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QUILOMBO VERMELHO

O racismo nasceu com o capitalismo, e com ele merece morrer

O racismo não é algo natural ao ser humano. Não é um resquício do passado pré-capitalista, mas um produto do capitalismo, alterado depois do fim da escravidão. Compreender essa relação é crucial para lutar para como lutar hoje.

quinta-feira 16 de novembro| Edição do dia

O racismo não é algo natural ao ser humano. Não é um resquício do passado pré-capitalista, mas um produto do capitalismo, alterado depois do fim da escravidão. Resgatamos nesse texto baseado em trecho do manifesto do Quilombo Vermelho que será lançado esse sábado essa relação histórica e apontamos como ela se reproduz dia a dia no Brasil. Essa ideia escondida pela elite, ignorada pela longa tradição da esquerda brasileira é crucial para erguermos esse combate hoje contra o racismo e o capitalismo.

“Nunca fomos racistas”, dizia anos atrás em um livro o diretor de jornalismo da Globo. Ali Kamel. Não é o que se sente procurando um emprego, diante da polícia, diante da justiça, nem o que grita cada estatística desse país.

O Brasil é o país com mais negros fora da África. Foram 4,8 milhões de escravos africanos capturados e trazidos à força para o que viria a ser o Brasil. O que pode parecer somente um dado a mais, revela que nada pode ser entendido neste país, assim como em nenhum país de passado escravagista, sem levar em conta o papel fundamental da escravidão e do racismo. Esse passado é também presente e o sentimos na pele todos os dias. Os negros, e principalmente as mulheres negras, estão nos postos de trabalho mais precários, recebem os piores salários, são 9 de cada 10 entre os mortos pela polícia mais assassina do mundo. Nós sofremos com a violência e a humilhação das ofensas racistas desde crianças, aprendendo que os negros são a cor do “suspeito padrão”.

No capitalismo, uma sociedade baseada na exploração, o racismo corre nas veias da burguesia desde o seu surgimento. Esta classe que é dona das máquinas, das terras, da tecnologia, e que se apropria de todo o trabalho produzido pela classe trabalhadora, ergueu suas riquezas através da escravidão. O racismo serviu ao acúmulo de capital no passado, e ainda hoje beneficia a burguesia, que é herdeira dos senhores de escravos, e permite que esta aprofunde a exploração da classe trabalhadora. Ao pagar salários inferiores e rebaixar as condições de vida dos negros, a burguesia consegue dividir a nossa classe e, assim, rebaixar os salários e condições de vida do conjunto da classe trabalhadora.

Por isso, é impossível conquistar a igualdade entre homens e mulheres, negros e brancos, dentro do capitalismo, uma sociedade baseada na desigualdade e na exploração. Por isso nossa luta negra contra o racismo precisa ser também contra o capitalismo.

Os negros têm uma heroica história de luta, resistência e ousadia. Em todos os lugares do mundo onde existiram a escravidão e o racismo os negros lutaram e se rebelaram. Foram incontáveis as greves de fome, fugas, rebeliões, incêndios de plantios, assassinatos de feitores e senhores de engenho. Os quilombos são o símbolo mais forte dessa resistência, e Palmares ficou marcado no imaginário de todos os negros em nosso país. A identidade negra é forte e intolerável para a burguesia, pois carrega nas veias essa trajetória de insubordinação que ameaça o poder da classe dominante.

Para tentar apagar a força dessa história, no Brasil a burguesia desenvolveu nas primeiras décadas do século XX uma ideologia própria, a “democracia racial”, com o objetivo de negar que há racismo e perpetuar a sua dominação. Essa teoria é alimentada até hoje para tentar desarmar o potencial explosivo que a luta negra pode ter no país. É que, para temor da classe dominante, em todos os processos da luta de classes a energia do povo negro reprimida pelo cotidiano racista e a opressão se expressa de maneira muito mais intensa e mais viva. A identidade negra, que vem ganhando mais força a cada dia, se impõe de forma ainda mais forte nos momentos em que a dominação política da burguesia é posta em xeque.

Frente a isso, queremos erguer o nosso combate ao racismo a partir de uma posição de independência de classe; que lute para que os negros encontrem, através da unidade das fileiras operárias e dos métodos de luta da classe trabalhadora, apoio e impulso para liberar toda essa energia reprimida e direcioná-la contra a burguesia e todos os seus agentes. É com esse objetivo que construímos este Quilombo Vermelho. Do nosso lado está a moral daqueles que dedicaram suas vidas para que os negros conquistassem a liberdade, dos que se foram lutando contra todas as formas que toma essa barbárie que é o racismo; ao nosso lado estão também os ensinamentos de todos aqueles que lutaram pela transformação revolucionária da sociedade.


Foto: Sebastião Salgado, Eldorado dos Carajás

Escravidão, racismo e capitalismo

O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro. – Marx

A escravidão e o comércio de escravos foram fundamentais para o desenvolvimento do capitalismo. O sequestro, o trabalho forçado, as torturas, os estupros e castigos físicos nas fazendas da América possibilitaram a concentração de enormes somas de capital nas mãos dos comerciantes de escravos, da burguesia europeia e, assim, foram essenciais para o desenvolvimento do capitalismo. O racismo surge com a escravidão. É um fenômeno histórico, ou seja, não é algo que “sempre existiu” como parte da “natureza humana”. Foi uma ideologia criada a serviço de justificar a escravização dos povos africanos. Esta escravização se deu em uma escala nunca antes vista na história, que em primeiro lugar devastou a vida de milhões de indígenas, para logo depois encontrar na escravidão negra um negócio extremamente lucrativo. O racismo surgiu com o capitalismo e com ele merece morrer. Houve escravidão antes do racismo, mas a escravidão moderna, ligada a esse processo de desenvolvimento do capitalismo, foi um empreendimento econômico, cultural e político tremendo, que se baseava no racismo como forma de justificar a suposta inferioridade dos negros em relação aos brancos, baseando-a em aspectos físicos e culturais. As Américas precisavam de mão de obra em larga escala, e a mão de obra escrava se mostrou a mais lucrativa. Quem iria trabalhar para alguém se fosse livre para cultivar sua própria terra?

“O preconceito racial contra o negro surgiu para justificar e preservar o sistema de trabalho escravista que operava de acordos com os interesses do capitalismo em estágios pré-industriais e manteve-se ligeiramente modificado pelo capitalismo industrial após a escravidão tornar-se um obstáculo para o desenvolvimento posterior do capitalismo e ser abolida. Poucas coisas no mundo estão mais marcadas com as características do capitalismo.” George Breitman

O racismo e a escravidão permitiram à burguesia acumular capital e assim fortalecer os seus próprios interesses econômicos, políticos e sociais contra os interesses da nobreza e da monarquia que dominavam a sociedade durante o feudalismo europeu. A burguesia é racista desde seu surgimento. Assim, também, não é possível combater o racismo sem lutar contra o capitalismo, sem uma posição claramente anticapitalista, que defenda os interesses do conjunto dos trabalhadores e do povo pobre. Com essa perspectiva, cada luta contra o racismo fortalece a luta de todos os trabalhadores. E quanto mais fortes os trabalhadores estiverem, mais forças teremos para enfrentar o racismo.

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