Teoria

TEORIA

O trabalho de Marx

Resenha de RUBIN, Isaak Illich. "Ensayos sobre la teoría marxista del valor". Córdoba: Ediciones Pasado y Presente, 1974.

segunda-feira 26 de fevereiro| Edição do dia

O fetichismo da mercadoria é uma das partes mais mal interpretadas da teoria de Marx. O senso comum imediatamente associa-a ao consumismo, ou a um suposto fenômeno psicológico relacionado ao preço das mercadorias, por exemplo, o porquê de uma camisa da Lacoste custar até dezenas de vezes mais que outra camisa praticamente idêntica simplesmente por ter um jacarezinho costurado nela. Já a academia e até mesmo muitos marxistas referem-se a esta ideia de Marx de que as relações sociais são “ocultadas” pelas relações entre as coisas como uma brilhante digressão sociológica anexa a um livro de interesse puramente econômico: O capital. Mas a verdade é que o fetichismo da mercadoria não é um fenômeno psicológico, da consciência, e sim do ser social, e tampouco é um apêndice, e sim uma teoria geral das relações de produção da economia mercantil, teoria esta à qual, segundo Isaak Illich Rubin, mesmo os próprios marxistas nunca deram a devida importância.

Primogênito de uma família relativamente abastada de judeus letões, Rubin (1886-1937) era jurista de formação, tendo estudado na Universidade de São Petersburgo entre 1906 e 1910, e iniciou sua militância política no Bund, organização judaica filiada à ala menchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Embora nunca tenha sido bolchevique, Rubin colaborou com o governo soviético após a Revolução Russa de outubro de 1917 e lecionou em várias instituições de ensino superior, tornando-se um colaborador próximo do dirigente bolchevique David Riazanov, com quem trabalhará no Instituto Marx-Engels na década de 1920. Preso em 1930, foi falsamente acusado de ser membro de uma organização contrarrevolucionária. Sob tortura, foi coagido a confessar crimes que não cometeu e a implicar seu grande mentor, Riazanov, depois que outros dois homens foram assassinados na frente de Rubin por este ter se negado a participar da farsa. A burocracia stalinista ainda tentou arrancar mais confissões fabricadas em troca do tratamento de um possível câncer, mas Rubin recusou. Finalmente, foi-lhe permitido trabalhar como planejador econômico no Cazaquistão entre 1934 e 1937, quando foi preso novamente e executado.

Os Ensaios sobre a teoria do valor de Marx escritos por Rubin foram publicados pela primeira vez em 1923, e receberam elogios de vários dirigentes bolcheviques, entre eles, Bukharin. Os Ensaios... inserem-se no contexto do importante debate dos anos 1920 em relação à economia de transição ao socialismo na URSS e os rumos da NEP, mas também são uma contribuição ainda mais importante à polêmica entre o marxismo e a escola austríaca de economia, cuja teoria “psicológica” do valor já criticamos aqui, ainda que de maneira limitada. A polêmica foi aberta em 1896, dois anos após a publicação do terceiro livro d’O capital, pelo economista austríaco Eugen Böhm von Bawerk (1851-1914), em sua obra Karl Marx and the Close of His System (Karl Marx e o fechamento de seu sistema). Nesta, Böhm-Bawerk afirma que O capital é de um rigor lógico primoroso mas, estranhamente, tal lógica estaria “espremida” entre dois pontos decisivos nos quais a teoria nega os fatos da realidade: o começo do primeiro livro, em que Marx, “mediante o método analítico, passa do valor de troca ao valor, e do valor ao trabalho.” (Rubin, p. 113), e o final do último, em que os valores das mercadorias são transformados em “preços de produção”. Neste artigo, trataremos do primeiro do primeiro desses supostos pontos, vale dizer, do problema qualitativo do valor.

