Sociedade

O suicídio de Marina Tsvetáieva: leitura romântica pode apagar as consequências das ações do stalinismo em seu destino trágico

Marina Tsvetáieva já é hoje suficientemente reconhecida como uma das grandes poetas russas do século XX, ao lado de Vladímir Maiakóvski, Boris Pasternak, Anna Akhmátova e Aleksandr Blok (às vezes uma destas sendo substituído por Óssip Mandelstam). Como disse a própria poeta em um de seus ensaios: se o milagre do poeta acontece a cada cinquenta anos, na Rússia, ele aconteceu em um espaço de cinco, e na esquina dessa época estariam Maiakóvski e Pasternak.

sexta-feira 31 de agosto| Edição do dia

Tsvetáieva ao centro. Em sentido horário: Blok, Pasternak, Maiakóvski e Akhmátova.

Não vamos aqui entrar em discussões sobre hierarquização de escritores ou se o poeta seria mesmo “um milagre”, muito menos retomando a ideia de “gênio”. Interessa-nos destacar que essa visão pode nos trazer pistas muito interessantes de por que uma poeta com a força de Marina Tsvetáieva tenha, por um lado, ficado presa ao estigma de “romântica”, “a poeta do amor incondicional”, “a esposa devota que segue o marido” e, por outro, ficado tanto tempo quase desconhecida. Dessas sintetizações simplicadoras, talvez nenhuma seja tão esclarecedora quanto esta da “esposa que segue o marido”. Ocorre aqui um fato que evidencia bem dois fatores que se conjugam: uma leitura machista que, ao não ligar o destino trágico da poeta à ação política de seu marido, Serguei Efron, ou melhor, tomando o fato apenas superficialmente, esconde os efeitos da crueldade de uma perseguição muito maior, que seu em âmbito internacional, a saber: as perseguições da burocracia soviética comandada por Stálin e seus homens a Leon Trótski, aos trotskistas, aos russos emigrados, brancos ou não. Muito mais do que se imagina, essa perseguição foi determinante sobre o tão repetido destino trágico de Marina Tsvetáieva.

A vida de Tsvetáieva esteve imbricada nos principais acontecimentos políticos do século XX. Além das Duas Grandes Guerras, a poeta foi testemunha das revoluções de 1905 e de 1917. Em Outubro, Efron era um junker, ou seja, um cadete do exército imperial, ou Exército Branco, e combateu ao lado do condecorado general branco Anton Deníkin na região do Rio Don. Emigrou quando foram derrotados, em 1920.

Tsvetáieva viveu o período da Guerra Civil, ou Comunismo de Guerra, em Moscou, com uma de suas filhas, Ariadna Efron, uma vez que a mais nova, Irina, morrera em condições incertas em um abrigo para crianças. Era comum naqueles duros anos, famílias que se viam sem condições de criar os filhos, deixá-los temporariamente aos cuidados dessas instituições. Mãe e filha emigraram para se juntar ao Efron apenas em 1922, mas a sentença na qual muitos biógrafos e estudiosos enxergam a sentença de morte da mulher sintetizada e dada pela poeta, viera antes, no calor de Outubro:

“UMA CARTA EM MEU CADERNO

Se o senhor estiver vivo, se estiver predestinado que eu o veja ainda mais uma vez — ouça: ao nos aproximarmos de Khárkov, li no Iújni Krái. 9.000 mortos. Não tenho nem como lhe contar sobre esta noite, porque ela sequer existiu. A manhã está cinzenta. Estou no corredor. Entenda! Avançamos e lhe escrevo e agora não sei — mas seguem aqui palavras que eu nem deveria escrever.

Nos aproximamos de Oriol. Temo lhe escrever como gostaria porque me ponho a chorar. Tudo isso é um pesadelo. Tento dormir. Não sei como me dirigir ao senhor. Quando lhe escrevo, existe, então escrevo! Mas depois — ah! — o 56º regimento da reserva. O Kremlin. (Lembra-se daquela chave enorme com a qual o senhor abriu o portão naquela noite?) E sobretudo, sobretudo, sobretudo — o senhor, o senhor mesmo. O senhor com seu instinto autodestrutivo. Será que está em casa? E se todos estiverem. E se só o senhor tiver partido? Porque é irrepreensível. Porque não pode, já que outros estão sendo mortos. Porque é um leão, que dá a parte do leão: a vida — a todos os outros, coelhos e raposas. Porque é abnegado e repudia a autopreservação, porque o “eu” para você não importa, porque eu soube de tudo isso desde o primeiro instante!

