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O suicídio juvenil em tempos de pandemia, quarentena e crise econômica

Os prognósticos são assustadores, durante este ano a taxa de suicídio aumentará em dobro na juventude, este cenário se tece entre a crise desatada pelo COVID-19 e a avalanche da crise econômica que se aproxima.

quarta-feira 15 de abril| Edição do dia

No Chile a segunda maior causa de morte é o suicídio, segundo os dados da MINSAL. E assim como os dados de suicídio entre jovens de 10 a 19 anos, tem aumentado consideravelmente desde 1990; começou com uma taxa de 2,7 por cada 100 mil habitantes, para em 2015 chegar a 5,1 por cada 100 mil habitante. Segundo especialistas no tema, em 2020 estes números serão dobrados no país. Os dados entregues para a Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que durante este ano irão morrer cerca de um milhão e meio de pessoas por causa de suicídio.

A saúde mental em tempos de pandemia

Os efeitos da quarentena na saúde mental são inegáveis. Já por si a expansão da pandemia significa uma situação de medo e incerteza que é potencializada pela ineficácia e “obscurantismo” do governo - como tem chamado a presidenta do COLMED - em relação ao avanço do COVID-19, e a informação que é divulgada.

Se esta situação é somada aos efeitos do confinamento, do isolamento social - forçado - e da perda de nossas atividades cotidianas como a perda de emprego, cancelamento das aulas, ou até deixarmos de vermos quem queremos, etc. Isto desde já implica para alguns estarem privados totalmente de sua liberdade de transitar implicando que a vida está reduzida entre o trabalho e sua casa, cortando a socialização e partes importantes da recriação. Nos encontramos com um panorama obscuro para muitos que aumenta os sentimentos de incredulidade e instabilidade.

Cabe destacar neste sentido que isto golpeia de maneira importante a juventude, em especial para aqueles que sofrem de psicopatologias ou complicações da saúde mental, que é o caso da depressão e dos transtornos de personalidade que são particularmente sensíveis às mudanças no habitat social e as rotinas, desenvolvendo suas primeiras crises entre os 15 e 20 anos.

A saúde mental é uma doença do capitalismo e um problema do sistema de saúde de mercado

Durante 2018 os especialista em saúde mental disseram que o transtorno mais comum no Chile era a depressão, que até o momento afetava 18% da população, o que é grave considerando que este doença ocupa a nível mundial o segundo posto entre as causas de incapacidade e morte prematura (OMS).

Contudo o problema de saúde mental não é um problema abstrato. Além de ter seu ponto de partida o ritmo de vida a qual estamos submetidos, em frente a continuidade e gravidade da precarização do sistema de saúde. Em 2019 reparamos que uma mínima parte da população afetada por problemas de saúde mental havia podido receber tratamento, encontrando como causa a falta de tempo e dinheiro para os caros tratamentos. Em esta linha a crise do coronavírus revela a grande fratura exposto que sofre o sistema de saúde, não apenas não dando conta dos casos de COVID-19, se não tendo que deixar de lado a atenção às doenças que não significam um risco de vida imediato, dificultando a entrega de medicamentos e a realização de consultas.

O confinamento nos faz sentir mais sozinho do que já estamos

Por tudo dito anteriormente, nem todos podem manter suas consultas com psiquiatras ou psicólogos, ao mesmo tempo se não avançarmos a que se deixe de ser cobrados os serviços de luz e internet logo - em meio aos estragos econômicos da crise sanitária - as pessoas que estão sob isolamento ( que pertencem a setores empobrecidos) não podem manter contato sequer com seus amigos ou familiares que vivem fora de suas casa, acrescentando as consequências do isolamento

Porém a realidade, é que a quarentena no Chile está apenas imposta para algumas comunidades, enquanto a maioria das cidades se mantém o toque de recolher e Estado e Emergência, mas o próprio avanço da catástrofe sanitária e a mesma campanha do governo nos empurram inevitavelmente a tomar suas próprias medidas de cuidado, que no momento se reduzem a “ Se puder, fique em casa”, no qual não é acessível para todos, tendo em conta a grande quantidade de jovens que se mantém trabalhando no comércio ou em serviços de delivery ( Rappi, UberEats, Perdido Já, etc).