A regulação da atividade laboral humana

Segundo Böhm-Bawerk, Marx nunca provou de maneira positiva sua teoria de que o trabalho é o princípio do valor, seja empiricamente, seja através do método “psicológico” que investiga as motivações dos agentes econômicos, etc. Ao invés disso, a demonstração da teoria do valor-trabalho de Marx seria puramente lógica e puramente negativa, uma “dedução dialética” através da qual são excluídas várias outras características que as mercadorias têm em comum além de serem produtos do trabalho, por exemplo, o fato de serem escassas em relação a demanda, etc. Diz ainda que é falacioso definir as mercadorias como produtos do trabalho, pois o erro da teoria de Marx seria imediatamente evidente e gritante se sua definição de mercadoria incluísse também bens naturais que são comercializáveis mesmo não sendo produtos do trabalho, como a terra; tal procedimento seria comparável a alguém que, querendo tirar uma bola branca de uma urna, preenche-a apenas com bolas brancas. “Os argumentos de Böhm-Bawerk parecem à primeira vista tão convincentes que poderíamos dizer ousadamente que nenhuma crítica posterior foi concebida sem repeti-los. Todavia,” escreve Rubin, “toda a crítica de Böhm-Bawerk se mantem ou cai junto com os pressupostos sobre os quais está construída, a saber, que as cinco primeiras páginas de O capital contêm a única base sobre a qual Marx construiu sua teoria do valor. Nada é mais errôneo que esta concepção.” (p. 113)

O primeiro erro de Böhm-Bawerk é que o método de exposição nessas primeiras páginas d’O capital não é dialético, e sim analítico, como já dissemos; a dialética aqui é a dialética das próprias categorias, expressão mental de uma dialética existente na própria realidade. O fundamento dialético completo da teoria marxista do valor encontra-se no subcapítulo sobre o fetichismo da mercadoria, inteiramente ignorado por Böhm-Bawerk, e se beneficia também de uma leitura da Contribuição à crítica da economia política de Marx (1859). A primeira resposta marxista (1902) à crítica de Böhm-Bawerk é de autoria de seu conterrâneo, Rudolf Hilferding (1887-1941), que “assinalou que a teoria do materialismo histórico e a teoria do valor-trabalho de Marx têm o mesmo ponto de partida, especificamente, o trabalho como elemento básico da sociedade” (p. 47); Rubin, por sua vez, aprofunda a resposta de Hilferding, utilizando-a como seu próprio ponto de partida para expor de maneira definitiva esta parte tão largamente incompreendida da teoria marxista que é o fetichismo da mercadoria. Esta é uma verdadeira revolução do método econômico, comparável à por “de cabeça para cima” a dialética de Hegel, na medida em que Marx é o primeiro a distinguir claramente o aspecto natural ou técnico-material da atividade laboral humana e seu aspecto socioeconômico propriamente dito.

Toda economia é, antes de mais nada, um regime de organização do trabalho, da atividade laboral humana, atividade essa que é coletiva sempre, pois jamais existiu nenhum Robinson Crusoé isolado em alguma ilha deserta. Em todas as sociedades anteriores ao capitalismo, essa atividade laboral é regulada de maneira “consciente”, premeditada, ou seja, todo produtor sabe de alguma maneira o que produzir, quanto produzir e para quem produzir, ou, dito em “economês”, a alocação do trabalho entre os distintos ramos e esferas da economia faz-se a priori, antes da produção; consequentemente, todo trabalho realizado por qualquer indivíduo dessa sociedade é um trabalho social. O mesmo acontecerá no socialismo e no comunismo, exceto que essa distribuição do trabalho social será planificada de maneira racional, científica e, portanto, verdadeiramente consciente, não “consciente” entre aspas, tal qual nas sociedades historicamente anteriores ao capitalismo, reguladas segundo os hábitos, costumes e tradições. Em contrapartida, a economia mercantil é um regime de produtores atomizados, formalmente independentes e que realizam trabalhos privados, isto é, produzem separadamente uns dos outros. “A produção é administrada diretamente por produtores de mercadorias separados, e não pela sociedade. Esta não regula diretamente a atividade laboral de seus membros, não prescreve o que se deve produzir nem quanto se deve produzir.” (p. 55) Ainda assim, as relações de produção mercantis reúnem todos esses produtores atomizados em um único “organismo produtivo”, uma única economia. Como isto é possível? Como o trabalho social é regulado em uma economia de produtores atomizados que realizam trabalhos privados independentemente uns dos outros? Através do mercado, das trocas dos produtos do trabalho!