Se Deus realizar este milagre — de conservá-lo entre os vivos, hei de segui-lo como um cão.

As notícias são desencontradas, não sei em que acreditar. Leio sobre o Kremlin, a Tverskaia, a Arbat, o “Metropolitano”, a Praça Voznessiênsk, sobre uma montanha de corpos. No jornal SR Kúrskaia Jizn de ontem (dia 1º) — leio que começou o desarmamento. Outros (de hoje) falam sobre combates. Agora não tenho vontade de escrever, e pela milésima vez imagino como entrarei em casa. Será que está dando para entrar na cidade?
Logo chegaremos a Oriol. Agora são 2 horas da tarde. Estaremos em Moscou às 2 horas da madrugada. E se ao entrar em casa — não houver ninguém, nem viva alma? Onde poderei encontrá-los? Talvez até nossa casa nem exista mais! Sinto o tempo todo: é um pesadelo. Espero que a qualquer momento aconteça algo e não existam mais jornais, mais nada. Que tudo tenha sido um sonho e eu acordei.
Nó na garganta. A exata sensação de um dedo a apertando. Fico o tempo todo puxando, esgarçando a gola. Seriojinka.
Escrevo seu nome e não consigo mais escrever.”
(“Октябрь в вагоне”; do tradutor)

Esse ensaio, escrito entre outubro e novembro de 1917, foi publicado pela primeira vez 10 anos depois, nos números 11 e 12 da Vólia Rossíi, revista de emirados russos editada em Praga. A essa altura a poeta já estava vivendo na França, na mais absoluta miséria, com o marido, com Ariadna e o filho mais novo, Gueórgui Efron, nascido em 1925 na Tchecoslováquia e apelidado de Mur pela mãe. É nesse período que se desenham as condições que levaria Serguei Efron a ingressar no serviço secreto soviético, o que o fará a cair em desgraça no espaço de mais 10 anos.

Assim, quando, em junho de 1938, Tsvetáieva relê a promessa feita em Outubro de 1917, ou seja, de seguir o marido “feito um cão”, à margem da publicação de 1927, acrescenta: “E lá vou eu – feito um cão (21 anos).”

Cópia da página do jornal onde saiu o ensaio, com anotação de Tsvetáieva em destaque.

Tsvetáieva emigraria menos de 1 ano depois de anotar essa frase na qual muitos viram uma declaração de amor incondicional ao marido. Entre o registro no diário, a posterior reformulação em ensaio íntimo para publicação e a anotação à margem, vinte anos tinha se transcorrido. Sobre a família, abatera-se uma grande tragédia, e é bem provável que a poeta sequer tivesse consciência do que estava em jogo, da extensão do complexo esquema que com braços de polvo cercavam a todos e também a abarcaram.

Ariadna Efron tinha retornado em 1935, ainda em um momento de encanto com as maravilhas que a propaganda soviética difundia entre os russos emigrados, sobretudo, entre a juventude. Serguei Efron tinha retornado em 1937. As notícias mais difundidas dão conta de que Efron tinha apenas tomado parte no assassinato de Ignace Reiss, comunista polonês que rompe com Ióssif Stálin em 1937 e previne os trotskistas da perseguição que se armava contra eles em âmbito internacional. Acontece que isso é apenas parte da verdade. Há razões bastante concretas para se acreditar que Serguei Efron era, na realidade, o cabeça da operação do NKVD na França, subordinado a um outro Serguei, o Spiegelglass, chefe do serviço na Europa.

