Política

ANÁLISE | GRANDE MÍDIA

O que quer a grande mídia agora que ela se diz pró-democracia e antirracismo

Depois de as manifestações neste domingo balançarem o cenário nacional, em que os finais de semana tinham as ruas exclusivas para o Bolsonarismo, e foram pela segunda semana consecutiva, e agora com mais peso, ocupadas pelos manifestantes antirrascistas e antifascistas, é importante discutirmos que papel cumpre a grande mídia que se coloca como apoiadora das manifestações, quais seus interesses e quais suas intenções

terça-feira 9 de junho| Edição do dia

Diversos portais, das principais mídias do Brasil, como a Folha de S. Paulo, Estadão, entre outros, cobriram os atos com certo tom de legitimidade e sem ataques, o que mostra claramente o impacto da revolta negra nos EUA, que impacta no Brasil, e também ao redor do mundo inteiro.

Vivemos um momento curioso em que a grande mídia que até ontem se colocava no campo do golpismo, hoje expõe em matérias diversas das contradições racistas do capitalismo, como pouco ou nunca se via antes.

É assim no Brasil, mas também é na mídia internacional. Se olharmos por exemplo para a cobertura da mídia dos EUA frente ao levante negro por justiça para Floyd, vemos que grande parte dela assumiu uma posição de certa legitimação da revolta, apesar das amplas críticas a violência nos protestos, se mostrando favorável a “atos pacíficos”, por exemplo. Mas é latente que a mídia internacional está com os olhos voltados para a revolta antirrascista no mundo inteiro.

No entanto é importante nos questionarmos o que deixam de lado estas mídias brasileiras em sua cobertura dos atos deste domingo, e para onde conduzem sua posição de parte da oposição ao autoritarismo de Bolsonaro. Afinal falamos das grandes mídias, que até pouco tempo atrás estavam unificadas na ofensiva golpista desde 2016, e unificadas também na aprovação de ajustes e ataques contra a classe trabalhadora, como por exemplo a reforma da previdência, que foi a grande pauta dos principais jornais do país durante quase todo o ano de 2019, com uma defesa implacável da necessidade de avançar com os ajustes, cortes nos orçamentos públicos e ataques às condições de vida dos trabalhadores que vieram pelas mãos do golpista Temer, mas também os que vieram pelas mãos de Bolsonaro.

Vale pensar por exemplo o como é um ausente nas grandes mídias burguesas não só o ato da semana passada na Paulista dos entregadores de aplicativos, como também a presença forte e importante destes setores de trabalhadores precários nos atos deste domingo.

Ao redor do país era possível ver nas manifestações trabalhadores com as mochilas de Rappi, Glovo e outros aplicativos sendo parte das manifestações. Um setor que vem sendo um dos mais atingidos durante esta crise, como mostrou o próprio ato dos entregadores em SP, em que um PM diz para um dos trabalhadores que se a situação está ruim “que arrume outro emprego”.

Para onde a grande mídia tenta conduzir nosso ódio ao autoritarismo de Bolsonaro?

Já estamos falando de algumas semanas com a grande mídia assumindo uma posição bastante crítica a Bolsonaro, e se mantendo na localização de oposição ao governo. E agora, são parte, como dissemos, de também expressar em seus portais, a revolta negra ao redor do mundo.

Mas, frente a esse cenário, quando pensamos concretamente, para onde essa ampla cobertura e repúdio está conduzindo? Qual é o interesse da grande mídia enquanto parte da oposição ao autoritarismo de Bolsonaro?

Ao eliminar das suas coberturas os setores mais precários dos trabalhadores e da economia, assim como outros setores da classe trabalhadora, o papel que assume a grande mídia, é de desviar o olhar do verdadeiro sujeito capaz de enfrentar Bolsonaro e o racismo, para conseguir conduzi-lo aos objetivos mais institucionais da oposição a Bolsonaro.

Quem se beneficia disso são setores como FHC, Ciro Gomes, e Marina Silva, por exemplo, que estiveram domingo em um programa de entrevistas na Globo News. Por um outro ângulo, também entra nesse bolo, o ex-presidente Lula, que não assinou o manifesto “Juntos” (que conta com assinaturas de diversas figuras da política tradicional), e busca manter uma certa distância dessa política, com um discurso mais radical, mas que conta no fundo com um “jogo duplo” do PT, afinal Haddad assina o manifesto, essa confluência com a direita tradicional e golpista é, exatamente a política que as maiores centrais sindicais do país, incluindo a CUT dirigida pelo PT fez no primeiro de maio, montando um palanque com FHC e convidando até mesmo o super-reacionário Witzel. O PCdoB, já assume uma posição ainda mais aberta em busca de construção dessa ampla unidade entre a esquerda e setores burgueses, com Flávio Dino encabeçando essa atuação do partido e dizendo explicitamente que quer um governo Mourão, ou seja que para ele um general defensor da ditadura é o que devemos almejar a ter.

