Sociedade

TRABALHO ESCRAVO E EXPLORAÇÃO INFANTIL

O sabor amargo do trabalho escravo na extração da erva-mate.

A exploração e o trabalho infantil deixam o chimarrão mais amargo a cada dia. Adultos e crianças continuam sendo explorados para o lucro das empresas do setor erva-mateiro.

terça-feira 30 de agosto| Edição do dia

Contexto histórico

O chimarrão ou mate é uma bebida típica da cultura da região do Cone Sul. Suas origens estão nas culturas indígenas como os guaranis e os quíchuas. Nos países de língua castelhana usa-se o termo mate, derivado do quíchua mati. Já no Brasil, o termo utilizado é o “chimarrão”, proveniente da palavra castelhana rio-platense cimarrón.

Embora algumas regiões da Bolívia e do Chile sejam consumidoras da infusão, é na Argentina, no Brasil e no Paraguai onde a bebida é mais consumida e produzida. A Argentina é responsável por 52,6% da produção total; o Brasil por 40,6% e o Paraguai por 6,8%.

Durante o século XVI o consumo de erva-mate pelos indígenas foi proibido pelas missões jesuítas e considerada como “erva do diabo”. José Catafesto, antropólogo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul comenta:

"A erva-mate estava presente nos transes dos pajés. E como o chimarrão era consumido durante as reuniões dos pajés com a aldeia, os padres a consideravam a “erva do diabo”, pois incitava os índios contra os europeus.”

Poderia ser uma história bonita de resistência à colonização se não fosse banhada pelo trabalho escravo dos indígenas que foram colocados para cortar e produzir a erva-mate, após a incorporação da tradição de tomar chimarrão pelos brancos europeus.

O sabor amargo do trabalho escravo e infantil

O processo da colheita da erva-mate baseia-se no corte dos galhos da planta com um serrote ou tesoura, seguido do sapeco (passar os ramos pelo fogo) e secagem.

Hoje em dia, parte do processo de produção da erva-mate é feito pelas grandes indústrias, contudo a extração das folhas ainda é feita manualmente por trabalhadores diretos e indiretos da empresa. Boa parte desses trabalhadores são informais e enfrentam condições absolutamente precárias, saem de suas casas para os ervais (local onde a erva-mate é plantada ou na mata nativa), dormindo em baixo de armações de madeira cobertas por uma lona, sem colchão, tendo que deitar no chão ou no meio do mato, isso tudo em uma região em que o frio é outro obstáculo a sobrevivência. Esses trabalhadores passam de 5 a 6 dias nos ervais, sem água potável, muitos bebem de rios onde animais também consomem a água, podendo causar inúmeras doenças por contaminação.

Em 2011, o Ministério Público Federal propôs Ação Penal contra três pessoas acusadas de reduzirem cerca de dez trabalhadores a condições análogas à de escravo, submetendo-os a jornada exaustiva e condições degradantes de trabalho. Lá, os fiscais do Ministério do Trabalho encontraram os trabalhadores, que cortavam erva-mate alojados num chiqueiro. No local, haviam várias baias, fezes de animais, falta de água potável, eletricidade e nenhuma condição de higiene e conforto. No alojamento não haviam portas, janelas, nem camas. Sem banheiro, os trabalhadores não tinham local para fazer a higiene pessoal. As necessidades eram feitas no mato e o banho era tomado no rio.

Em 2013, três crianças da comunidade indígena de Ipuaçu foram encontradas em semelhantes situação em outro erval.