“Devido à estrutura atomista da sociedade e à ausência de uma regulação social direta da atividade laboral dos membros da sociedade, as conexões entre as firmas individuais, autônomas, privadas, realizam-se e se mantêm através das mercadorias, as coisas, os produtos do trabalho.” (p. 56) Em outras palavras, “a interconexão do trabalho social apresenta-se como troca privada dos produtos individuais do trabalho” (carta de Marx a Kugelmann cit. p. 56). A alocação do trabalho entre os distintos fins agora acontece posteriori, através do aumento e da diminuição dos preços. Cada produtor participa dessa regulação “inconsciente” da atividade laboral humana só na medida em que põe ou tira bens do mercado, e só influencia e é influenciado pelos demais indiretamente. Portanto, as relações de produção mercantis só se realizam através da troca dos produtos do trabalho, isto é, através de coisas. Esta particularidade que distingue a economia mercantil de todas as outras é precisamente o que Marx chamou de “fetichismo da mercadoria”. Ao contrário do que se escreve em vários manuais de sociologia, as coisas não só “ocultam” detrás de si relações sociais em uma economia mercantil, como também são “portadoras” dessas relações, organizam-nas, estabelecem-nas e as criam, efetivamente; a coisa é a única forma de manifestação possível, forma necessária das relações de produção mercantis. “Mais exatamente, oculta as relações de produção precisamente porque estas só se realizam na forma de relações entre coisas.” (p. 59)

Em uma economia na qual as relações de produção são conscientemente estabelecidas, a regulação da atividade laboral é semelhante à divisão técnica do trabalho que existe dentro de uma firma capitalista, por exemplo, uma fábrica têxtil que se divide em três “oficinas”: a fiação, a tecelagem propriamente dita e a tintura. A oficina de tecelagem recebe a fibra da oficina de fiação e a transforma em tecido sem pagar nada à fiação; por sua vez, a tecelagem envia o tecido para ser pintado e não recebe nenhuma contrapartida da tinturaria. “As relações de produção entre os homens estão organizadas de antemão com o propósito de servir à produção material de coisas, e não por meio de coisas. [...] o objeto se move no processo de produção de uma pessoa para outra sobre a base das relações de produção existentes entre elas, mas o movimento não cria relações de produção entre elas.” (p. 62-3) Mas, se essas três oficinas não forem mais parte de uma mesma indústria e sim propriedade de três capitalistas diferentes, a fiação não estará mais vinculada a uma tecelagem específica à qual a fibra é entregue simplesmente por sua capacidade de transforma-la em tecido, isto é, de dar à fibra forma útil a sociedade; ao invés disso, venderá a fibra a quem quer que lhe pague, seja qual for a finalidade da compra.

