Gênero e sexualidade

TRABALHO E SEXUALIDADE

O trabalho e as restrições à sexualidade

Um rapaz é demitido de seu emprego por ser gay, uma jovem trabalhadora suporta assédio sexual na fábrica em que trabalha por ser lésbica, uma travesti é rechaçada pela enésima vez em uma entrevista de emprego. A necessidade e a falta de emprego, junto com a discriminação no trabalho, são os principais problemas que afetam as pessoas LGBTI. Por sua vez, é o mesmo trabalho que afeta a vida sexual e cotidiana de milhares de trabalhadoras e trabalhadores.

sexta-feira 15 de maio de 2015| Edição do dia

As contradições entre trabalho e a sexualidade

A estabilidade econômica e o acesso ao trabalho são pilares fundamentais para o sustento de toda pessoa; os mesmos, em grande medida, determinam em que grau de “liberdade” alguém poderá viver – ou não tanto – sua identidade de gênero e/ou sexualidade. Assim como a questão do trabalho e da subsistência econômica são diferentes, as realidades de uma travesti que tem que se prostituir para sobreviver, a de um gay paulistano de classe média ou de uma lésbica de família trabalhadora da periferia também.

A busca de emprego começa enviando Curriculum Lattes às distintas páginas de trabalho ou caminhando em busca de placas escritas “Procura-se...”. Quando se tem “a sorte” de ser escolhido por uma empresa, geralmente em trabalho terceirizado, vem a entrevista para o emprego.

Aqueles que têm sorte e passam na entrevista, logo são submetidos a um exame psicofísico que consiste um uma avaliação de saúde detalhada e invasiva. Tanto é assim, que é comum a pessoa ter que se despir completamente, e ainda estar incluso dentro das análises exames de HIV – ainda que esta prática seja proibida – e de gravidez. Se os resultados derem positivos, está perdida a possibilidade de conseguir entrar no posto de trabalho. Uma prática ilegal que, fruto da avareza e ganância por lucros, todos aqueles que saem em busca de trabalho se veem expostos.

Centenas e centenas de jovens que procuram emprego estão expostos a tudo isto todos os dias. Dentro deste sistema de engrenagens as e os LGBTI recebem trato especial. As pessoas trans e interssex geralmente são rechaçadas logo no começo do processo de seleção, justamente por terem decidido sobre suas próprias identidades de gênero. A tal ponto chega a falta de acesso ao emprego, que 95% das pessoas trans recorrem a prostituição para conseguir um sustento econômico.

Algumas outras pessoas, como última alternativa para poder trabalhar, optam por se adaptar ao seu gênero biológico. Esta situação é a ponta de lança que explica o porquê a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos. A esta realidade de trabalho, se somam a recorrente violência policial e a falta de acesso à saúde e educação. É assim que fica evidente que a igualdade perante a lei, não necessariamente significa igualdade perante a vida.

Enquanto isso, conseguir emprego e a vida no local de trabalho é outra realidade para as lésbicas, gay e bissexuais. Em uma pesquisa feita com 400 jovens realizada na última marcha do orgulho LGBT da Argentina, se evidencia que 78% das pessoas sofreram atos de discriminação e mais de 80% relatam que foram alvo de algum tipo de agressão vinculada a sua orientação sexual. Para um homossexual da capital com um trabalho e economia estáveis, o simples fato de sair do armário pode lhe trazer o maltrato cotidiano e inclusive a demissão. Esta situação se agrava quanto mais os patrões e suas políticas empresariais sobre a família interferem na vida cotidiana das trabalhadoras e dos trabalhadores, assim como o machismo que a Igreja – cuja cara hoje tem o papa Jorge Bergoglio – e os meios de comunicação se encarregam de transmitir em grande escala.

Para as e os jovens homossexuais da periferia e do interior esta realidade se transforma abruptamente: o nível de assédio e discriminação no trabalho são ainda maiores. Diferente destes lugares onde a sexualidade é mais reprimida, nas grandes cidades a combinação entre os anos de militância LGBTI em luta pela visibilidade junto com o desenvolvimento de um mercado ao redor da diversidade sexual, permitiu estabelecer uma relativa margem maior de liberdade sexual. Uma relativa “liberdade sexual” que só chega a alguns e que foi construída sobre a base da sede de lucro de um setor empresarial que viu na diversidade sexual um potencial nicho de mercado.

É nesse complexo emaranhado que a sexualidade é fortemente moldada na defesa feroz da heteronormatividade pelo trabalho, pelo status econômico, pelos interesses empresariais e pela ideologia eclesiástica.

Um Dia dos Trabalhadores também de orgulho

Na Argentina, após doze anos de kirchnerismo não apenas se mantem a discriminação por orientação sexual e por identidade de gênero no âmbito do trabalho, mas também altos níveis de precarização do trabalho. A metade dos assalariados recebem um salário menor ou igual a 5 mil pesos argentinos, menos da metade da renda básica familiar. Para a juventude é moeda corrente conseguir um trabalho irregular ou diretamente não ter acesso a nenhum. Inclusive, a um setor de trabalhadores, o Estado retém parte de seu salário através do mal denominado imposto de renda.

O futuro cenário político, com a mudança presidencial inclusa, coloca Scioli – o candidato do kirchnerismo -, Macri e Massa¹ na mira. Uma tríade que muito além de suas diferenças, possuem duas grandes coincidências, por um lado são devotos fiéis de Francisco e, de outro, pretendem governar a serviço de um setor do empresariado.

Essa mesma casta que, dia a dia explora a maioria da população, moldando a seu passo uma moral conservadora e lutando contra tudo aquilo que questione a heteronorma. É assim que, com o objetivo de alimentar sua sede de lucro o empresariado busca controlar a sexualidade e os corpos da classe trabalhadora para que sejam produtivos, se apoiando no modelo de família tradicional.

Para combater todas as formas de discriminação e assédio baseado na orientação sexual ou identidade de gênero, assim como lutar pelo acesso ao trabalho e os direitos trabalhistas mais elementares, é fundamental a organização dos LGBTI e da classe trabalhadora em seus locais de trabalho formando, por exemplo, comissões de gênero e diversidade sexual.

[1] Daniel Scioli(Frente para la Victória – FpV, partido de Cristina Kirchner) , Mauricio Macri(Propuesta Republicana - PRO) y Sergio Massa (Frente Renovador - FR) são pré-candidatos de partidos burgueses para suceder Cristina Kirchner nas eleições de dezembro de 2015.

Tradução: Ana Carolina Fulfaro
Fonte: LID Argentina




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