Nesse sistema de exploração escravagista, o trabalhador do erval ganha entre R$1,50 e R$1,80 por arroba (equivalente a 15kg). Grande parte dos cortadores da erva-mate permanecem no trabalho informal, pois os salários das empresas não superam os R$1.000 e não contratam pessoas de idade mais avançada (acostumados há anos de extração) e “sem estudos”, como diz o cortador de erva, Denir Teixeira de 30 anos em um documentário intitulado “Erva Viva”. Além disso, o preconceito racial é outro fator que obriga essas pessoas a trabalharem nesse ramo. A pesquisadora catarinense, Arlene Renk comenta:

“Um agricultor de descendência italiana, alemã ou polonesa nunca cortaria erva-mate, porque para ele a atividade mais rentável é a agricultura. Consequentemente, o que sobra ao "caboclo" que não é agricultor, que não tem a propriedade da terra, que não tem uma ocupação rentável, é uma atividade sazonal (temporária), por tarefa onde ele recebe por produtividade. Ou seja esse indivíduo não escolhe. Ele é escolhido pela atividade”.

Outra problemática é o trabalho infantil nesses locais de plantio de erva-mate. Para muitas famílias é inconcebível que as crianças, a partir de certa idade, permaneçam em casa enquanto outros membros da família saem para trabalhar das 4 da manhã quando acordam para fazer a viagem até o local de extração até as 8 da noite quando regressam a suas casas. Além de não haver ninguém para cuidar dessas crianças, a força de seus pequenos braços torna-se uma possibilidade de aumentar o “salário” de fome dessas famílias. Como resultado, as crianças são obrigadas a deixar a escola, freqüentando-as apenas no período da entressafra.

Cinco casos de trabalho escravo em 20 dias

Em 2011, em apenas 20 dias, a equipe de fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Santa Catarina, acompanhada do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal, encontrou cinco situações de trabalho escravo contemporâneo em propriedades de erva-mate.

Ao todo 33 pessoas (quatro adolescentes menores de 18 anos) foram resgatadas. Os escravizados encaravam quadros desumanos como: "alojamento" instalado em paiol, com banho sendo tomado em cubículo com fezes expostas e alimento roído por ratos, além de barracas de lona e colchões colocados diretamente no chão, mesmo com temperaturas a -1° C, sem água potável para beber, depois de já terem dormido em chiqueiro.

Escravidão sem fronteiras

Em um artigo publicado por La Izquierda Diario sobre o mesmo assunto, podemos observar que essa grave situação também ocorre com os nossos vizinhos e companheiros argentinos.

O artigo cita que na província de Misiones, onde a erva-mate é cultivada, “os trabalhadores costumam trabalhar 15 dias contínuos para depois descansar no fim de semana e com sorte chegam a ganhar 3 mil pesos argentinos (aprox. R$640) por mês. Enfrentam uma jornada de sol a sol: levantando às 3 ou 4 da manhã – dependendo da distância até o erval – para descansar os pés às 8 da noite. Um dos piores momentos é a viagem. Em 2013, três adolescentes de 13, 14 e 17 anos morreram ao desembarcar de um caminhão com erva-mate que os levava. A problemática é histórica, como podemos observar, e nenhum governo procurou solucioná-la, ao contrario, alguns se beneficiaram por serem acionistas dos engenhos, grande latifundiários ou contrabandistas, como é o caso de Ramón Puerta, ex-presidente, ex-governador da província de Misiones, atual embaixador do governo de Mauricio Macri na Itália e empresário do setor da erva-mate com mais de 2.500 hectares distribuídos em quatro fazendas”.

Seja no Brasil, na Argentina ou no Paraguai, esses trabalhadores vítimas de um sistema capitalista imoral e desumano são expostos a condições degradantes das quais nenhuma pessoa deveria ser sujeitada. Menos ainda quando a razão dessa exposição é tão somente aumentar as margens de lucro dos patrões. Esses trabalhadores não estão nesses locais por opção ou escolha. Eles não gostam desse trabalho. Pessoa alguma aceitaria tomar, por livre e espontânea vontade, água contaminada, dormir no chão ao lado de excrementos e comer comida estragada.

“Nesses locais não existem cabelos loiros, nem sobrenomes extravagantes. O cortador é sempre caboclo, nascido no interior, peão sem terra”. (Cabañas/Godoy - LID)




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