NKVD (em russo, НКВД) é acrônimo de Comissariado do Povo para Assuntos Internos (Народный Комиссариат Внутренних Дел), foi criado em 1934 como o Ministério do Interior da URSS e é o precursor do KGB (em russo, КГБ; acrônimo de Комитет Государственной Безопасности/Comitê de Segurança do Estado), principal organização de serviços secretos da URSS (1954-1991).

Formalmente, Efron ingressa no serviço em 1933, quando solicita o passaporte soviético e em virtude do papel que já vinha cumprindo na “União para o repatriamento de russos emigrados”, nada mais que um meio de atrair os arrependidos, aliciá-los e depois executá-los, seguindo o já conhecido script dos Processos de Moscou. Efron monta e coordena uma verdadeira “gangue” na França, que será responsável por cometer crimes como o roubo dos arquivos de Trótski guardados no instituto de história social do menchevique Boris Nikoláievski, a contínua vigilância do filho de Trótski, Leon Sedov, sequestros em plena luz do dia e, finalmente, o assassinato de Ignace Reiss.

Da esquerda para a direita: Spiegelglass, Efron e Reiss.

Descontente com as perseguições comandadas por Stálin na União Soviética, Reiss rompe com o partido e declara apoio a Trótski e à Quarta Internacional. A carta que ele envia não chega a Moscou, às mãos de Stálin, o destinatário daquela mensagem. Ela é aberta por Spiegelglass, chefe de Serguei Efron. Assim Efron e o grupo que ele havia recrutado na França são destacados para a missão. O assassinato ocorre numa estrada secundária entre a Suíça e a França, próximo a Lausanne. O corpo é encontrado, sai uma notícia em um jornal da pequena cidade, por fim, as polícias francesa e suíça conseguem ligar o caso ao grupo de Efron.

É nessas condições que junker convertido a agente secreto retorna a URSS. Segundo a versão oficial, ele teria desaparecido na Espanha, enquanto lutava ao lado das fileiras antifranquistas durante a Guerra Civil Espanhola. Hoje se sabe que se tratava de uma estratégia da burocracia soviética para desvincular a participação do país no caso.

Leon Trótski, no “Programa de Transição”, referindo-se aos diferentes matizes que identificava no interior da burocracia soviética, vai dizer que Reiss, é um exemplo de “verdadeiro bolchevismo”. Mas um balanço mais profundo o revolucionário russo faz em “Uma lição trágica”, já sob a autocrítica àqueles que não souberam preveni-lo de que sua atitude poderia representar sua sentença de morte.

É nessas condições que Marina Tsvetáieva se encontra, sozinha e a cargo de Mur, na França, em meio a uma sociedade que lhe é absolutamente refratária. A posição de Marina Tsvetáieva a coloca numa situação de dupla hostilidade: a dos Brancos, que se ligam diretamente ao envolvimento de Efron no crime, exaustivamente propagandeado na imprensa francesa e na imprensa da Paris russa, e a dos vermelhos, identificados agora no Estado burocratizado que se constrói sob a direção de Stálin e à medida que uma casta de burocratas vai se apropriando do controle dos meios de produção, o autoritarismo e formas cruéis de perseguição a dissidentes e oponentes chegam aos níveis que conhecemos hoje.

No primeiro caso, as implicações do marido são mais consequência que causa. A animosidade é muito anterior ao caso Efron e está diretamente ligada à atividade literária da poeta, o que muitas vezes passa despercebido pela crítica que pretende atribuir o isolamento de Marina Tsvetáieva à desgraça em que caiu seu marido. Quando chega a Paris, no fim de 1925, a poeta é recebida com entusiasmo pelos seus conterrâneos, poetas, escritores e escritoras radicados em Paris. Mas, ao ver o estado de coisas em que se encontrava a atividade literária dos emigrados, escreve o artigo “O poeta e a crítica”, em que não poupa ataques àqueles que contavam com maior prestígio entre a comunidade dos emigrados, como Zinaída Guíppius e Ivan Búnin, declara alinhamento aos vermelhos e denuncia a estreiteza de pensamento dos brancos:

Na categoria de leitor-canalha, incluo todos que ouviram sobre Gumiliov pela primeira vez no dia de seu fuzilamento e agora descaradamente o proclamam como o maior poeta contemporâneo. Ao lado deles, coloco todos os que odeiam Maiakóvski por sua filiação ao partido comunista [...], que acrescentam ao nome Pasternak: o filho do pintor?, que sabem sobre Balmont que ele bebe, e sobre Blok que “ele se converteu ao bolchevismo”. (“Поэта о критике”;do tradutor).

