Política

LENDO A GRANDE MÍDIA

O rei está morto? Viva novo rei das reformas? Folha se alinha com Globo pela saída de Temer

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

domingo 4 de junho| Edição do dia

Atualizado às 20:01

Na antevéspera de dia decisivo, quando a chapa Dilma-Temer vai a julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, todos grandes jornais publicam editoriais explicando sua política. Do consenso pelas reformas começa a emergir dia-a-dia um crescente consenso da mídia pela saída de Temer via TSE. Tal como ocorreu no impeachment de Dilma, foram meses para que Folha, Estado e Globo se alinhassem. Agora são dias e semanas. Neste domingo a Folha, com sua protocolar defesa de diretas para na verdade defender indiretas, como foi no impeachment, alinhou-se taticamente com o Globo para exigir solução do TSE e aceitar eleição indireta de novo “rei” para as reformas.

O alinhamento da Folha e do Globo começa a fazer o pêndulo do "partido da mídia" pender para uma saída de Temer. No entanto esse "partido" está longe de ser o único em jogo. A federação dos banqueiros, como ressaltamos abaixo, parece defender a permanência de Temer, os partidos se dividem não somente sobre tirar ou não Temer (diariamente se especula diferentes movimentos tucanos) mas em uma falta de consenso sobre quem colocar no lugar do atual mandatório. Sem um consenso, mesmo gravemente ferido, Temer pode ir se arrastando no poder para ser ele o implementador das reformas, mesmo que parcialmente. Um cenário que é tudo menos estável, pois um governo sem qualquer popularidade, notoriamente corrupto seria o capitão de reformas intragáveis. Há muita indefinição na situação nacional, focamos nesse artigo exclusivamente no crescente consenso de um dos partidos em jogo: o da mídia.

O Globo, paladino das indiretas

O Globo, agente dessa tentativa de “golpe dentro do golpe” para impor novo condutor das reformas atuou de forma decidida junto a Janot, Fachin e a JBS e já tinha afirmado em editorial de 19 de maio que defendia a saída de Temer. Coerente com sua linha editorial desde o dia seguinte às delações da JBS, o matutino carioca reafirma sua linha nesse domingo.

“Pedidos de vistas são normais,, mas protelações em processo tão longo e urgente, não. O Brasil tem de ultrapassar essa etapa.” Tudo isso para que se reafirme um Brasil, onde diz aquele jornal, a lei “valha para todos” e que assim haveria maior legitimidade para impor as reformas. Já que estas seriam para esses representantes da Casa Grande “tão essenciais aos brasileiros” e “tem mais chances de passar num Brasil adulto, que não empurra para debaixo do tapete os erros cometidos.”

A Folha vai do Temer fará sucessor a pedido de cassação no TSE

A Folha vinha hesitando em defender a saída de Temer. No dia 21/05 publicou artigo de seu dono Otavio Frias Filho que se intitulava “Ainda é cedo para dizer que a administração Temer acabou”. “Otavinho” como é conhecido especulava somente duas semanas atrás que a condução das reformas e melhora da economia talvez até colocasse Temer em condição de tentar eleger seu sucessor. Quinze dias depois concluíram que a defesa das reformas impõe defender a cassação via TSE, esse é um dos argumentos centrais do editorial de hoje intitulado “Sem Temer”.

Não mais. Agora há um julgamento “político” e “jurídico” que exige a condenação. Diz a Folha: “Todo julgamento que implica um presidente da República tem um aspecto jurídico e outro político. A iminência do juízo no TSE surge como fórmula legal para remover um chefe de Estado cuja situação se afigura indefensável, até porque sujeita à aparição de revelações que convertam as fortes suspeitas em certezas."

Tal como na época do golpe institucional a Folha defende (para constar e dialogar com "centro-esquerda") que nesse “golpe dentro do golpe” sejam conduzidas eleições diretas, ela diz: “Agora, como então, o ideal seria que o substituto fosse eleito pelo voto direto. A crise moral que corrói o sistema político é tão grave e profunda que somente um retorno à fonte de toda legitimidade -a soberania popular- pode restaurar a autoridade presidencial.”

Porém, descrente de que seja possível conseguir uma emenda constitucional em tempo recorde, e tal como no impeachment depois de prestar uma saudação à bandeira das "diretas", coloca todas suas fichas na saída mais consentida entre os empresários e parlamentares que querem retirar Temer: as indiretas. A Folha reafirma que aceita as indiretas dizendo que “é indiscutível que a Constituição exige do Congresso a escolha do sucessor em 30 dias, desfecho a ser acatado como legítimo.”

Legitimo? Que os congressistas da JBS, da Odebrecht, da bíblia, da bala, do impeachment por suas famílias e papagaios escolham eles um novo presidente.

O motivo da mudança de posição da Folha também fica expresso no mesmo editorial. É o fim da capacidade de conduzir as reformas. “Sua capacidade de seguir adiante com esse programa parece seriamente prejudicada.”