Fatores técnico-materiais e formas sociais

Além de uma forma de economia mercantil, o capitalismo é uma sociedade dividida em classes sociais; a cada classe social corresponde a propriedade de um dos três “fatores de produção”, a saber, os meios de produção, o trabalho e a terra. Em todas as formas de economia, a reunião desses três fatores de produção é uma necessidade indispensável, um aspecto técnico-material da produção. Já as várias maneiras como esses três fatores de produção são reunidos é um aspecto socialmente determinado e, consequentemente, cada um desses fatores técnico-materiais da produção adquire diferentes formas sociais ao longo da história. Na sociedade capitalista, os meios de produção assumem a forma social de capital, uma forma particular que não existe em nenhuma outra sociedade, e ser proprietário de meios de produção na forma específica de capital torna o indivíduo um membro da classe capitalista, enquanto o trabalho assume a forma social de trabalho assalariado, diferentemente do que ocorre em outras sociedades, e ser proprietário deste fator de produção na forma específica de trabalho assalariado torna o indivíduo um membro da classe operária. Finalmente, a terra torna-se um bem comercializável pela primeira vez na história, e seu proprietário um membro da classe latifundiária. Se, por um lado, a produção capitalista só é possível se se estabelecem determinadas relações sociais entre essas três classes, por outro, tais relações de produção são muito diferentes das relações da “sociedade feudal, em que a terra pertence ao senhor e o trabalho e os meios de produção, habitualmente muito primitivos, pertencem ao servo. Aqui, uma relação social de subordinação e dominação entre o servo e o senhor precede e torna possível a combinação de todos os fatores da produção.” (p. 67)

Embora haja alguma correspondência entre a propriedade dos fatores de produção e a posição de classe dos indivíduos também na sociedade feudal, a economia desta última não é mercantil, mas sim uma economia diretamente regulada, de maneira que a relação consuetudinária de dominação e subordinação a que se refere Rubin é uma relação política; a propriedade dos fatores de produção é “consequência” e não “causa” da posição de classe dos indivíduos, por assim dizer. “Na sociedade feudal, as relações de produção se estabelecem sobre a base da distribuição das coisas entre elas e para as coisas, mas não através das coisas.” (p. 78) Já na economia mercantil-capitalista, essa aparente identidade entre os fatores técnico-materiais e as relações sociais da produção criam um fenômeno que só pôde ser compreendido por Marx e sua “correção” sociológica do método econômico: “Uma vez que a possessão de coisas é uma condição para o estabelecimento de relações de produção diretas entre as pessoas, parece que a coisa mesmo possui a capacidade, a virtude, de estabelecer relações de produção.” (p. 69) Por causa disso, os economistas burgueses confundem os aspectos técnico-materiais e os aspectos sociais da produção, derivando fenômenos sociais de fenômenos técnico-materiais e vice-versa. O lucro, por exemplo, é atribuído a uma propriedade técnica dos meios de produção, ao invés de uma relação social que pressupõe a forma social do trabalho assalariado e, logo, a existência de classes sociais específicas, de um regime de classes historicamente determinado, enquanto o aumento da produtividade do trabalho é uma propriedade técnica inerente a todos os meios de produção independentemente da época histórica mas é explicada como propriedade de uma única forma social desses meios: o capital.

“Prisioneiros” do fetichismo da mercadoria, economistas como Böhm-Bawerk naturalizam as relações sociais capitalistas, como se estas fossem a única forma de organização do trabalho possível hoje. “As categorias econômicas não são mais que expressões teóricas, abstrações das relações sociais de produção” (Miséria da filosofia cit. p. 107).Já dissemos que a terra nem sempre foi um objeto de compra e venda. Seja qual for sua importância, a comercialização da terra pressupõe a existência de um mercado em que se trocam os produtos do trabalho; por isso, a renda da terra aparece somente no livro terceiro d’O capital. Nos três volumes desta obra prima de Marx, as categorias econômicas são expostas segundo uma ordem lógica, por exemplo, a existência da relação entre os capitalistas da indústria e das finanças pressupõe a existência de relações entre capitalistas industriais e operários, de maneira que categorias como “mais-valia” e “capital” precedem logicamente as de “juro” e “capital portador de juros”. Mas a relação entre capitalistas e operários também pressupõe a existência de um mercado de produtos do trabalho, portanto, as categorias “mais-valia” e “capital” são antecedidas pelas de “mercadoria” e “valor”. A categoria mais básica da economia mercantil é a “forma-valor”, ou seja, a forma trocável dos produtos do trabalho. Essa intercambialidade dos produtos NÃO é natural, não é uma propriedade intrínseca das coisas, e sim uma propriedade social que só se adquire na economia mercantil, isto é, nas sociedades em que a troca é o único nexo social entre os produtores atomizados.