A partir daí, tanto seu isolamento e crescente, quanto as polêmicas em que se envolveu e as cada vez mais assertivas declarações dedicadas a ou sobre os poetas que estavam com a Revolução, sobretudo Pasternak, com quem manteve estreita relação epistolar durante mais de uma década, e Maiakóvski, uma admiração que lhe custou caro.

Tsvetáieva amava em Maiakóvski a camisa amarela, o poeta que arrebatava as multidões, que lotava as praças, os auditórios das universidades, os teatros das cidades por onde passava, juntando pessoas de todas as idades, mas, sobretudo os trabalhadores e a juventude, ávida para vê-lo e ouvi-lo declamar seus poemas-canhões. Tsvetáieva amava o poder que o poeta tinha sobre a palavra e sobre as massas. É ela quem vai notar que os trabalhadores se dirigiam a Maiakóvski surpreendidos por que quando eles mesmos liam os versos do poeta não entendiam nada, ao passo que quando o poeta os lia, ou seja, quando esses trabalhadores, recém ingressados no mundo das letras, ouviam Maiakóvski, daí, sim, entendiam tudo.

Já de Maiakóvski não se pode dizer que nutrisse o mesmo apreço pela poeta. Há aí basicamente duas razões. A primeira é que o militante era comprometido demais com a causa revolucionária para aceitar alguém que fosse vista como membro dos setores contrarrevolucionários. Ora, o marido da Tsvetáieva, Serguei Efron, tinha sido, como dissemos, um combatente do Exército Branco. A segunda razão da, digamos, antipatia de Maiakóvski por Tsvetáieva vem, portanto, da associação bastante imediata do posicionamento político de uma mulher com aquele de seu marido. Mesmo hoje isso é comum, e naquela época não era diferente. Maiakóvski era um homem de seu tempo e, como tal, a exemplo de muitos de seus contemporâneos, como Valiéri Briússov, Trótski, dirigiu a Marina Tsvetáieva, e também a outras mulheres, ataques de cunho misógino.

Mas, em primeiro lugar, Tsvetáieva não era nenhuma coitada. Em segundo, não se pode dizer que estava especialmente preocupada com o que os outros pensavam dela, importava-lhe, isso, sim, muito mais, seus sentimentos para com os outros; e, finalmente, o que importava, de fato, para ela, era o poeta que Maiakóvski foi, o revolucionário fiel à sua causa, o homem que ela chama de “milagre do seu tempo”, o único autêntico poeta, segundo ela, da Revolução. Nas palavras da própria Tsvetáieva:

Do mesmo modo que Lunatchárski ser um revolucionário não o torna um poeta revolucionário, também eu por que não sou, não me tornei uma poeta conservadora. Ser o poeta da Revolução (le chantre de la Revolution) e ser um poeta revolucionário são coisas diferentes. Apenas em Maiakóvski convergiram. E convergiram, sobretudo, pois, além de revolucionário, é poeta. Por isso ele é o milagre do nosso tempo, seu máximo harmônico (“Поэт и время”; do tradutor).

Desse modo, Tsvetáieva já era persona non grata na comunidade dos escritores brancos emigrados quando Efron era o provável dirigente dessa célula, ou gangue, de perseguição do stalinismo a Trótski, aos seus familiares e aos membros da Oposição de Esquerda, trotskistas ou não, e que vai culminar no atentado a Reiss.

À esquerda, Tsvetáieva e Efron recém-casados; à direita, com a família na Tchekoslováquia

Seja em virtude dos ataques da chamada comunidade Branca da emigração russa, do isolamento a que foi levada a poeta, das sucessivas investidas das polícias francesa e suíça, por pressões de agentes soviéticos ou por total falta de meios para garantir seu sustento e o do filho, podemos dizer que seu retorno, como de muitos outros russos, está relacionado ao contexto maior dos Processos de Moscou e não a simples arroubo da poeta inflamada e inspirada ou da mulher devota a seu marido.

