Educação

PM NA UFMG

O reitor mente. A PM na UFMG não serve à nossa segurança

Nas últimas semanas cresceu a insegurança entre estudantes e trabalhadores na UFMG, devido a uma série de roubos. Mesmo os estudantes tendo se reunido e discutido sobre o tema com uma maioria contrária à entrada da PM, logo no fim da semana a Reitoria decidiu aprovar a intervenção da Polícia Militar no Campus Pampulha. Seria a instituição historicamente racista, que mais mata a juventude periférica e reprime os estudantes, a solução dos problemas de segurança na UFMG?

Pammella Teixeira

Belo Horizonte

quinta-feira 31 de agosto| Edição do dia

Foto: reprodução/globo.com

No início do mês aconteceu um assalto a estudantes que estavam em um ônibus interno no período noturno. Desde então notícias de outras ocorrências passaram a ser veiculadas em grupos de Whatsapp e a mídia tem noticiado os casos e entrevistado as pessoas dentro do campus. Além das discussões “informais” entre os estudantes, o DCE, que já havia feito reuniões com a Reitoria e estava repassando os pronunciamentos do reitor, convocou uma reunião para tratar do assunto, que contou com mais de 100 pessoas e onde as intervenções se mostraram majoritariamente contrárias à intervenção da PM no Campus como solução ao problema de segurança. Aconteceram também assembleias estudantis na Biologia e na FAFICH sobre o assunto.

Ignorando as discussões dos estudantes, o Reitor Jaime Arturo Ramírez tomou uma medida que passa por cima de qualquer democracia: em nota, diz estar ciente da gravidade do problema da falta de segurança na UFMG e anuncia medidas que serão tomadas, dentre elas o reforço do policiamento pela PM fora e dentro do Campus, atitude tomada após uma reunião com um major da Polícia Militar. A assessoria de imprensa da UFMG justifica que “a Reitoria está, ainda, mantendo reuniões com entidades que representam os segmentos da comunidade universitária para receber sugestões e discutir possíveis encaminhamentos”, mas a verdade é que os estudantes, maioria na universidade, são silenciados nas grandes tomadas de decisão, e mesmo o já antidemocrático Conselho Universitário não foi ouvido antes de tomar tal medida.

Além disso, a PM não serve à nossa segurança. Ao contrário: é uma instituição historicamente racista, violenta e repressora. Na UFMG vimos no ano passado a enorme repressão às ocupações e lutas, quando, mesmo sem permissão, a PM invadiu e violentou com bombas e balas de borracha estudantes universitários e secundaristas. Repressão que a própria Reitoria condenou na época. Esse ano temos visto o que essa mesma polícia tem feito nas ocupações urbanas, tratando à bala e cassetete os moradores em ações de “reintegração de posse”, como aconteceu com a jovem Gabi, que teve o rosto atingido por uma bala de borracha.

Para entender que a PM nunca serviu à nossa segurança basta recorrer aos exemplos de outras universidades como a USP, que teve a implantação da PM no campus em 2015 através da Koban, e cujos índices de violência não baixaram. Ao contrário disso, hoje estudantes e trabalhadores, sobretudo os negros, sofrem com a perseguição a mando da reitoria da USP.

Sabemos o que significa a presença da Polícia Militar nos espaços que sejam minimamente ocupados pela juventude periférica e negra. O exemplo de Rafael Braga, preso desde 2013 apenas por ser negro, nos mostra o caráter reacionário de uma polícia e uma justiça que não devemos confiar. Recentemente pudemos acompanhar a extrema militarização do RJ, a ocupação das tropas do exército nas ruas e a chacina promovida pela polícia das UPPs na favela do jacarezinho, onde o clima é de guerra com 7 mortes e quase quarenta desaparecimentos em uma semana.

É em épocas de crise, quando a desigualdade, o desemprego e a miséria chegam a níveis inaceitáveis, que os políticos e gestores propõem aumentar o policiamento. Tentam esconder as causas para a violência, que são justamente os problemas causados por uma crise econômica que só cresce, em que escolas e hospitais são fechados, o corte de verbas assola a toda a classe trabalhadora, e a juventude é privada de opções de cultura e lazer. A polícia é apenas uma resposta reacionária a tudo isso.


Túlio Santos/EM/DA Press. Invasão da PM na UFMG no dia 7 de dezembro de 2016

E é preciso denunciar também que o governador Fernando Pimentel (PT) esteja participando deste plano racista e repressivo da Reitoria. Nada de novo para quem comandou a repressão a diversas manifestações estudantis contra a PEC 55 em 2016, durante o processo de ocupações.

Mas qual a saída para essa difícil situação?

Antes de tudo, é preciso saber que não existe uma resposta fácil nem imediatista para essa pergunta. A universidade sofre os problemas da sociedade, e impedir totalmente que isto aconteça seria isolar ainda mais a universidade do restante da sociedade.

A Reitoria toma essa medida autoritária porque não hesita em aprofundar o elitismo e o racismo que já existem na universidade. A maioria da juventude de BH e região, além de não acessar a UFMG por causa do filtro social e racial do vestibular, não pode entrar aqui à noite ou durante as festas. As trabalhadoras e trabalhadores terceirizados, em sua maioria negros, recebem péssimos salários e não têm direitos trabalhistas respeitados. A PM vai aprofundar esse quadro de racismo e violência.

Em primeiro lugar é preciso atender demandas antigas dos estudantes e de toda comunidade, nunca respondidas pela Reitoria, que por outro lado se mostrou muito rápida em convocar a PM. É preciso melhorar a iluminação do campus; fazer um campus aberto e movimentado com atividades culturais (fim da proibição e perseguição às festas e atividades culturais); ter cantinas, xerox e bibliotecas funcionando à noite.

Para que exista um corpo de segurança universitária que não sirva à repressão, a universidade deve ser radicalmente transformada. Hoje a segurança universitária também é usada pela Reitoria para reprimir mobilizações estudantis, tendo agredido estudantes na luta contra o aumento do bandejão no ano passado, por exemplo. Para que a segurança não atue contra os estudantes mas sim que sirva à segurança da comunidade e do patrimônio da UFMG, ela deve estar sob controle de toda comunidade acadêmica democraticamente, o que só poderá acontecer com uma grande mobilização pelo fim da Reitoria e desta antidemocrática estrutura de poder da universidade e com a implementação de um governo democrático de professores, técnico-administrativos e estudantes, com maioria estudantil na tomada de decisões.

Para tudo isso é preciso barrar os cortes de verbas que Temer tem feito no Ministério da Educação e nas universidades públicas, e também decidir democraticamente o que fazer com as verbas recebidas, que hoje são controladas pela Reitoria e pela burocracia universitária.

O DCE-UFMG precisa por fim ao seu silêncio cúmplice da Reitoria e se posicionar claramente contra a PM no campus. Na sexta-feira (25) mais de 100 estudantes participaram de uma reunião não deliberativa chamada pelo DCE, com a imensa maioria se posicionando contrariamente à entrada da PM na UFMG. É preciso que o DCE convoque uma assembleia deliberativa para que os estudantes possam se posicionar e tomar medidas próprias frente ao autoritarismo da Reitoria.

Somente transformando a universidade e toda a sociedade poderá haver segurança para todos. Os estudantes e toda comunidade acadêmica precisam repudiar a medida repressiva da Reitoria e dar sua resposta ao problema. Fora a PM e qualquer polícia da UFMG!




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