Sociedade

SÃO PAULO

O sistema Cantareira saiu do negativo: por que continua faltando água nos bairros pobres?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 16 de janeiro de 2016| Edição do dia

A manchete do jornal El País de dias atrás era: “O [sistema] Cantareira saiu do negativo, mas o fim da crise hídrica ainda está distante”. E informava que, “pela primeira vez em 18 meses, o sistema não depende mais do volume morto”, mas em seguida informava, discretamente, que “a situação, contudo, é muito delicada”.

De onde vem essa contradição? Se os próprios técnicos reconhecem que choveu muito, e que São Pedro não pode ser mais o culpado, que em dezembro as chuvas superaram em 5% a média histórica, por que a situação ainda é “muito delicada”?


Sistema Cantareira, fonte: Agência Nacional de Águas.

Na verdade a situação é delicada em termos de reservatórios, e é dramática socialmente; não esqueçamos que um número enorme de famílias pobres – em bairros como Tremembé por exemplo – continua recebendo pouca água e apenas algumas horas por dia, no mesmo processo em que o sistema Sabesp continua, na linguagem dos técnicos do governo, “retirando menos água do sistema”. O governo está segurando a água que deveria ir para as famílias da classe trabalhadora, este é o fato. Antes da crise, eram usados entre 33 e 36 m³/s, hoje se usa em torno de 15 m³/s. E sempre é preciso lembrar que as famílias pobres não possuem sistemas de caixas d´água etc, para estocar o líquido vital.

No entanto, o maior dos fatos em toda essa história da água é que a crise hídrica em São Paulo segue com toda força e que ela muito mais que um problema hídrico: sempre foi uma crise política, como já foi analisado em outros artigos. Suas raízes têm a ver com crise da privatização da empresa pública de águas [Sabesp], crise da destruição ambiental a começar das nascentes de rios que abastecem São Paulo, crise de uma gestão pública das águas, gestão que não passa pelas mãos dos trabalhadores de São Paulo e, mais que tudo, crise da casta política que governa a serviço dos grandes interesses privados.

É tudo menos água, tudo menos São Pedro, tudo menos problema de ter mais ou menos “volume morto”. Basta ver que o sistema saiu um pouco do volume morto, por conta de chuvas acima da média [aliás, não vai continuar “chovendo acima da média” nos próximos meses] e, no entanto, a água está racionada ou está faltando em bairros pobres; e um dado ainda mais sintomático é que o governo não está comemorando nada. Era a hora de festejarem: mas eles sabem que a crise tende a se agravar.

Seus técnicos deixaram escapar o que pode ser uma das explicações para eles não estarem capitalizando politicamente essa água extra que entrou no sistema de represas de São Paulo: “Se é verdade dizer que São Pedro não economizou em 2015, também é verdadeiro apontar que o que entrou no sistema é apenas a metade da média histórica. Dos cerca de 3,7 bilhões de m³ acumulados de chuva ao longo do ano, apenas 712 milhões de m³ foram convertidos em vazão afluente, sendo que a média histórica – baseada em um período que vai de 1930 a 2013 – é de 1,4 bilhões de m³” [El País, 9/1/16].

“O engenheiro civil e sanitarista Roberto Kachel, que trabalhou por 34 anos na Sabesp, já alertava que a chuva não era a única medida a ser levada em consideração. ´O Cantareira tem apresentado vazões abaixo da média desde 2011, não adianta chover se a água não está entrando no sistema´, comentou. Para ele, a devastação da mata original na bacia do Cantareira é uma das explicações para a perda da capacidade do sistema reter água. ´É muito positivo recuperar o volume morto, mas certamente ele será usado novamente"[El País, 9/1/16].

Ou seja, mesmo com mais chuvas, pouca água dessa chuva consegue entrar no sistema. A devastação das matas ciliares [de beira de rio], a destruição das matas de nascente dos rios, a falta de verde em São Paulo [e o predomínio do asfalto], a falta de planejamento dos sistemas de coleta e distribuição de água [e de perdas, vazamentos do sistema] e, sobretudo, o fato de a água ter se tornado uma mercadoria, sem controle de sua gestão pelos trabalhadores, são algumas das bases incontornáveis do problema hídrico de São Paulo e do Brasil e que não encontrará a menor sombra de solução nos marcos do poder capitalista.




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