Nesse caso, como em todos os outros do período, aliás, não se pode travestir de tragédia pequeno-burguesa a tragédia que levou à morte uma geração inteira da vanguarda política bolchevique e da vanguarda artística russa.

É um crime travestir de tragédia pequeno burguesa a tragédia de uma geração que esbanjou dessa maneira seus poetas, para usar a expressão de Roman Jackbson.

Não é verdade também que sua obra ficou desconhecida. Mesmo a influência sobre seus contemporâneos radicados na Europa é ainda pouco avaliada. Apesar do seu isolamento, influenciou os mais novos e foi, em seus primeiros anos de Paris, a escritora mais publicada. Depois de sua morte, os caminhos de publicação de sua obra são tortuosos e se ligam diretamente ao contexto mundial, ou seja, à Guerra Fria que se instala depois do término da Segunda Guerra Mundial e ao aprofundamento da burocratização do primeiro Estado operário da história e suas consequências.

No exterior, uma vez que parte da França, seus livros também deixam de ser publicados, de modo que nos anos 40 parecia que Marina Tsvetáieva de fato nunca tinha existido. Apenas na segunda metade da década de 50 é que seus escritos voltam a aparecer.

Na União Soviética, devido às políticas de liberdade na esfera cultural decorrentes do Degelo, seus poemas saem em três antologias – duas de 1956 e uma de 1957 –, ainda que as edições publicadas no estrangeiro durante as décadas de 20 e 30 continuassem proibidas. Em 1957, é reconhecida como poeta nacional na terceira plenária da União dos Escritores. No exterior, em virtude da propaganda americana antissoviética durante a Guerra Fria, houve um esforço por parte do governo dos EUA de dar suporte à publicação em russo de livros de escritores russos. Na década de 50, dois eventos assinalam o retorno do nome de Marina Tsvetáieva aos jornais de emigrados que circulavam em Nova Iorque e em Paris: a publicação de trinta poemas em uma antologia dedicada a poetas russos da emigração, editada por Yury Ivask (1907-1986), e de uma coletânea de alguns de seus escritos em prosa, graças aos esforços de Ekaterina Eleneva, amiga que a escritora havia feito durante os anos do exílio em Praga.

Os anos de 1960, 70 e 80 marcam um grande interesse acadêmico pela obra de Tsvetáieva, com importantes estudos tanto na Europa Ocidental quanto na América. A primeira coleção mais completa de seus escritos saiu nos EUA pela Russica Publisher. Editada por Alexander Sumerkin, o material conta com 6 volumes, dois dedicados à prosa e quatro à poesia. Há que se dizer que, entre nós, não há publicações da prosa de Marina Tsvetáieva. Já no âmbito da poesia, temos a coletânea de poemas Indícios flutuantes, com tradução e seleção de Aurora Bernardini, pioneira nos estudos de Tsvetáieva no Brasil, e algumas poemas traduzidos por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Boris Schnaiderman, que vieram a público na coletânea que leva o título de Poesia russa moderna.

Na União Soviética, a filha de Marina Tsvetáieva, Ariadna Efron, uma vez libertada dos trabalhos forçados nos campos do Grande Norte, em 1954, dedica-se a recolher e a tentar publicar os escritos da mãe. Em 1961, graças aos esforços de Ariadna Efron, que recebeu valiosa ajuda de sua tia, Anastassia Tsvetáieva, vem a público uma coletânea de poemas, cujos versos apareceram novamente na prestigiosa publicação soviética Bibliotieka poeta. Tanto a filha quanto a irmã de Tsvetáieva não pouparam esforços para reunir em um arquivo as obras da poeta, escrevendo a conhecidos e amigos de Tsvetáieva solicitando manuscritos, cartas, livros, etc. Além disso, uma e outra tornaram-se fonte de pesquisa sobre a biografia de Marina Tsvetáieva. Contudo, é preciso que seus depoimentos sejam vistos com cautela não apenas em virtude do contexto da censura soviética, mas também pelas motivações pessoais de ambas, mas, sobretudo, de Ariadna Efron. Preocupada com a reabilitação póstuma da imagem de seu pai, quis limpar de sua imagem o papel que cumpriu. Além disso, a questão das obras de Tsvetáieva editadas por sua filha na URSS deve ser encarada de dois pontos de vista: o da censura oficial e o da censura “mais sutil, porém não menos vigilante” de Ariadna Efron, “que quis tornar público apenas aquilo que ela julgava ser digno de sua mãe e da União Soviética”.

