Cultura

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O sucateamento das políticas culturais e a repressão aos artistas de rua, faz indagar, "somos realmente livres?"

Gabriel Vinicius

Estudante, presidente do grêmio estudantil Margem Esquerda, artista do Coletivo Poetriz de Teatro e do F5

sexta-feira 9 de setembro| Edição do dia

O homem é fruto do meio, sendo assim, é impossível ter hoje, um pensamento absolutamente puro, livre de inspirações, estamos todos acorrentados ao passado. Entretanto, um Marxista-existencialista francês, disse certa vez, que somos todos condenados a liberdade, e reféns de nossas escolhas, mas, se largamos esse projeto macro de poder da consciência diante do livre arbítrio, ou desejo de escolher, e procuramos os pequenos significados da liberdade, e tentamos instaura-la em projetos separados, tais quais a politica, surge-nos a questão; Nós somos realmente livres? E se somos livres em projetos macros, o que nos leva a não exercer essa liberdade?

Seguindo os parâmetros das revoluções iluministas, e pegando nosso projeto de Estado e legislação, considerando que liberdade; é o homem, em sociedade, construir a própria lei, respeitando a si, e ao próximo. Devemos então analisar uma parte interessante e primordial do artigo quinto de nossa constituição cidadã: “IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;”.

Tendo esses pontos em vista, vamos aos fatos. No último 7 setembro, voltando às 14 horas da manifestação em Belo Horizonte, contra o golpe de Temer, um grupo coletivo de Teatro de rua, chamado de Coletivo Poetriz de Teatro, resolveu realizar intervenções no metrô. Ao entrar em cada vagão, o grupo conversava com os passageiros e pedia a permissão dos mesmos para iniciar suas atividades, cedida a permissão, eles iniciavam as apresentações, e ao terminar, alguns passageiros, por livre e espontânea vontade, contribuíam com o grupo, enquanto o mesmo “Passava o chapéu”. Essa relação é muito compreendida e aceita por todos os artistas, já que a arte é considerada ofício!

Durante as apresentações, muitos outros passageiros se envolveram ativamente, agradeceram ou aplaudiram.

Quase chegando ao término da viagem, o metrô tem seu trajeto interrompido, depois de um tempo de espera, chega um funcionário publico, trajando vestimentas de segurança, que, fazendo uso de sua voz tão imponente, e suas vestimentas que contemplam o exercício da autoridade, convida os artistas a deixarem o vagão por uns instantes. Estes o fazem sem reclamar. Fora da estação, inicia-se a contemplação dos interesses dos meros mortais, com a necessidade do Estado de exercer seu controle e autoridade. O guarda Josué inicia argumentando que para realizar tal performance em um espaço publico, os artistas precisariam de uma autorização da CBTU (o que contraria nosso artigo já citado). Quando questionado, pelo fato de os artistas presentes não carregarem aparelhagem de som, nem instrumentos, o guarda disse que ao adquirir a passagem, se ganha apenas o direito da viagem, e que a mesma deve ser feita calada, de forma quieta. Os artistas questionaram que a performance, que sempre acontece com a autorização dos passageiros, não carregava nada, que não a própria voz dos mesmos, e que esse ato não infringe a lei.

Não foi argumentado muito sobre o ato do recebimento de dinheiro, ou a troca que aconteceu entre os artistas e os demais passageiros, mas mesmo tendo este ato em questão, voltamos a perguntar, nós somos politicamente livres?

Que tipo de trabalho é reconhecido? Que tipo de desempenho é permitido? Um artista tem que pedir licença ao Estado, para estar em um local publico? Um local que indiretamente, os passageiros bancaram (Na mais simplista das observações)?

A repressão que o Estado tem para arte, a proibição, o controle, revela apenas o quão longe estamos de um Estado, ou de uma sociedade politicamente livre e democrática. Quando o mendigo é proibido de transitar porque está descalço, quando o artista é proibido de se manifestar porque o Estado não o reconhece, nós começamos a cavar, juntamente com o braço armado do Estado, e suas ramificações de seguranças de metrô, uma realidade conservadora, ditatorial, que não respeita o básico dos direitos do individuo, nem respeita a vontade popular, muito menos o direito da livre manifestação.

Aos poucos, estamos caminhando para um sociedade dura, repressiva, que terá como principio apenas a manutenção do poder, e não o “ exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos (...)” (parte do preâmbulo da Constituição Federal de 88).

Convido todos os cidadãos a se expressarem artisticamente e politicamente, em todos os locais possíveis, em todos os locais públicos, Estatais, todos os locais bancados pelo Estado que existe por causa dos impostos deste mesmo povo reprimido.

Enquanto, nessa democracia liberal, não nos for dado ao menos o direito de reclamar, ou de nos expressar, teremos de sujeitar-nos às decisões burguesas, e jamais conquistaremos o direito de reescrever o roteiro de teatro, dessa nossa democracia tão fajuta.

Grite meu povo, que gritem os músicos nas esquinas, que gritem os mágicos nos bares, que gritem os malabaristas nos faróis, e os atores no metrô, vamos ousar desobedecer a censura que eles nos impõe, que transforma em privilegio a cultura, monopolizando a arte apenas aos burgueses.

Somos frutos de um meio conservador, estamos cansados de interpreta-lo, artistas de toda esquina, façam uso de sua desobediência civil, vamos escolher não mais suportar, mas sim transformar.




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