Neste cenário é importante não descuidar do alerta que expressam os problemas de saúde mental profundos durante o período; isto implica no possível manter o contato não apenas com pessoas que sofrem doenças de saúde mental se não com o conjuntos de nossas pessoas próximas, entendendo que por si a situação traz consequências físicas e mentais.

Que futuro para a juventude?

Outro fator importante é o curso dos acontecimentos: o governo busca fazer com que o COVID-19 termine um capítulo de luta de classes que deixa novas expectativas para muitos, que se abriu com uma explosão social. Mas pelo contrário, a pandemia aprofundou um choque brutal com as opções de vida que é oferecido pelo capitalismo. Os túmulos comunitários que estão sendo escavados nos Estado Unidos são expressão disto. E é novamente como uma porta batendo em nossa cara que nos recordamos que convivemos com o cadáver do sistema de saúde pública e com milhões de pessoas que a nível mundial terminam nas ruas por consequência de demissões.

Menciono isto porque o governo tem feito tudo que é possível para nos enrolar que quem tem os recursos, as informações e o controle necessário para salvar-nos são eles, nesta linha a desmoralização é também uma ferramenta política que busca afogar as perspectivas de uma sociedade diferente para substituí la com a iminente passagem do coronavírus e a solução de uma crise econômica que pode ser semelhante a crise econômica de 1982.

O COVID-19, é a guinada torta para uma juventude ameaçada com as predições do aquecimento global e a instabilidade do trabalho, agora tudo está mais perto, por isto mesmo não podemos esquecer que além de sermos a juventude sem futuro, somos também a juventude que decidiu enfrentar a um governo assassino desde outubro, que fez com que todo o mundo virasse os olhos para o Chile como resultado das denúncias de violações dos Direitos Humanos e a incessante e memorável luta nas ruas.

Eu tento ilustrar aqui. Os problemas de saúde mental não surgem do nada: são centenas que sofrem estas doenças, que é uma realidade do capitalismo, provocada pela desídia empresarial, pela desigualdade de uma sociedade de classe que à custa do suor, lágrimas e sangue de centenas, acumula ganancias para alguns poucos. Devemos relembrarmos que não estamos sozinhos, e que pelo mesmo não podemos perder de vista o desejo de acabar com todos aqueles que nos oprimem e nos exploram.

Trazer a nossas memórias o sorriso rebelde destes jovens que saltaram as cercas do metrô, e que com suas ações de rebelião juvenil conseguiram nos tocar no mais profundo de nossas fibras e com eles despertar um país inteiro. Não estamos sozinhos. Devemos nos comunicar e manter viva a chama que anunciou o prelúdio de um novo Chile, para que no dia de amanhã sejamos milhares novamente. A preocupação com nossa saúde mental hoje em dia é um ato de rebeldia em frente ao Governo, e um ato preparatório para voltarmos a ocupar as ruas, e que nossos rostos se iluminam com o calor da mobilização social.

No entanto esta energia não pode estourar em um novo outubro, com todos os custos e ataques que estamos e vamos receber, é necessário que a raiva, a pena e a impotência se converta em uma organização capaz de desequilibrar totalmente a balança - superando inclusive as jornadas de luta de 12 de novembro -, o que vamos alcançar unicamente se conquistarmos também uma ferramenta política que se proponha acabar com este sistema, isto é, um partido revolucionário que armando com as experiências dos trabalhadores, estudantes, mulheres e p resto dos setores oprimidos, não nos ofereça uma resignação que termina na frustração e impotência ante a tirania dos empresários, se não substituir o desejo de escapar deste mundo pelas perspectivas de conquistar uma nova sociedade, para que juntos sejamos uma grande força que derrube o capitalismo.

Texto publicado originalmente em La Izquierda Diario Chile.




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