Política

BASE ALIADA?

O silêncio do PSDB e DEM frente ao decreto de Temer e ato em Brasília

Nas páginas de todas as principais figuras públicas do PSDB e DEM escuta-se apenas um som: o do silêncio. Maia foi o único a falar, desmentido Temer sobre ele ter pedido o Exército. Os principais dirigentes desses partidos só se pronunciaram sobre suas crises locais, esses políticos que são sempre cheios do que dizer sobre qualquer fato, preservaram-se o direito de silêncio frente a manifestação de hoje e frente ao decreto de Temer, colocando o exército na rua. Há muita, mas muita, crise nas alturas.

Leticia Parks

São Paulo

quarta-feira 24 de maio| Edição do dia

Nas páginas de todas as principais figuras públicas do PSDB e DEM escuta-se apenas um som: o do silêncio. Exceção seja feita, Rodrigo Maia falou, desmentido Temer sobre ele ter pedido o Exército. As principais lideranças desses partidos ao se pronunciarem hoje ficaram em silêncio sobre a ocupação de Brasília e o decreto de Temer. Só se pronunciam sobre suas crises locais – como Alckmin (PSDB-SP) mostrando as novas 733 armas que chegaram na Secretaria de Segunrança Pública de SP e, alegre, os escombros do bairro da Luz onde junto de Dória (PMDB-SP) deixaram feridos moradores por desabarem suas casas e prédios sobre suas cabeças -, esses políticos que são sempre cheios do que dizer sobre qualquer fato relevante ou imbecil que aconteça na realidade, preservaram-se o direito de silêncio frente ao maior fenômeno da luta de classes no Brasil desde as jornadas de Junho de 2013.

Tasso se arrisca a pronunciar, mas numa arte incrível de não fazê-lo. Mantém a imagem de "É hora de defendermos a democracia" que pode ser entendida como praticamente qualquer coisa por essa massa que viu repressão, tiros e exército na rua. Até então, tudo o que se via em seu Twitter era uma propaganda da Reforma Trabalhista de 16 de maio:

No Twitter de Dória, um dia como se nada em Brasília estivesse acontecesse:

... é o que ele fala sobre o Centro de Educação Infantil que visitou durante a tarde, enquanto manifestantes eram feridos a bala, Temer colocava Exército para policiar as ruas. Antes, se defendia dos ataques mais massivos que recebeu durante seu mandato:

Alckmin, usou um punhado de postagens para propagandear os novos armamentos que a Polícia Militar recebeu hoje, e nada sobre Brasília.

... e claro, sua velha arte de fingir que esse lugar sempre foi vazio, que exercitou brilhantemente com a demolição do presídio do Carandiru:

Aloysio Nunes nada publicou hoje, sua última postagem foi defendendo Reinaldo Azevedo:

Pode parecer, pela atitude desses políticos, que o que ocorreu em Brasília nesse 24 de Maio de 2014 foi apenas mais um dia em um país que se movimenta. Mas foi muito mais do que isso. Foram mais de 100 mil manifestantes que atenderam ao chamado das centrais sindicais pelo #OcupaBrasilia no dia de hoje, apesar de todos os freios que as burocracias dentro dos sindicatos colocaram para que esse 24M não fosse convocada uma nova greve geral para derrubar completamente todas as reformas e Temer.

Os manifestantes resistiram a repressão por horas. Policiais atiraram com armas de fogo e às 18hs Temer decretou que autorizava a intervenção das Forças Armadas para, segundo ele, proteger Planalto e ministérios após “vandalismo”.

Após o pronunciamento da Garantia da Lei de Ordem (GLO), regulada pela Constituição de 1988, houve rebuliço e crise da base aliada de Temer no Congresso, e o silêncio que já se dava desde o início do dia se intensificou, levando os tagarelas do PSDB e DEM a calarem-se frente a tamanha política.

Hipóteses sobre o silêncio de PSDB e DEM

Até às 18hs, o silêncio poderia ser marca de uma base aliada que, desde os vazamentos de áudios, vive uma crise interna que a impede de definir o quanto o presidente que já arrastava tão baixa popularidade ainda pode se preservar e o quanto isso atinge sua própria necessidade enquanto representantes da burguesia de aprovar o pacote de Reformas do Trabalho e Previdência e ainda ter bons resultados eleitorais em futuros pleitos.

O tamanho e nível de apoio da manifestação como continuidade da greve geral de 28 de Abril podem deixar um tanto embaçado o futuro imediato do pacote de reformas e de quem estará à frente do Governo Federal para garantir que os capitalistas continuem lucrando sobre o sangue, suor e lágrimas das massas trabalhadoras brasileiras.

Após as 18hs e o acionamento da GLO, o silêncio da base aliada deixa o governo sozinho na defesa da repressão extraordinária que ocorreu hoje. A própria denúncia comum de que os manifestante são vândalos, que PSDB e DEM adoram dizer de boca cheia, ficou no Jornal Nacional e nos portais da grande imprensa mas somente a um ou outro deputado federal da direita que defendem a saída de Temer e eleições gerais ou indiretas, como Álvaro Dias. Para esses também não foi possível carregar na tinta contra os manifestantes. Foram obrigados a dizer que “uma minoria” agiu de maneira antidemocrática em uma manifestação que, em geral, tinha um caráter justo.

Fato é que nem a denúncia contra os manifestantes, nem a denúncia da GLO, nem a quantidade de apoio e gente na mobilização do 24M foram capazes de forçar um pronunciamento dessas figuras políticas aliadas ao PMDB. Será preciso ver ainda o que os tirará desse silencioso vislumbramento de cima de muro, que é na verdade um respiro para retraçar os rumos das tão desejadas – por eles, capitalistas, apenas – Reforma da Previdência e Trabalhista, seja por Temer, seja por qualquer fantoche das mãos capitalistas.

Com tanta hesitação em cima é mais que renovada a necessidade da ação da classe trabalhadora. Em nova greve geral pela derrubada das reformas e Temer.




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