Política

NACIONAL

O que esperar das eleições para presidente da Câmara e do Senado nessa sexta?

Nessa sexta-feira (1) as duas casas do poder legislativo vão eleger um novo presidente. Não apenas está em jogo os dois nomes na linha sucessória da presidência, após o presidente e o vice, como uma série de cargos, comando de comissões da casa e dinheiro, muito dinheiro.

quinta-feira 31 de janeiro| Edição do dia

Para ser mais exato, a eleição no Congresso disputa exatos 682 cargos que chegam ao salário de até R$ 20 mil - uma série de cargos onde, conhecendo Brasília, o critério geralmente utilizado para escolha dos representantes está mais em função de interesses escusos do que qualquer outra coisa. Para além disso, o comando de cada Casa do Congresso, seja a Câmara dos Deputados, seja o Senado, influem muito no jogo político nacional.

Nos últimos meses os deputados e senadores passaram um bom tempo para poder negociar a presidência e demais comissões. Ainda que os resultados estejam muito em aberto e surpresas podem vir, dois nomes surgem como mais cotados na grande mídia e nos bastidores da política nacional: Rodrigo Maia (DEM) para a presidência da Câmara e Renan Calheiros (MDB) para presidência do Senado. Parece que a notícia é de anos atrás e nada mudou, mas estamos em 2019 mesmo e boa parte dos caciques políticos de então se mantém com poderes grandes.

Na Câmara dos Deputados

Rodrigo Maia conseguiu organizar um amplo leque de apoio para sua candidatura, que vai do PSL de Bolsonaro até o PCdoB de Manuela D’Ávila, passando pelo PDT de Ciro Gomes, o PSDB de Aécio, PP, PTB, PSD, PPS, PRB, PR e outros. Com Maia na presidência, novamente, a perspectiva é um corredor aberto para a aprovação da reforma da previdência de Paulo Guedes e demais ataques neoliberais. Em encontro para empresários do setor químico no final do ano passado, o filho do ex-prefeito do Rio de Janeiro afirmou categoricamente: “nenhuma outra agenda vai tirar a reforma da Previdência de pauta”. Logo após o segundo turno, sentou com Paulo Guedes para negociar os termos da reforma.

No “bom e velho” estilo toma lá dá cá, o PSL aceitou apoiar Maia para a presidência (apesar de reiteradas críticas de seus quadros antes, durante e após as eleições) em troca do comando de duas comissões: a de Constituição e Justiça e a de Finanças e Tributação. O próprio presidente do PSL, Luciano Bivar, afirmou que Maia “se comprometeu a tratar de todas as agendas da campanha.”. Do outro lado do toma lá dá cá está o apoio do PCdoB ao atual presidente da câmara - segundo uma série de informações de bastidores, o apoio do PCdoB está em função de Maia engavetar o pedido de abertura da CPI da UNE. Não seria de se estranhar que alguns parlamentares petistas entrassem na toada de Rodrigo Maia junto dos demais golpistas e direitistas.

Do lado do PDT de Ciro Gomes, nenhuma surpresa em apoiar o golpista Maia tendo em vista que mais recentemente Ciro vem se postulando como conselheiro de Paulo Guedes para afinar os detalhes da reforma da previdência. Seu coordenador de campanha, Mauro Benevides, se reuniu com membros de alto escalão do governo Bolsonaro a fim de apresentar as suas próprias propostas para a reforma.

Nas últimas semanas, mesmo PDT veio sendo convocado pelo PT e pelo PSOL a conformar um “bloco de oposição” ao governo para disputar a presidência da câmara, chamado também apontado para o PCdoB, o PSB e a REDE. Marcelo Freixo inclusive colocou seu nome a debate a fim de materializar essa união. Nós do Esquerda Diário viemos há tempos questionando essa política de Frente Ampla com partidos burgueses que abertamente defendem a reforma da previdência e outros ataques em cima dos trabalhadores. Na contramão dessa busca por aliados burgueses que o PT e o PSOL vem tentando firmar, nós defendemos a política semelhante a dos parlamentares do PTS na Argentina que, dentro da Frente de Esquerda (FIT), depositam suas energias e suas posições parlamentares para impulsionar a luta no terreno da luta de classes. Ou seja, se utilizar do parlamento para fazer avançar a luta dos trabalhadores. Para barrar os ataques de Bolsonaro é mais do que necessário a constituição dessa forte mobilização.

No Senado

Enquanto isso, no Senado, ao que tudo indica o PT vai apoiar Renan Calheiros (MDB) para a presidência do Senado. Segundo a própria Gleisi Hoffmann, presidente do PT, o partido não tem restrições para apoiar Renan e “o Renan, nos momentos que foram cruciais de luta pelos direitos, se posicionou, como na questão da reforma da Previdência, na reforma trabalhista. Isso, para nós, é muito importante”. Já segundo informações do Estadão, o apoio do PT ao candidato do MDB está em função do controle do Conselho de Ética do Senado. Ou seja, mais uma vez o velho toma lá dá cá operando nas decisões. Em 2015 o PT apoiou o alagoano à presidência do Senado, que comandou, entre outras coisas, o impeachment de Dilma Rousseff (trabalhando arduamente pela sua deposição).

Contrário ao que afirmou Gleisi, Renan Calheiros já anunciou apoio à agenda neoliberal de Paulo Guedes e Bolsonaro. Em novembro do ano passado o emedebista se reuniu com Paulo Guedes, que saiu “elogiando-o”: “Renan é o melhor aluno de Sarney”, em referência à capacidade que Renan tem em dizer uma coisa durante as eleições, e fazer outra em pouco tempo. A contradição entre o apoio de Renan à agenda de Bolsonaro e a confiança de Gleisi Hoffmann em Renan barrar a reforma não é casual: não se trata nem de erro de comunicação, tampouco de confusão por parte de nenhum dos lados. É fruto da velha política eleitoral e parlamentar do PT. A aliança com golpistas ajudou a pavimentar a implementação do golpe e essa estratégia parlamentar é totalmente inofensiva para os planos de Bolsonaro. O que pode colocar em cheque a candidatura de Renan Calheiros é se aprova-se o voto aberto, ao invés do tradicional voto fechado onde nenhum dos senadores é obrigado a tornar pública a decisão de apoiar um oligarca de negócios escusos, como é Renan Calheiros.

Outra emedebista está na disputa também, Simone Tebet, que pouco fará de diferente do que o dinossauro de Alagoas promete. Do outro lado da disputa pelo Senado está o também golpista Tasso Jereissati (PSDB) angariando votos do PDT de Ciro Gomes, bem como o ultrarreacionário Major Olímpio (PSL) e Alvaro Dias (PODEMOS).

Apesar dos inúmeros detalhes e negociatas em jogo, a resistência real à agenda neoliberal draconiana do governo Bolsonaro não sairá do parlamento, tampouco conseguiremos avanços com manobras institucionais. Apenas a força independente dos trabalhadores e demais setores oprimidos da sociedade é capaz de fazer frente a esse sistema. Um parlamentarismo revolucionário deveria estar a serviço disso, de impulsionar a luta dos trabalhadores, e não reproduzindo o velho toma lá dá cá do petismo e seus aliados, reproduzindo a ilusão de que vamos avançar pelas vias institucionais. O Esquerda Diário está a serviço dessa luta.




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