Internacional

"OPERAÇÃO LIBERDADE" DA DIREITA VENEZUELANA

O que deixou a jornada golpista na Venezuela?

Os principais feitos de uma jornada golpista que seguirá à ver que contornos pode ter nas ruas neste primeiro de maio

Isabel Infanta

@isabel_infanta

quarta-feira 1º de maio| Edição do dia

Sob os primeiros raios do amanhecer, um golpe de estado confuso liderado pelo autoproclamado presidente em exercício, Juan Guaidó, se tornou público.

Através das redes sociais o líder da direita venezuelana convocou a população para sair às ruas e as forças armadas a dar um golpe de estado.

Ao lado de Guaidó e de um grupo de militares, estava a principal figura da oposição de ultra-direita, Leopoldo López, que foi libertado de sua prisão domiciliar por um grupo de militares que reconhecem a autoridade de Guaidó, que lhe concedeu um indulto da pena de quase 14 anos, que cumpria desde 2014.

O novo chamado golpista de Guaidó foi apoiado rapidamente pelo senador republicano estadunidense Marco Rubio e a direita regional com a Colômbia e Argentina à cabeça. Também o Secretario Geral da OEA, Luis Almagro, fez o mesmo.

A Casa Branca, talvez com um pouco mais de demora que em outras ocasiões, saiu em apoio a essa nova aventura, com o secretário de Estado Jonh Bolton e o assessor de Segurança Nacional Mike Pompeo à frente. “A Operação Liberdade está em marcha na Venezuela e o mundo está de olho. A segurança de Juan Guaidó deve ser garantida. O povo venezuelano está demandando uma mudança, uma transição democrática e pacífica e o retorno da prosperidade. Já é hora do regime ilegítimo se retirar de cena, tuitava o secretario de Estado Mike Pompeo no meio do dia.

O desenrolar dos acontecimentos foi muito confuso e, por alguns momentos, foi difícil distinguir as noticias e as fake News. As mensagens tuitadas a partir da Casa Branca estimulavam essa confusão.

“Estivemos pendentes ao longo do dia; faz muito tempo que ninguém vê Maduro”, dizia Mike Pompeo a um jornalista da CNN. “Tinha um avião na pista, estava pronto para partir essa manhã, esse foi nosso entendimento, e os russos indicaram que era para ele ficar”, afirmou o funcionário, pontuando que o destino seria Cuba. Relembrou, além disso, que o presidente Trump “deixou muito claro que mantêm todas as opções sobre a mesa, incluindo a opção militar”.

O presidente Donald Trump por sua vez, reforçou a “hipótese cubana” com fortes ameaças contra a ilha. “Se as tropas e militares cubanos não cessarem imediatamente as operações de militares e de outros tipos, com objetivo de provocar a morte e a destruição de Constituição da Venezuela, vai ser imposto a ilha de Cuba um embargo total e completo, junto a sanções do nível mais alto”, dizia Trump.

A operação de incluir Cuba como sócia do regime de Maduro, no que é chamado pela direita de “usurpação” da presidência, busca legitimar a tentativa de golpe de estado na sua base mais direitista.

O governo cubano contestou. O presidente de Cuba Miguel Díaz-Canel Bermúdez rechaçou energicamente as ameaças de Trump e negou a existência de operações militares ou tropas cubanas na Venezuela.

Umas das chaves da jornada, inscrita no vídeo matutino de Guaidó, estava na possível troca de lealdade de setores das Forças Armadas venezuelanas. Falando da base militar La Carlota, acompanhado por um punhado de militares, Guaidó disse que “São muitos os militares... a todos os que nos escutam: esse é o momento, o momento é agora... Vamos recuperar a democracia e a liberdade na Venezuela”.

Durante a manhã foram vistas imagens de Leopoldo Loéz junto de alguns militares com faixas azuis nos brações, que marcavam sua lealdade com o golpismo, apetrechados preparando metralhadoras em uma ponte de Altamira, onde eram noticiadas algumas ações de repressão governamental com bombas de gás lacrimogêneo.

A partir da Casa Branca, Bolton estimulava diretamente o golpe, compelindo a população civil e militar a pressionar três altos funcionários do governo, que segundo ele estavam de acordo com Guaidó, em que era necessário tirar Maduro: o ministro de Defesa, Vladimir Padrino, o presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno, e o comandante da Guarda presidencial Rafael Hernández Dala. Mais cedo Bolton tinha dito que esses três funcionários estavam negociando faz meses com a oposição e que durante a tarde ou a noite estariam tomando ações para passar setores das forças armadas para o bando golpista.