Pouco antes de morrer, em 1975, Ariadna Efron selou todo o material que havia reunido durante cerca de 20 anos e os encerrou nos arquivos da TsGALI (hoje RGALI), com ordens expressas de que só fossem abertos no ano 2000. Teve lugar em Paris um Congresso dedicado, entre outras coisas, a avaliar a abertura desses arquivos. Na ocasião, os estudiosos que participaram das discussões, ao fazer um balanço sobre as possibilidades de estudos ensejadas pela permissão da consulta dos materiais da poeta, lamentaram que o acesso ainda hoje é difícil.

Passada pouco mais de uma década desde o fim da proibição de Ariadna Efron, pode-se dizer que hoje há um maior acesso às obras de Marina Tsvetáieva. E vivemos uma espécie de segunda onda da poeta, que, apesar das peculiaridades, participa da mesma segunda onda do Século de Prata da poesia russa. Além disso, a qualidade das edições apresenta uma melhora significativa em relação àquelas publicadas no final dos anos 80 e inícios dos 90, e estudiosos e tradutores têm se empenhado em tornar a obra de Tsvetáieva mais acessível e conhecida. Há que se lamentar, todavia, que as obras completas editadas não tenham recebido ainda uma segunda edição.

No Brasil, também sentimos essa onda. Temos importantes trabalhos de estudo e tradução da obra de Marina Tsvetáieva finalizados ou em andamento tanto na academia quanto, ainda bem!, fora dela.

Uma voz poderosa assim não obedece fronteiras nem pode ser calada.

Em um de seus últimos textos, “Meu Púchkin” descrevendo a decoração da casa de sua infância, conta que ali havia três quadros: “Aparição de Cristo ao povo”, “A morte de César” e “O duelo”. Nesse texto de 1937, declara que os três quadros preparavam a criança muito bem para “o século do terror que a esperava”. Apesar da clarividência da frase, o mais provável é que Tsvetáieva não soubesse do terror que a esperava.

Há um período dos Processos de Moscou que mais tarde ficou conhecido como Grande Terror. Trata-se mais especificamente do período em que Nikolai Iejov foi chefe do NKVD, de setembro de 1936 a novembro de 1938, que os soviéticas denominaram de “Iejovschina”. É em consequência , portanto, da Iejovschina que se dá a volta de Marina Tsvetáieva para a URSS. Seu trágico destino está envolto, ou permeado, talvez sem que mesmo naquele momento ela soubesse completamente, pelo menos num primeiro momento, já que defende a inocência do marido até o fim, e ainda contra tudo e contra todos, em um plano que, apesar de o objetivo da eliminação de Reiss atingido, tinha sido fracassado, pois foi descoberto.

Quando chega a Moscou, Tsvetáieva e Mur são imediatamente conduzidos a uma datcha de propriedade do NKVD. A essa altura a poeta, certamente, já tomara consciência da gravidade da sua situação, da situação de sua família e dos demais moradores da datcha de Bolchevo. Ficaram ali, em uma espécie de prisão domiciliar, por 5 meses, para serem, em seguida, aprisionados na Lubianka. A poeta foi poupada: estava, novamente, sozinha com o filho e, outra vez, passa a se virar como pode para sobreviver. Quando, em 1941, em meio à ofensiva nazista sobre Moscou, a cidade é evacuada, a poeta é levada, juntamente com outros escritores considerados de segunda categoria, à Elábuga, cidade russa da República Tártara, onde se suicida no último dia de agosto de 1941.




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