E, por fim, preparam o terreno para encarar as eleições de 2018 como um plebiscito sobre as reformas, que esperam já estarem todas consumadas. Um plebiscito sobre o fato consumado, e a terra arrasada dos direitos dos trabalhadores. Dizem “Em algum momento, decerto nas eleições gerais de 2018, o caminho adotado será submetido ao escrutínio popular. Por ora, o mais importante, com ou sem Temer, é que governo e Congresso persistam nesse rumo, único capaz de nos livrar da recessão e preparar um futuro mais próspero e promissor.”

Estadão reluta em abandonar Temer, FHC quer urgência na decisão tucana

Já o Estado de São Paulo, cada vez mais paladino dos procedimentos legais e agora crítico da Lava Jato faz um editorial contra Fachin e Janot e no bojo de suas críticas a esses agentes do que viemos chamando de “golpe dentro do golpe” se pronunciam contrários a cassação no TSE. Diz o jornal da família Mesquita: “há quem defenda que a cassação da chapa no TSE seria uma “saída honrosa” para Temer, seja lá o que isso signifique. Se assim for, os tribunais estarão sendo usados para a produção de fatos políticos de extrema gravidade”.

Agora, tomam consciência do judiciário brasileiro ser arbitrário e agente político. E tomam consciência no que tange a Temer, rei das reformas que eles ainda hesitam em considerar morto como seus pares da Folha e Globo.

Cada associação empresarial tem se pronunciado, todas pelas reformas e algumas mais abertamente pela renúncia e pelas eleições indiretas. A mais chamativa nesse caminho foi a FIRJAN e dando passos pela defesa da indiretas também se pronunciaram os latifundiários da CNA. A FIESP aparenta divisão e não se pronuncia nem pelo “Fica Temer” nem pelo “Fora” e tem publicado matérias pagas nos jornais sobre outros assuntos que a crise política. A poderosa confederação dos banqueiros, a FENABAN, guarda silêncio, gerando especulações que estariam pela permanência de Temer para conduzir as reformas. A divisão de partidos políticos e falta de um nome de consenso conspiram a favor de Temer, mesmo com essa crescente maioria do "partido da mídia" por sua retirada.

O dilema entre a Fenaban, a Bovespa e o voto da classe média urbana é o que explica não somente como até agora Temer sobreviveu mas também a posição “em cima do muro” do tucanato, que poderia oferecer a “bala de prata” a Temer. Cioso que seu partido está “mal na fita”, FHC dedica sua coluna semanal no Globo e Estado de São Paulo a explicar o “em cima do muro” de seu partido, mas dá indícios que apoiaria as eleições indiretas, e chama o partido a agir rápido para garantir as mesmíssimas “sacrossantas” reformas. Ele afirma que se confirmar que se as bases “institucionais e morais da pinguela ruírem? Então caberá dizer: até aqui cheguei”.

A decisão da Folha embarcar na pressão pela saída de Temer deve aumentar ainda mais a pressão sobre o PSDB, que decidirá nos próximos dias se segue apoiando ou não a Temer. Com mais e mais associações, jornais se pronunciando espera-se que empresários, banqueiros e mais setores decisivos "deem" suas cartas nos próximos dias.

Os jornais como partido político e como superar o conchavo "dos de cima"

A crise política nacional, combinada a aguda crise econômica e crescente crise social ganha contornos que viemos caracterizando como “crise orgânica” tomando emprestada a categoria de Gramsci. Nela diz o marxista sardo, sem uma nova hegemonia às vistas, com fratura entre representantes e representados, e no ocaso ou crise das representação partidárias se fortalecem as burocracias civis e militares, em nosso caso a toga do STF e as algemas do MPF-PF, bem como os jornais passam a atuar como partidos políticos. Dizia Gramsci ““pela falta de partidos organizados e centralizados, não se pode prescindir dos jornais: são os jornais, agrupados em série, que constituem os verdadeiros partidos.” (Cadernos do Cárcere 1, § 116)”.

A decisão da Folha de hoje de “alinhar-se em série” com o Globo dá mais um passo, faltam ainda outros meios se alinharem, para que a decisão dessa parcela da elite seja considerar que o rei está morto. Eleger um novo rei, no congresso de príncipes da corrupção e retirada de direitos dos trabalhadores. Falta, além da mídia a Fenaban e outros atores fundamentais entre os capitalistas decidam quem segurará o cetro de arrancar direitos dos trabalhadores.

Os "de cima" conspiram contra nossos direitos, tanto os que querem tirar como os que querem manter Temer. Aos “de baixo”, a escapatória dos conchavos presidenciais, está em garantir que a nova greve geral indicada pelas centrais supere a de 28 de abril. Para isso organizar comitês pela base que organizem um plano de luta e até mesmo a autodefesa para garantir que a nova greve seja não somente para derrubar Temer mas também as reformas e impor uma saída que não passe pelo que quer a Folha, uma eleição plebiscitária pós-reformas, mas a completa anulação das reformas e um questionamento a todo esse podre e corrupto regime político de retirada de direitos. Por esse motivo o Esquerda Diário e o MRT, que o impulsiona, defendem impor uma Constituinte para desenvolver esses questionamentos como parte de avançar a experiência com toda forma de “democracia dos ricos” e, a partir dessa experiência ganhar a maioria da população para a construção de um governo dos trabalhadores que rompa com o capitalismo.




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