A medida em que a jornada se desenvolvia, ficava evidente que a convocatória a população feita por Guaidó não teve uma resposta contundente. A mobilização que acompanhou Guaidó não foi suficiente para chegar até Miraflores. Tampouco foram suficientes as ações de ruptura dos três altos funcionários. Porém, o elemento que imprimiu um grande elemento de intriga à jornada foi o silêncio de Maduro. Não somente seu paradeiro era desconhecido, como também a única mensagem de repercussão foi um tuite que apregoava “nervos de aço”.

Pela tarde Jonh Bolton teve que reconhecer, ainda que em forma de ameaça, que a aposta na ruptura das Forças Armadas pelas mãos de Padrino, Moreno e Hernández Dala não estava ocorrendo: “Nós, e o mundo, os tornaremos responsáveis pelos venezuelanos que se feriram hoje”, sentenciou.

Os sinais de que a intentona golpista não se ajustava ao plano eram evidentes. O governo Bolsonaro dava conta desses limites pela boca do general Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que afirmou que o anuncio de Guaidó “foi colocado depois na dimensão correta, ou seja, tinha um certo apoio das Forças Armadas, porém não chegava aos altos escalões, ficava no escalão mais baixo”. Segundo a imprensa brasileira, o ministro agregava quer o Brasil não visualiza uma “solução à curto prazo”.

Leopoldo López, por sua vez, teve uma jornada verdadeiramente “maratônica”. Começou no estrelato com a liberação da prisão domiciliar, o que foi evidenciado no vídeo com Guaidó, esteve várias horas na ponte em Altamira e na manifestação com Guaidó, se refugiou primeiro na embaixada do Chile e terminou se refugiando na embaixada da Espanha.

Quem passou a ter seu paradeiro desconhecido foi Juan Guaidó, que terminou a jornada convocando uma mobilização para esse 1 de maio, como continuidade da Operação Liberdade.

Só no final da jornada Nicolás Maduro apareceu. Com tom triunfante falou do “fracasso da escaramuça golpista”. Argumentou que 80% dos militares e policiais que tinham sido convocados na ação matutina de Guaidó foram convocados sob engano e apresentou um vídeo no qual um grupo de jovens militares explicavam esses feitos, nos quais segundo eles, teriam sido ameaçados pelos chefes do complot. Sobre os outros 20% disse que “Já vão ver o destino que têm os traidores.”

Evidentemente negou as versões de que estaria para subir num avião e que os russos lhe impediram e acusou os golpistas de violentos que “responderam as bombas de gás lacrimogêneo com armas de fogo”. Maduro também chamou à mobilizar no Dia do Trabalhador.

O certo é que, dos prováveis objetivos da direita venezuelana nessa nova aventura golpista, a única coisa que lograram foi a liberdade do seu principal líder, Leopoldo López, que há que ver como poderá ajudar nessa tentativa de golpe dirigida pelos EUA, no qual a figura de Juan Guaidó já se encontra muito desgastada.
E ainda que o resultado por hora favoreça a continuidade do governo Maduro, o ator que realmente sai fortalecido são as Forças Armadas, que são o pilar do regime. Mostra disso foi a forte presença da sua cúpula na transmissão do presidente no começo da noite dessa sexta.

Desde 23 de janeiro o imperialismo não economizou chamados, manobras e ameaças para tentar quebrar as forças armadas e fazer com que derrubem Maduro. Depois de fracassadas suas tentativas e que a ofensiva golpista tenha entrado em um impasse, se concentraram na agressão e na asfixia econômica, que aprofundam as penúrias do povo, ainda que o golpismo não deixe de estar latente, e se renovou com a tentativa dessa terça.

Como diz a declaração da Liga de Trabalhadores pelo Socialismo, organização da Fração Trotskista que impulsiona “La Izquierda Diario” na Venezuela, “Aqueles que enfrentamos ao governo de Maduro e suas políticas devemos nos opor com toda firmeza a essa avançada recolonizadora do imperialismo, cujo instrumento é Guaidó. O governo Maduro, no entanto, não toma nenhuma medida anti-imperialista verdadeira, se limita a se colocar embaixo das asas de potencias como Rússia ou China enquanto se defende do golpismo com métodos burocrático-militares, que também golpeiam o povo e não fazem mais que fortalecer às Forças Armadas como o verdadeiro árbitro da situação. Por isso não depositamos nenhuma confiança nessas Forças Armadas que podem acabar negociando uma saída pactuada com a direita. A luta contra o golpismo e o imperialismo deve ser com total independência política, com uma política própria dos trabalhadores na perspectiva de fortalecer também a luta contra a miséria a que somos submetidos e contra o autoritarismo do governo.”




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