Internacional

OPINIÃO

O socialismo de Marx e Engels e a enganação de Pablo Iglesias

Diego Lotito

Madri | @diegolotito

quinta-feira 9 de junho de 2016| Edição do dia

Pela terceira vez desde as eleições europeias de maio de 2014, Pablo Iglesias voltou ao Hotel Ritz. Nessa ocasião, para um café da manhã informativo do Fórum Europa, apresentado pelo seu novo aliado e recentemente eleito líder da Esquerda Unida (IU), Alberto Garzón. E nada melhor que estar no Hotel Ritz para falar de Marx, Engels e o socialismo.

O secretário geral do partido “roxo”, disse essa segunda que a candidatura Unidos Podemos é a única alternativa ao PP (Partido Popular, do atual presidente conservador Mariano Rajoy) nas próximas eleições, dando por certo a superação de votos em relação ao PSOE, algo que pelo momento as pesquisas não desmentem.

Na última sondagem da Metroscopia elaborado pelo jornal El País, ainda que o PP siga liderando na lista com 28,5% dos votos (favorecido por uma abstenção que pode chegar até 5%), a coalizão Unidos Podemos possui 25,6% das intenções de voto (5,4 pontos a frente do PSOE).

Nesse clima de sorpasso, Iglesias chamou a “ocupar o novo espaço socialdemocrata” aberto depois do fracasso da chamada “terceira via”, que nos anos noventa refundou a socialdemocracia, porém a convertendo em social-liberal.

Uma ocupação, isso sim, mais parecida a um Joint Venture que a uma OPA hostil. Iglesias seguiu reivindicando – com seu aliado “comunista” ao lado – a mão estendida ao PSOE e a estratégia de governar com o PSOE como a única alternativa de poder possível para “a mudança”. “Que decida a militância socialista se quer um acordo com o Partido Popular ou com nós”.

A ideia não é nova. Iglesias a vem repetindo há meses, a pôs em prática durante as negociações de investida pós-20D e a reafirmou em matéria publicada na sexta-feira no El País.

“Nosso primeiro desafio é assumir que só poderemos governar mediante uma aliança, na Espanha e na Europa, com a velha socialdemocracia”, disse Iglesias, e responde: “Estou convencido de que a velha social democracia decida o que quiser depois do 26-J, seguirá sendo uma força política fundamental e um aliado necessário para nós, mas acredito que seu peso específico como alternativa de governo aos conservadores estará determinado pela decisão que tome agora. Depois do 26-J o PSOE pode somar-se à mudança e renovar-se ou se agarrar ao passado e converter-se em uma força com muito menos peso histórico na hora de determinar o futuro da Espanha”.

A novidade de Iglesias, esta vez, foi o provocativo recurso de autoridade que buscou para sua política: apelou aos mesmíssimos autores do Manifesto Comunista. “Independentemente do que adiciona Alberto, Marx e Engels eram socialdemocratas”, disse Iglesias sem se envergonhar.

A afirmação de Iglesias não é produto de desconhecimento. É pura enganação. Iglesias conhece a história, sabe que a adesão socialdemocrata de Marx e Engels se encontra nas antípodas do que representou a socialdemocracia depois de sua degeneração reformista. Ademais, inclusive Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci cerraram fileiras na socialdemocracia, com a qual romperam pela sua posição social-patriota na Primeira Guerra Mundial. Dali surgiu a Terceira Internacional com o objetivo de defender a tradição teórica e política de Marx e Engels contra seus epígonos “socialistas”.

Porém para Pablo Iglesias, já se sabe, “os significantes são os de menos”. E para Garzón parece que também é. O líder do IU não falou sobre o tema durante o café da manhã no Ritz, mas sim assinalou depois numa entrevista com El País que “o comunismo é uma tradição política que nasce como cisão teórica e prática da socialdemocracia. Por isso, Lenin, Marx e todos os comunistas do século XIX eram de partidos socialdemocratas, e falavam em seus textos como socialdemocratas. Só que então socialdemocrata significava o que hoje é comunismo”.

Ainda que para Garzón não lhe importa os “rótulos”, disse, e que lhe pareceu oportuno procurar justificar a aparente contradição entre os absurdos que disse seu aliado e as ideias que supostamente defende a Esquerda Unida e o Partido Comunista Espanhol. Mas a realidade é que não há contradição alguma. O comunismo de Garzón não é menos falso que o caráter socialdemocrata que Iglesias quer dar aos fundadores do socialismo científico. Esquerda Unida e o PCE há tempos que se “socialdemocratizaram”. Pelo menos, desde o giro eurocomunista de Carrillo nessa parte.