Tendo descoberto a categoria antediluviana que é a forma-valor, Marx constrói um “modelo” abstrato de economia mercantil; em seguida, introduz nesse modelo abstrato as múltiplas determinações do real, uma a uma, desde a forma-dinheiro até o juro e a renda da terra, passando pelas formas produtiva, monetária e mercantil do capital industrial, o capital comercial, a distinção entre capitais constante e variável, fixo e circulante, a concorrência e o preço de produção, etc. O método d’O capital obedece a uma ordem crescente de complexidade. O objeto do livro primeiro são as relações entre capitalistas e operários; o do livro segundo, entre os capitalistas e os membros da sociedade que aparecem como compradores e vendedores; e o terceiro as relações de capitalistas industriais, comerciais e financeiros entre si e uns com os outros. A relação básica da economia mercantil é o tema da Contribuição... e da primeira sessão do livro um d’O capital. Assim, a exposição de Marx apreende a economia capitalista gradualmente a cada nova categoria.

A finalidade da teoria do valor de Marx é explicar não só a proporção na qual tais ou quais bens são trocados, mas sobretudo como é organizada a atividade laboral dos seres humanos nessa sociedade, isto é, como o trabalho social é regulado em uma economia de produtores atomizados que realizam trabalhos privados de maneira independente uns dos outros. Ao criticar Marx por sua definição de mercadoria excluir a terra e outros bens comercializáveis que não são produtos do trabalho, Böhm-Bawerk ignora que a relação de compra e venda da terra não é aquela relação básica entre dois produtores de mercadorias, e sim entre um capitalista e um latifundiário, e a influência desta última sobre a distribuição do trabalho social é obviamente diferente da primeira, portanto, precisa ser analisada de maneira diferente. O problema da regulação da atividade laboral humana ou da distribuição do trabalho social em uma economia de produtores atomizados é inteiramente ignorado pelos economistas burgueses, cuja teoria fetichista confunde os aspectos sociais e técnico-materiais da produção e, consequentemente, reduz a teoria do valor à determinação das proporções das trocas. Ao partir da forma-valor dos produtos do trabalho, Marx não exclui dos objetos da ciência econômica a terra, que é analisada no livro terceiro; simplesmente obedece à lógica dialética das próprias categorias econômicas, que expressam teoricamente as relações de produção reais. Isso nem sequer impede Marx de antecipar que:

“Coisas que não são de fato mercadorias, como por exemplo a consciência, a honra, etc., podem ser cotizadas em dinheiro por seus possuidores e receber através do preço o selo de mercadorias. É cabível, portanto, que uma coisa tenha formalmente um preço sem ter um valor. Aqui, a expressão em dinheiro é algo puramente imaginário, como certas magnitudes matemáticas. Por outro lado, também pode acontecer que esta forma imaginária do preço encerre uma proporção real de valor [...] como sucede, por exemplo, com o preço da terra não cultivada, que não tem nenhum valor, porque nela não se materializa trabalho humano algum” (O capital L1 cit. p. 94)

O valor-trabalho

Provavelmente, a opção pelo método analítico nesta primeira parte d’O capital é por uma questão de tamanho. Marx trabalhou mais de uma década em sua crítica da economia política e revisou seus planos sucessivas vezes até que se convencesse de ter enfim descoberto um método de exposição adequado. Nessa sequência analítica, a teoria geral das relações de produção mercantis aparece só ao final do primeiro capítulo, em um tópico formalmente separado, aparentemente “extra” ou “bônus”, intitulado “o caráter fetichista da mercadoria e seu segredo”. Já em seu próprio livro de mais de 300 páginas, Rubin reconstitui o fundamento dialético completo da teoria do valor-trabalho invertendo a sequência formal de Marx: começa por aquela teoria geral das relações de produção mercantis que era um mero apêndice até então, isto é, a teoria da distribuição do trabalho social através das trocas dos produtos de trabalhos privados entre produtores atomizados e de coisas que são portadoras de relações de produção, estabelecem-nas, criam-nas, teoria esta à qual Marx refere-se como o caráter fetichista das mercadorias; daí chega à forma-valor, à propriedade de intercambialidade que as coisas adquirem nessa sociedade de produtores atomizados. Ao contrário do que dizem críticos como Böhm-Bawerk, o valor-trabalho de Marx não é uma propriedade técnica, natural, intrínseca às mercadorias, nem um imperativo ético, muito menos é sinônimo de ao “esforço” ou se relaciona à algum desconforto ou desprazer de trabalhar.

