Política

ELEIÇÕES SOROCABA

O que propõe Raul Marcelo e o 1º de Maio em Sorocaba?

Disputando o segundo turno, a candidatura do PSOL tem feito opções que apontam caminhos perigosos para quem diz ser uma “nova alternativa”.

Chico Nery

Professor da rede pública de Campinas

Tatiane Lopes

Unicamp, Campinas

segunda-feira 17 de outubro| Edição do dia

Raul Marcelo, deputado estadual em SP, chega ao segundo turno na cidade de Sorocaba sendo a candidatura a prefeito do PSOL com mais chances de vencer. Raul é também integrante de uma tendência interna do PSOL, o grupo “1º de Maio”, mesmo coletivo que também fazem parte a vereadora recém-eleita na cidade de Campinas, Mariana Conti, e integrantes que estão hoje à frente da atual gestão do DCE da Unicamp.

Mesmo com poucos segundos de televisão, fruto de um sistema eleitoral que buscou após o golpe calar ainda mais a esquerda, Raul conseguiu canalizar a crise de representatividade política na cidade e alcançar o segundo turno, tendo agora tempo igual de televisão.

Se alguns traços de diálogo e discurso já estavam explícitos na internet ao longo de toda sua campanha, as opções que a candidatura assume na televisão nesse segundo turno se tornam mais evidentes, e devem ser refletidas pelo conjunto de ativistas de nosso país. Convidamos a militância do PSOL e da esquerda brasileira a assistirem os programas de Sorocaba para tirarem suas próprias conclusões. Afinal, o que está em jogo com Freixo no Rio, Edmilson em Belém e Raul em Sorocaba não é apenas o governo dessas 3 cidades, mas qual sentido irá apontar o processo de ruptura e superação (ou não) da crise do petismo.

Foi golpe, Raul?

O golpe institucional se desenvolveu durante todo o processo eleitoral. Após ele, assumiu o governo ilegítimo de Temer e veio o conjunto de pacotes de destruições sendo implementado nas últimas semanas. Nos chama muito a atenção, que em seu programa de televisão que dura 10 minutos nesse segundo turno, e disputando com Crespo do golpista DEM a prefeitura, que esse país em seu diálogo não tenha presidente (ilegítimo) ou governador. Dilma, Temer e Alckmin sequer são citados. Ainda mais grave que isso, é que durante todo o processo de desenvolvimento do golpe institucional e sua aprovação final no Senado, Raul não se posicione sobre o fato em sua página durante nenhum momento, sequer no dia da votação, sendo uma página com atualização profissional e de amplo alcance.

Nos parece um grave erro, de Raul e também de Mariana Conti, o silêncio sobre o golpe. E isso ocorre porque ambos acreditam que não existiu um golpe institucional em nosso país, mas apenas crise nas relações de poder entre o PT e os demais partidos. O silêncio é consciente, já que sabem que parte importante de seus eleitores não concordam com isso.

Se é verdade toda a responsabilidade que o PT teve nesse avanço da direita, fechar os olhos para o fato que foi ter ocorrido um golpe, desarma os trabalhadores e a juventude para encarar o tamanho do ataque que é a Reforma do Ensino Médio e a PEC241, que congelará o orçamento pra educação e pra saúde até 2036.

Sorocaba do desenvolvimento... capitalista?

O desemprego é um problema estrutural em nosso país, e não pode ser enfrentado por candidaturas de esquerda que não busquem apontar claramente para a população as origens desse problema. O PSOL apostar no caminho de que seria possível conciliar os interesses empresariais com os dos trabalhadores nesse cenário de crise econômica é um grave erro.

A dureza da aprovação da PEC241, assim como a preparação da reforma trabalhista e previdenciária, mostram claramente que os poderosos e os empresários preparam um grande arrocho contra as condições de vida dos trabalhadores nacionalmente, e somente propostas de ruptura podem apontar para outra perspectiva concreta.

