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O que divide os professores da UFRJ?

terça-feira 25 de agosto de 2015| Edição do dia

Na última sexta-feira (21), em assembléia com quase 500 professores, os professores da UFRJ decidiram a saída da greve, por 255 votos a 218. A greve durava 60 dias, desde o dia 23 de junho. Quando a categoria havia decidido iniciar sua greve, estudantes e técnicos já completavam 25 dias parados.

Mesmo com os professores saindo de greve, a universidade segue paralisada porque técnico-administrativos e estudantes seguem em greve. O Reitor Roberto Leher já emitiu nota sobre o assunto, mantendo a suspensão dos atos acadêmicos segundo resolução tomada em Conselho Universitário, além de lembrar que com a greve dos técnicos, não haverá inscrições presenciais no SISU. Leia a nota aqui.

Professores que furaram greve decidiram a assembléia

Os números da votação mostram claramente a polarização na categoria dos professores: 255 à 218; em uma assembléia anterior no início de agosto, a votação havia sido 267 à favor da manutenção da greve contra 257 que pediam o retorno das atividades. A greve desta categoria, que havia sido marcada para iniciar junto com a dos técnico-administrativos em 28 de maio, foi prorrogada para 23 de junho justamente por pressão do setor de professores que se organiza contra a greve, seja escondendo ou manifestando abertamente sua defesa do governo Dilma.

O professor da UFF, Daniel Aarão Reis foi um dos expoentes deste “contra-movimento”, ao formular em carta pública lá no início das mobilizações, avisando que iria furar a greve porque, para ele, esta seria um instrumento de luta ineficaz, disfarçando seu consentimento e resignação aos cortes de Dilma na educação com a defesa de “paralisações e manifestações” em abstrato, e da boca para fora. Nada disso foi levado adiante por este setor, pelo contrário, uma parte considerável do setor “não sou a favor dos cortes na educação, mas não acho que a greve é uma ferramenta eficaz neste momento” teve como “manifestação” preferida furar a greve, encerrar o semestre e desaparecer da Universidade no que foi o seu “período de férias”.

Na matéria do Globo sobre o encerramento da greve na UFRJ, pode-se ler outra variação do mesmo argumento de Aarão Reis: “Fica parecendo que nós, contrários à greve, não queremos uma educação pública de qualidade. Se estamos contra, é por causa de outros pontos da pauta, mas não esses”, algo repetido por muitos dos professores contrários à que a greve se iniciasse.

Fim de ciclo na ordem universitária lulista

Muitos destes professores usaram como argumento contrário a entrar em greve, na tentativa de “amenizar” os cortes de 13 bilhões do governo Dilma, o fato de que “no tempo do FHC, a universidade pública era muito pior”. Uma visão que parece anacrônica, e é, mas que conta com o reforço das ilusões do “gradualismo lulista” do período anterior, ou seja, de que gradualmente o ensino superior seria democratizado, propagada durante os últimos 12 anos de governo do PT.

Se é realidade que nos últimos 12 anos houve uma expansão tímida, isso só aconteceu ao mesmo tempo em que bilhões foram repassados aos monopólios privados da educação. Neste período surgiu no Brasil o segundo maior monopólio de educação no mundo, com a fusão Kroton-Anhanguera.

Neste período anterior, o PT soube forjar uma ligação quase umbilical com a categoria docente das federais, que é a mais privilegiada dentro da universidade pública porque além de ganhar mais, tem maior poder não só na sala de aula, mas na universidade como um todo, já que tem garantido 70% dos votos em todas as estruturas burocráticas de decisão. Por isto, a categoria que detém o monopólio institucional do conhecimento é a última a conhecer na prática o resultado de, só neste ano e de uma vez, os cortes terem ultrapassado o valor integral do que foi investido pelo PT com o REUNI.

Desta forma, na categoria existe um setor acomodado que atua primeiramente para que a greve nas federais não seja mais um fator para o desgaste político crescente que Dilma está sofrendo desde que assumiu o mandato da “Pátria Educadora”. O fato de não sentirem na pele o peso dos cortes lhes dá mais tranqüilidade para adotar uma postura corporativista de esperar o ajuste fiscal “passar” para que a Universidade possa voltar a funcionar normalmente depois, mesmo que isto signifique virar as costas inclusive para colegas da própria categoria, como os professores contratados que tem uma situação mais precarizada, ou na para a falta de estrutura para dar aulas em certos institutos, como enfrentam os professores de Dança que nem sala de aula tem, ou dos cursos novos do REUNI que funcionam em containers.

Completando o seu movimento histórico, na impossibilidade da ilusão propagada pelo gradualismo lulista, de que seria possível conciliar a democratização da universidade com a subordinação de sua produção de conhecimento ao interesses das empresas privadas, a “turma” de Arãao Reis fez coro para Janine Ribeiro, ao se apoiar na direita “histórica” da categoria dentro da UFRJ, em sua maior parte professores da escola politécnica, um setor estratégico da universidade porque é aonde há pesquisa e produção para empresas privadas, para tentar impor esta resignação com os cortes goela abaixo daqueles professores, que muito pelo contrário, decidiram fazer greve e se mantiveram durante 60 dias ao lado dos técnico-administrativos e dos estudantes.




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