres humanos em todo o planeta, mas também para a economia mundial financeirizada e baseada em endividamento cujas crises recorrentes vieram definir a nossa era. O status quo será capaz de sobreviver a esse experimento econômico sem precedentes de quarentenas coletivas e fechamentos (lockdowns) nacionais ao redor do globo? É cedo demais para dizer. Mas uma coisa é transparentemente clara: o capitalismo global se encontra num momento crucial. A maneira como esta crise for resolvida irá definir o curso da história mundial por muitas décadas.

Tradução de Seiji Seron




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