Educação

EDUCAÇÃO PRECARIZADA

O que os erros do ENEM revelam sobre o projeto de Bolsonaro para a educação?

Os erros do ENEM, a militarização do ensino, as reformas econômicas revelam o projeto de Bolsonaro de reformulação da educação que implica a precarização da juventude.

quarta-feira 29 de janeiro| Edição do dia

Hoje: o governo anunciou a contratação de 540 militares para intervir na área pedagógica das escolas cívico-militares, podendo atuar em diversas funções sem a necessidade de especialização.

Semana passada: o discurso de um processo “impecável” de correção das provas do ENEM caiu por terra e transformou o sonho de muitos em um verdadeiro pesadelo. Aliás, erros que ainda assombram, com estudantes reclamando que não estão participando nem mesmo da lista de espera.

Fim de 2019: o governo avança em propostas de uma nova reforma trabalhista, o chamado “Trabalho Verde e Amarelo”, que reduz direitos como auxílio-doença, abre espaço para que todos trabalhem aos domingos e feriados e vai taxar até mesmo os desempregados, entre outros absurdos.

E o que isso tudo tem em comum?

A precarização cada vez maior da juventude pobre e negra, como resultado do golpe institucional que se aprofunda enquanto projeto do governo de extrema direita de Bolsonaro.

A imagem do jovem que trabalha jornadas infindáveis para aplicativos e sem nenhum direito assegurado agora não é só constante como crescente. 40 milhões de trabalhadores na informalidade. Sem contar os que não possuem trabalho algum.

Para atender os interesses capitalistas e, principalmente, da burguesia imperialista, a ampla maioria da juventude, especialmente pobre e negra, amarga nos trabalhos mais precários que se possa imaginar sem nenhuma perspectiva de futuro.

Reduzir a zero a perspectiva de futuro da juventude, sim, esse é o sentido geral da crise da educação que também se aprofunda como projeto do golpe institucional. O sonho de milhares de jovens da periferia não importa, afinal as universidades, como o antigo Ministro da Educação de Bolsonaro dizia, devem ser lugares reservados a uma “elite intelectual”. E, para além de ser imposto um filtro social elitista como os vestibulares, que impedem o acesso à educação gratuita, ainda se pune aqueles que ousam furar esse filtro. Lembremos ainda que quem assumiu o órgão do Inep no ano passado que cuida do ENEM foi justamente um general da reserva sem experiência nenhuma em avaliação educacional. É necessário e urgente lutar pelo fim de todo e qualquer tipo de vestibular e pela estatização das universidades privadas para acabar com os monopólios que lucram com a educação.

Ainda no ano passado, toda aquela encenação de comparar verbas para as universidades federais com chocolates não era apenas motivo de escárnio, tudo é pensado enquanto um projeto. As universidades federais abrigam uma maioria de estudantes negros e advindos de escola pública e são as mesmas que também rejeitaram o projeto Future-se do ministro Abraham Weintraub.

Não se aplica somente às universidades, pois a militarização escolar é uma medida clara que, em consonância com o Escola Sem Partido, vem pra perseguir os professores, reprimir os alunos, impedir debates sobre questões da vida cotidiana da juventude como gênero e sexualidade, racismo, política, etc, e também uma medida de elitização do ensino, haja vista que esses tipos de escolas também aderem a utilização de concursos para limitar e pincelar a entrada de alunos.

Enquanto isso, Bolsonaro ataca por um lado e por outro tenta fazer demagogia com os professores, anunciando aumento do piso salarial dos municípios quando o próprio MEC afirma, de acordo com levantamento realizado em 2016, que maioria dos municípios não pagam o valor correspondente ao piso salarial.

A precarização constante é um projeto de Estado que vai abrindo portas às privatizações, que na educação básica se manifesta retirando a expressão do pensamento crítico, aderindo a um sistema de ensino absurdamente tecnicista e moralista, garantindo a formação de mão de obra barata, criando todo esse caos na educação que no final se expressa no objetivo de, como diz o próprio governo, “flexibilizar” e “modernizar” as relações de trabalho. Em outras palavras, toda uma reformulação no projeto de Estado para a educação que no final leve à juventude ao abismo da precarização profunda da vida.

Mais uma vez é preciso destacar: o projeto internacional da burguesia imperialista frente à crise econômica mundial que se arrasta e não tem um mínimo de previsão para acabar é colocar à venda e com o preço cada vez mais barato os corpos da população para aumentar ainda mais os lucros exorbitantes dessa classe parasitária. E, como já dizia a poeta, a carne mais barata do mercado é a negra. A precarização tem rosto de mulher e principalmente negra. Os efeitos nefastos da exploração atingem em cheio a juventude preta, pobre e da periferia, que ocupam historicamente os piores postos de trabalho.

Esse é o cordão umbilical que liga toda a crise da educação, todos os ataques ideológicos do governo, com os ataques econômicos que por sua vez também se aprofundam, como reforma da previdência, reforma trabalhista e a reforma administrativa.




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