Opinião

TRIBUNA ABERTA

O que leva o Bope a fazer uma operação de 12h no conjunto de favelas da Maré?

sexta-feira 3 de novembro| Edição do dia

Ontem, 30 de Outubro, Caetano foi impedido de cantar na ocupação em São Paulo organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e se pronunciou dizendo "é a primeira vez que sou impedido de cantar no período democrático". Um claro ato de censura, imposta na atual onda conservadora que vivemos. Hoje, um dia depois da fala do Caetano, acontece uma operação no conjunto de favelas da Maré/RJ, com mais de 12h de duração (essa é a segunda operação com esse nível de duração, depois da invasão do exercito na Maré. A primeira foi no dia 19 de janeiro de 2017). Diferente do Caetano, essa é a milésima vez que sou impedido (leia-se também censurado) de viver, e infelizmente, quando leio os livros de história me deparo com a fatídica verdade que isso já vem acontecendo com os meus, há muitos anos antes da redemocratização.

Chega a ser doloroso quando comparo o muro invisível que divide o meu mundo do mundo do Caetano. Aqui, na minha parte da cidade, o Estado criou uma cooperação entre suas agências (que vem do judiciário até o gatilho do policial) para criação de uma verdadeira máquina de produzir cadáveres negros. De um lado, a lógica diária da polícia de exercer o seu poder de extermínio. Do outro, o judiciário legitimando, através da impunidade, a existência desse mesmo poder de extermínio. Sei que existe a real probabilidade do Caetano conseguir reverter o seu atual quadro de censura (importantíssimo para que ocorra o show em apoio ao MTST). Mas comigo, fico distante, às margens da possibilidade de poder reverter o meu atual quadro de não poder exercer o direito de viver, imposta pelo Estado desde que Brasil é Brasil.

O que fazer diante desse quadro? Sinceramente, eu não tenho essa resposta. Mas consigo pensar em quais parceiros posso articular para tentar obtê-la. Na minha mente o único grupo que vêm, é a esquerda. E com isso vem a minha segunda pergunta: aonde está boa parcela da esquerda nisso tudo, para nos ajudar a reverter essa situação? Boulos, liderança nacional do MTST, trás uma reflexão importante na entrevista que deu para o jornal GGN: " A esquerda tem que se mobilizar, tem que fazer a lição de casa que deixou de lado nos últimos vinte anos. A lição de casa que as Comunidades Eclesiais de Base nos ensinaram na década de 1970 e 1980, batendo de porta em porta" depois, continua dizendo " O que está colocado, para nós, é precisamente o desafio de pensar política além do processo eleitoral, da institucionalidade e das urnas." Essa fala aponta algumas preocupações importantes sobre a atual conjuntura da esquerda, onde parcela significativa está presa sobre os vícios das disputas das urnas, ora seja nos DCE’s ora seja nas eleições. Suas estratégias se limitaram, nos últimos anos, a não ter uma proposta para além dos espaços institucionais, e assim, perdeu o trabalho de base necessário para fortalecer as lutas populares, e reverter o quadro de estigmas sociais que vivo, por exemplo. Me vejo agora assim, em uma linha tênue entre me indignar com a censura do Caetano, e tentar não me indignar com uma esquerda que não se indigna com a minha censura na mesma proporção do Caetano. Dito isto, percebo agora que temos problemas mais complexos do que aparentam. De um lado um Estado usurpador de direitos, intensificado sob a luz do pós golpismo, do outro uma esquerda distante da realidade da grande maioria do povo. Assim, quando penso nas eleições de 2018, só consigo concluir o mesmo que o Guilherme Boulos: " antes de pensar numa alternativa eleitoral, e talvez independentemente de qualquer alternativa eleitoral, temos de pensar num fortalecimento da luta popular".

FOTO: REVISTA EXAME




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