Porque, em última instância, quando Garzón felicita a seu aliado Iglesias o haver estado “à altura da História” ao aceitar uma aliança com o IU, o que felicita é a comunhão estratégica com o Podemos em que uma coalizão de esquerda chegue pela via parlamentar ao governo e inicie um processo de transformações sociais que permitam, no melhor dos casos, uma sorte de “via democrática ao socialismo”. E esta questão é, justamente, a que marcou o debate estratégico dos revolucionários com o eurocomunismo europeu há quase meio século atrás.

Para Carrillo não podia haver “nenhuma confusão entre eurocomunismo e socialdemocracia no terreno ideológico”, mas a farsa do discurso eurocomunista se viu na prática. Os partidos eurocomunistas atuaram como artífices da recomposição das “democracias ocidentais” e garantias de sua estabilidade. O caso italiano foi paradigmático, com o “compromisso histórico” de Enrico Berlinguer com os empresários, a Democracia Cristã e com o Partido Socialista para fortalecer a democracia capitalista italiana frente às tentativas “totalitárias”. Enquanto no caso espanhol, Santiago Carrillo dirigiu a política da “ruptura democrática” durante a Transição, que em função de “conquistar a democracia”, aceitou a Constituição de 1978, o retorno da monarquia, as bases norte-americanas na península e os pactos de Moncloa. Ou seja, tudo o que o Unidos Podemos aceita por defeito em seu programa.

Talvez o mais honesto nesse novo episódio de confusionismo ideológico podemista tenha sido o número dois do partido, Iñigo Errejón. Além dos “rótulos”, Errejón pôs no eixo a defesa de “um programa que tenha como eixo central a democracia. Tem que proteger os salários, as condições de vida”, disse. “Acredito que isso nos une a pessoas muito diferentes. Somos uma candidatura patriótica, isso junta as pessoas que vêm de lugares muito diferentes”. Resumindo, sem superar os estreitos marcos da democracia liberal, chegar pela via de uma coalizão com os social-liberais e a negociação com os poderes fatuais do capital imperialista europeu e espanhol ao mais parecido que se possa do velho “Estado de Bem-Estar Social”. Por fim alguém quase sincero em expressar suas intenções.

Perante as declarações de Iglesias, a presidenta andaluza, Susana Díaz, criticou o Podemos de “buscar a cópia da socialdemocracia” quando, segundo ela, “ninguém tem que buscar a cópia porque o original é o PSOE”, e respondeu acusando Iglesias de “revisionismo histórico” por situar Marx e Engels na socialdemocracia “esquecendo-se” de Lenin e Trotsky, no que constituiria a maior “operação de camuflagem” que se realizou na história recente do Estado Espanhol.

De certo modo, há algo de correto na crítica de Díaz. Porém a camuflagem de Iglesias não é, como pensa a baronesa socialista, para vestir o lobo de cordeiro, sim exatamente o contrário. Porque a “velha socialdemocracia”, da que Díaz é uma conspícua representante, há décadas que se neoliberalizou, transformando-se no que Tariq Ali denominou o “extremo centro”, onde “a centro-esquerda e a centro-direita compactuam para manter o status quo; uma ditadura do capital que reduziu os partidos políticos a condição de mortos-vivos”.

É sobre essa realidade que opera Podemos, porém não para abrir passo a uma alternativa política de ruptura com o Regime de 78, seu sistema de partidos e o capitalismo espanhol, sim para reconstruir um novo progressismo e colaborar com a “renovação” da socialdemocracia para que esta possa voltar a jogar seu verdadeiro papel histórico: ser o médico de cabeceira do capital.

Nada mais distante do socialismo de Marx e Engels. Um socialismo que se propunha “a declaração da revolução permanente, da ditadura de classe do proletariado como ponto necessário de transição para a supressão das diferenças de classe em geral, para a supressão de todas as relações de produção em que estas descansam, para a supressão de toda as relações sociais que correspondem a essas relações de produção, para a subversão de todas as ideias que brotam destas relações sociais” (Karl Marx, A Luta de Classes na França – cap.3).

Para Iglesias, falar de socialdemocracia ou comunismo não tem valor algum. Tudo o que se diz só tem um sentido: melhorar suas expectativas eleitorais para chegar ao tão sonhado sorpasso que lhes permitirá... governar com o PSOE.

Oscar Wilde escreveu que um cínico é um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada. Pois Pablo Iglesias parece estar levando o cinismo ao mais alto nível.

Tradução: Artur Lins




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