Este exemplo, num sentido é mais ilustrativo, mas ajuda a fundamentar o objetivo das grandes mídias em conduzir e “cooptar” o ódio à opressão racial e a Bolsonaro para o caminho da oposição que busca as vias institucionais de combate ao presidente.

Servir como uma ferramenta para ajudar as direções do movimento de massas, como o PT, por exemplo, que hoje busca e constrói essa amplíssima aliança entre esquerda, centro e direita, em nome de uma resposta que tenha como sujeito nossos carrascos de ontem e hoje, como é por exemplo o Congresso e o STF.

De fundo, o sentido é de impedir que vejamos o verdadeiro sujeito capaz de transformar esta realidade e também a sua via necessária. Falamos aqui da classe trabalhadora organizada, e da luta de classes. Afinal, o medo de mobilizações de massa, que fujam do controle, e que questionem mais do que apenas Bolsonaro e o racismo da PM é latente para estes setores. É o medo de que o questionamento da população se estenda para os militares, para as instituições que até ontem trabalhavam de braços dados em função do projeto golpista, e que este ódio popular se torne um questionamento da relação estrutural entre o racismo e o capitalismo, e a busca por alternativas não só anti-bolsonaro, mas anti-regime, que se oponham ao regime que vem se gestando desde o golpe de 2016 à base de destruição da condição de vida da classe trabalhadora, dos negros, e dos setores mais precarizados da sociedade.

É exatamente essa alternativa que hoje precisamos fortalecer. Uma que aposte na via da luta de classes, e da organização de nossa classe para se enfrentar contra Bolsonaro, mas não apostando em respostas que apontem para Mourão como presidente. Ou seja, entender o que significa arrancar Bolsonaro, mas deixar os militares, que vem se fortalecendo a cada dia. Isso quer dizer, se apoiar no ódio a Bolsonaro, mas não parar apenas no “Fora Bolsonaro”, e sim estendê-lo a um setor bastante importante quando falamos do combate ao autoritarismo. Por isso colocamos a necessidade de levantar o “Fora Bolsonaro e Mourão”, estendendo nosso ódio também aos generais, que comemoram como o vice-presidente, a Ditadura Militar como um “marco na democracia brasileira”.

Mas apontamos esse caminho com a necessidade de não depositarmos confiança em setores da oposição que, já colocamos, também são nossos carrascos, como os Governadores, o Congresso, e o autoritário STF. Queremos erguer nosso ódio a Bolsonaro também a Mourão, os militares e de forma independente de outros inimigos da classe trabalhadora. Depositamos nossas forças na população e na classe trabalhadora, batalhando por sua auto-organização em seus locais de trabalho, significa apontar para uma resposta não só anti-governo mas também anti-regime, que para nós significa a batalha por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, onde não mudemos apenas os jogadores, mas as regras deste jogo, que hoje servem para nos atacar e arrancar os direitos que a classe trabalhadora conquistou com luta. Essa é a alternativa que coloca não na mão de um punhado de políticos da direita, mas nos trabalhadores, o debate sobre os rumos do nosso país para enfrentar a pandemia, a crise economia e a crise política.

Afinal, as alternativas que unificam FHC, Ciro, Marina, e até figuras do PSOL, como Freixo, que abandonou sua candidatura no RJ, em nome de uma “missão altruísta” de busca de uma unidade dentre setores mais amplos, são as alternativas que não enxergam em momento algum a classe trabalhadora e o povo como o principal e necessário sujeito para enfrentar o autoritarismo de Bolsonaro e da corja militar.

É uma unidade entre os diversos partidos de oposição, mas que, na prática não inclui a classe trabalhadora, e muito menos a luta de classes.

Em tempos como este, de pandemia, em que as pessoas buscam fontes de informação e de dados da crise do coronavírus que sejam mais confiáveis, e distantes do campo bolsonarista das fake news, não podemos nos esquecer que papel prestam a grande mídia burguesa em desviar e conter as pontas mais radicais do ódio ao racismo e a Bolsonaro.




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