Política

BONAPARTISMO

O silêncio dos generais e o novo gabinete de crise

Fortalecidos no governo, os generais guardam silêncio sobre o combate ao coronavírus. Mas por trás desse silêncio cúmplice, vão acumulando mais poder efetivo no comando do poder executivo. A criação do gabinete de crise do Covid-19, chefiado por Braga Netto, é um novo passo.

Thiago Flamé

São Paulo

terça-feira 17 de março| Edição do dia

Os generais do exército que entregaram o controle da Amazônia via satélite para os EUA (o Sivam), são gente que definitivamente acredita que a Terra é redonda e que não se combate uma pandemia com orações. Enquanto Bolsonaro apertava a mão dos seus mais fanáticos apoiadores, na Esplanada dos Ministérios, Fernando Azevedo, o general da defesa, só se reúne por chat, para evitar o contágio. O contraste não poderia ser maior. Mas por que se calam nesse momento?

Porque enquanto os pastores apoiadores do Bolsonaro, como Silas Malafaia, propagam o negacionismo anticientífico e o próprio Bolsonaro faz eco desses sentimentos – sabe-se lá com qual objetivo – os militares guardam um silêncio sepulcral sobre toda essa crise? Justo os generais que vem bem falantes e ativos, tendo sido pivôs de todas as últimas crises do governo. É que enquanto Bolsonaro propaga imbecilidades, os generais vão tomando as rédeas do poder de fato.

A equação já havia sido aplicada durante a crise no Ceará e antes, como resposta às crises envolvendo a Amazônia. Bolsonaro alimenta e incentiva a sua base fascistoide contando com o silêncio cúmplice dos generais. O Congresso, o STF, a Globo, a Folha e o Estadão se escandalizam, pedem basta, Reinaldo Azevedo “o liberal” clama aos generais razoáveis… que então tomam as rédeas da situação. Foi assim no Ceará com a GLO. Agora, com a criação do comitê de crise o governo responde aos clamores expressos em editorial da Folha de ontem, de centralizar as ações em alguém que não queira combater o vírus com orações. E esse alguém será Braga Netto.

Assim vai se desenvolvendo uma dinâmica bonapartista. Para conter os loucos da turma do mago de Virgínia, chamam os generais. Ou seja, para conter a expressão dos elementos fascistas, clamam pelo velho e bom autoritarismo estatal militar. É um jogo arriscado para o Alto Comando, que de tanto silenciar pode se ver superado pela turma fascista miliciana, que conta com algum apoio minoritário até na cúpula militar, ou por aventureiros que queiram precipitar o desenlace golpista.

Na disputa entre Congresso e STF contra os arroubos fascistizantes do bolsonarismo, os generais entram como poder moderador de fato, como sempre atuaram. Nesse caso para garantir o avanço das reformas neoliberais que devem seguir até durante a epidemia. A jogada dos militares no governo consiste em duas possibilidades: acabarem com o poder de fato em suas mãos e Bolsonaro só com o poder de reclamar, que é o que mais tem feito nesses dias, reclamar das próprias ações do governo que ele preside. Ou até mesmo, a depender do desenrolar a crise e do nível de insatisfação que as loucuras presidências possam gerar, se fazerem cargo do próprio governo através de Mourão.




Tópicos relacionados

Exército   /    Forças Armadas   /    Política

Comentários

Comentar