“A formulação habitualmente breve desta teoria afirma que o valor da mercadoria depende da quantidade de trabalho socialmente necessário para sua produção; [...] valor=trabalho ‘materializado’. É mais exato expressar a teoria do valor ao contrário: em uma economia mercantil-capitalista, as relações laborais de produção entre os homens adquirem necessariamente a forma do valor das coisas, e só podem aparecer sob esta forma material; o trabalho só pode expressar-se em valor. Aqui, o ponto de partida da investigação não é o valor, e sim o trabalho; não são as transações de troca no mercado como tais, mas sim a estrutura de produção da sociedade mercantil, a totalidade das relações de produção entre os homens.” (p. 114)

* * * *

Ao serem trocados, os produtos do trabalho adquirem a forma-valor, forma esta que constitui o nexo social entre os indivíduos na economia mercantil. Através dessas trocas, estabelecem-se as relações de produção que regulam a atividade laboral da sociedade. A variação dos preços segundo a oferta e a demanda influenciam os produtores de mercadorias a produzir mais ou menos, a parar de produzir ou a produzir outra mercadoria e, assim, redistribui o trabalho social entre os distintos ramos e esferas da economia. Logo, esta tende a um estado de equilíbrio dinâmico, a uma distribuição “ideal” do trabalho social da qual aproxima-se e se afasta continuamente, sem nunca a atingir. A longo prazo, a oferta tende a se igualar à demanda e, por conseguinte, os preços das mercadorias sempre oscilam em torno de um mesmo preço médio, determinado de maneira que haja iguais vantagens para todos, ou seja, todo investimento tenha um retorno proporcional e investimentos iguais tenham o mesmo retorno, por conseguinte, nenhum produtor de mercadorias seja motivado a mudar de um ramo menos lucrativo para um mais lucrativo. O capitalismo é uma economia mercantil desenvolvida, mas a categoria mais básica da economia mercantil é a forma-valor, e esta categoria não pressupõe a divisão entre capitalistas e trabalhadores assalariados, de maneira que, em uma economia mercantil simples, todos os produtores de mercadorias são proprietários de seus próprios meios de produção. Nessa economia em que cada um trabalha para si próprio, que proporção de troca corresponde a uma distribuição equilibrada do trabalho social e a uma situação de iguais vantagens para todos? A proporção dos trabalhos investidos, ou seja, o valor-trabalho!