Raul poderia cumprir um importante papel com propostas anticapitalistas no terreno econômico, defendendo a taxação das grandes fortunas da cidade, apontar pela municipalização de empresas que fecharem e demitirem, ou ainda fiscalizar os lucros e criar uma lei municipal que impeça as demissões na cidade. Sequer menciona a Lei de Responsabilidade Fiscal, que somente o enfrentamento com tal poderia aumentar o repasse para áreas fundamentais como a saúde e a educação.

Mas infelizmente o que vem marcando a candidatura de Raul é outra linguagem. É o prefeito “pró-ativo”, que defende um “amplo projeto de incentivos fiscais e atração de novos investimentos principalmente na área da tecnologia, para avançar na área de desenvolvimento de emprego e renda”. O programa econômico de Raul difere pouco de qualquer candidato liberal ou petista.

Ainda mais grave, Raul se adapta aos eleitores xenófobos, que seguramente existem com o desemprego. Chega a citar parcerias da atual prefeitura com o governo de Minas Gerais, e que o problema do desemprego será resolvido com capacitação profissional e com a Lei de Licitação para contratar investimento local. Longe de dizer que irá se enfrentar com os grandes empresários para defender o lado dos trabalhadores e do povo pobre, dos sorocabanos de nascimento e dos imigrantes, Raul e o 1º de Maio preferem optar por ser a candidatura que diz que “vamos usar os recursos para contratar com os empresários de Sorocaba, as startups de Sorocaba, os empreendedores de Sorocaba.”


Raul Marcelo e sua família no programa eleitoral exibido na TV

Quem são os aliados para transformar a cidade?

Repetindo o roteiro clássico dos candidatos da ordem, Raul agradece a Deus por estar no segundo turno e apresenta sua família. Esse script não mereceria nosso comentário se não fosse o grande tempo dedicado a ele: mostrar sua esposa, falar de seu tempo de casado e seus filhos para dialogar com o eleitorado mais conservador, em contraposição a ausência nos vídeos e nos diálogos dos setores oprimidos que não se enquadram na “família tradicional brasileira” ao longo de todo o programa. Também não há qualquer menção na propaganda de Raul à violência policial e ao racismo estrutural que, através do Estado, a mando de seus governantes e da polícia, genocida o futuro da juventude negra todos os dias. O problema da violência é tratado no vídeo como uma questão a ser resolvida dentro das famílias e afirma que a sua reprodução se deve porque as crianças têm pais violentos, em nenhum momento toca no problema central da desigualdade social, que marginaliza e criminaliza os pobres.

Ainda em busca de todo espectro do eleitorado, Raul diz também que é hora de “unir forças no segundo turno”, e após essa frase bastante dúbia, diz “você que votou em João Leandro(candidato do PSDB!) e está preocupado com a questão fiscal do município, saiba que essa também é minha preocupação”. O mesmo se repete com os candidatos Helio Godoy (PRB) e Glauber Piva (PT).

As opções que Raul e o PSOL vem fazendo em busca do eleitorado não apontam para um projeto de transformação social profundo em Sorocaba. Se é verdade que sua candidatura canaliza a crise de representatividade aberta na cidade, busca se apresentar como candidatura viável para assumir a “governabilidade” em aliança com os empresários, e não enquanto um prefeito que vem para deixar claro o seu lado no enfrentamento que nosso país tem aberto diante do golpe, do congelamento de gastos para a educação e para a saúde nos próximos 20 anos, ou em uma Reforma do Ensino Médio que vem para acabar com o futuro da educação pública. O impacto que isso poderá trazer para os rumos do PSOL em SP e no país seguem em abertos, e dependem do quanto sua eleição ou não irá avançar, assim como a efetivação real dessas medidas. Mas a trajetória do PT já deve nos ser um sério alerta para aprofundar essas reflexões de antemão.




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