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O que eu, jovem negro, vi e aprendi na USP

terça-feira 30 de janeiro| Edição do dia

Ontem, 29, saiu a primeira lista de aprovados na USP, essa que é a universidade mais concorrida do país e, por isso, a mais elitista e racista.

4 anos atrás eu entrava na USP, na época sem SISU ou cotas sociais e étnico-raciais. Entrei no curso de pedagogia e ali na Faculdade de Educação aprendi muita coisa sobre a USP, a educação brasileira e suas universidades.

Aprendi que a USP tem padrões de pesquisa invejáveis a nível internacional, lidera a maioria dos rankings nacionais e é responsável pela formação de milhares de pesquisadores, mas ao mesmo tempo que lidera os rankings, a USP mantém milhares de trabalhadores negros em trabalho semi-escravo nos seus bandejões e cargos de limpeza.

Aprendi que se hoje o Brasil tem alguns dos maiores monopólios de produção de cosméticos do mundo, e isso se deve em grande parte aos laboratórios de bioquímica da USP. Laboratórios que desenvolvem muitos dos melhores batons da Avon, Jequití e Natura, ao invés de pesquisar vacinas para a prevenção de doenças tropicais, por exemplo.

Aprendi que a Faculdade de Educação Física, a pedido da Nike e Adidas, realizando uma série de pesquisas bio-mecânicas de altíssimo custo, desenvolveu chuteiras sob medida e que ajudam no alto rendimento para o pé de craques da nossa seleção. Tudo isso ao mesmo tempo que a USP é a universidade do país com maior número de trabalhadores portadores de uma doença chamada LER (Lesão por Esforço Repetitivo), que é uma doença adquirida com a altíssima exploração do trabalho.

Aprendi que o Centro Esportivo da USP é um dos melhores do país, pois tem piscinas e quadras enormes, um espaço enorme para lazer, tem acadêmia e oferece até Yoga de graça para seus estudantes. Contudo, esse centro esportivo é, como já disse, só para sua maioria de estudantes brancos e de classe média alta, afinal é essa mesma USP que coloca dezenas de policiais em todos seus portões (sim, portões, pois a universidade é inteiramente cercada por um muro de 5 metros de altura) para enquadrar e esculachar garoto pobre e preto de 8 anos que ousa adentrar a universidade e jogar bola com os amigos nas suas praças também enormes.

Enfim, aprendi muitas coisas ruins sobre essa universidade. Sou dessa geração de jovens que aprenderam coisas bizarras sobre a maior universidade do país e por isso decidiram lutar incansavelmente pra mudar o caráter racista, elitista, produtivista e antidemocrático da Universidade de São Paulo. Sou dessa geração que fez greve, piquete e até ocupação pelas cotas étnico-raciais. E, apesar ainda da enorme insuficiência desse percentual de cotas (nada proporcional ao número de negros e indígenas do estado de SP), podemos dizer que conquistamos algo e que estamos longe de parar, justamente porque agora vai ter muito mais dos nossos para lutar com nós.

Pra terminar, uma última coisa que aprendi é: em muitos países - na verdade a maioria deles, não existe primeira lista de aprovados, nem segunda e nem terceira, pois não existe sequer vestibular. Na Argentina, por exemplo, você se forma no ensino médio e pode se matricular diretamente em algum ciclo básico da universidade que desejar. O vestibular é uma particularidade do Brasil porque a burguesia daqui, tão capenga e escravocrata que é, não foi capaz de garantir o acesso da população a um direito básico, o direito à educação superior pública.

Que os ingressantes que tão entrando agora na USP se somem ao movimento estudantil e à luta por mais cotas rumo ao fim do vestibular no Brasil!

Por ora, USP, você vai ter que nos engolir!
Os preto é chave! Abram os portões!

foto Christian von Ameln/Folhapress




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