Assim, a troca de um produto do trabalho por outro iguala a ambos como valores intercambiáveis. “Os homens”, todavia, “não relacionam entre si os produtos de seu trabalho como valores porque esses objetos parecem-lhes envolturas simplesmente materiais de um trabalho humano igual. É o contrário. Ao equiparar uns com outros na troca, como valores, seus diversos produtos, o que fazem é equiparar entre si seus diversos trabalhos como modalidades de um trabalho humano igual. Não o sabem, mas o fazem” (O capital L1 cit. p. 59). Em outras palavras, a ato da troca que iguala dois produtos do trabalho como valores é o mesmo ato que iguala os trabalhos privados desses dois produtores como trabalhos socialmente úteis ou socialmente distribuídos, isto é, como uma parte reconhecidamente bem distribuída do trabalho social. “Não há nenhuma outra propriedade para determinar o caráter social do trabalho em uma economia mercantil. Aqui não há nenhum plano esboçado de antemão para a socialização e a distribuição do trabalho. A única indicação do fato de que o trabalho de determinado indivíduo está incluído no sistema social da economia é a troca de produtos do trabalho” (p. 149). A rigor, a economia mercantil é a única forma de economia em que existe desperdício de trabalho, pois não é possível determinar o caráter social do trabalho senão no ato da troca, portanto, depois de o trabalho privado já ter sido feito. Diz-se por isso que a alocação do trabalho entre fins alternativos é a posteriori. A não-venda ou a diminuição dos preços acontece quando foi alocado mais trabalho social que o necessário à satisfação daquela necessidade; quando menos trabalho que o necessário foi alocado, os preços aumentam. A oferta e a demanda “corrigem” os preços na direção dos seus valores, ou seja, do equilíbrio entre todos os ramos e esferas da produção e, consequentemente, redistribuem o trabalho social na medida em que influenciam os produtores.

Apesar de Marx usar expressões como “gastos de nervos e músculos” e “coágulo” de trabalho “cristalizado”, o valor-trabalho é uma substância social que não possui um único átomo de matéria. Da mesma maneira, a igualação dos trabalhos privados como trabalhos sociais não é uma igualação técnica ou fisiológica do trabalho, isto é, não é uma igualação entre dois trabalhos concretos, por exemplo, o trabalho do carpinteiro e o do alfaiate, como supõe Böhm-Bawerk, pois quando esses dois produtores igualam seus produtos como valores intercambiáveis, indiretamente igualam-nos também a todos os outros valores na proporção dos respectivos trabalhos que os produziram; esta é justamente a função do dinheiro! Ao serem igualadas e reconhecidas como trabalhos sociais, todas as múltiplas formas qualitativamente diferentes de trabalho privado são igualadas como trabalho humano em geral, ou trabalho abstrato. Em outras palavras, é porque os trabalhos concretos são igualados como trabalhos abstratos que a sociedade os reconhece como trabalhos sociais. “O trabalho abstrato não só difere do concreto por suas propriedades negativas (a abstração das formas concretas do trabalho) como também por sua propriedade positiva (a igualação de todas as formas de trabalho em um múltiplo intercâmbio dos produtos mesmo).” (p. 198) O trabalho concreto e a sua respectiva duração, intensidade, técnica, qualificação, produtividade, gasto de nervos e músculos, etc. determinam a magnitude do valor, isto é, a quantidade de trabalho social que a mercadoria é capaz de mobilizar ao ser trocada, mas tais características do trabalho concreto não são em si mesmas valor, e sim aspectos técnico-materiais de todo produto do trabalho em qualquer época histórica, aspectos estes que só são relevantes quando o próprio produto já adquiriu a forma-valor, ou seja, quando as relações de produção mercantis já se expressam através do produto, vinculando produtores atomizados. Em suma, o valor não é uma propriedade intrínseca das coisas, nem uma relação entre coisas ou entre pessoas e coisas, e sim uma relação entre pessoas, uma relação social historicamente determinada que se realiza através de coisas, as quais adquirem, então, um caráter fetichista.

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“É errôneo representar a questão como se Marx tivesse começado com os fenômenos relacionados com o valor em sua expressão material e, após analisá-los, tivesse chegado à conclusão de que a propriedade comum das coisas trocadas e avaliadas só pode ser o trabalho [...] O caráter específico da teoria do valor de Marx não reside no fato de que este não baseia sua teoria nas propriedades do valor, isto é, nos atos de igualação e avaliação de coisas, mas sim nas propriedades do trabalho na economia mercantil, isto é, na análise da estrutura laboral e das relações de produção do trabalho.” (p. 134)

A teoria do fetichismo da mercadoria, que analisa a estrutura laboral e as relações de produção mercantis, nada mais é que a demonstração positiva que Böhm-Bawerk exige dos marxistas.




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