Internacional

COREIA DO NORTE E DO SUL

O que deixou a cúpulas das Coreias?

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

domingo 29 de abril| Edição do dia

Foto * Efe

A reunião distendida entre o presidente norte-coreano Kim Jong-un e seu par da Coréia do Sul, Moon Jae-in, foi um evento cuidadosamente coreografado, incluindo uma transgressão de ambos os líderes à linha de demarcação militar, o célebre Paralelo 38, que separa as duas Coréias. Kim, o “pequeno rocket-man” (Trump dixit) adquiriu estatura de estadista e se transformou no primeiro líder do Norte em pisar em solo sul-coreano nos últimos 65 anos.

Como resultado desta reunião, foi assinada a declaração de Panmunjon, pela cidade fronteiriça onde se realizou. Este sucinto texto de apenas três páginas, é uma declaração de boas intenções sobre temas fundamentais: a relação intercoreana onde estão compreendidas as complexas relações de famílias divididas em ambos os lados da fronteira; a diminuição de hostilidades e tensões militares, que chegaria até na proposta de um tratado de paz que ponha fim à guerra suspendida pelo armistício de 1953; e por último, um compromisso geral em torno à desnuclearização da península, ainda que sem estabelecer nenhum esquema concreto nem prazos.

Por agora, dos três temas o mais avançado é o primeiro. A intenção de cooperação se materializará na abertura de uma oficina em Kaesong, ao norte da linha de demarcação. Dado que não existe nenhum canal diplomático nem de comunicação que não seja o “telefone vermelho”, este não seria um gesto menor. O lugar também não é casual. Entre 2004 e 2016 funcionou, em Kaesong, o complexo industrial intercoreano, um símbolo da política de “reconciliação”, conhecida como “Sunshine”, que unia o capital sul-coreano com a força de trabalho barata e esfomeada do Norte. O fechamento deste complexo foi parte do incremento das tensões entre as duas Coréias atiçadas pela linha dura dos Estados Unidos, que pressionam o regime norte-coreano estando de olho na China.

Aqueles que leem entre linhas, arriscam a hipótese de que por trás da regularização das relações formais entre ambos os países, estaria a intenção de uma reunificação da península ou, como diz a declaração, que os coreanos “determinem o destino da nação coreana segundo seu próprio acordo”, em alusão à intervenção de potências estrangeiras como responsáveis pela divisão entre as duas nações que dependem de outros para sua segurança e portanto entram no cálculo geopolítico alheio. Mas se bem a iniciativa diplomática de Seul e Pyongyang surpreendeu a Casa Branca que estava em modo de guerra, este grau de independência parece exagerado. Moon se assegurou que tudo o que pusesse escrito contaria com o aval tácito de Washington, o que foi facilmente comprovado seguindo os tweets de Trump. E Kim provavelmente tinha recebido indicações de Xi Jinping quando visitou Pequim, há algumas semanas atrás.

No curto prazo, o significado imediato desta reunião intercoreana parece ser aumentar as probabilidades do encontro entre Trump e Kim. A viagem semi-clandestina de Mike Pompeo à Coréia do Norte, quando ainda era chefe da CIA, é outro forte indício de que os Estados Unidos assumirão essa arriscada aposta diplomática.

As reações internacionais foram positivas. A imprensa oficial chinesa definiu como um momento histórico. Para não perder o costume, Trump seguiu a reunião por Twitter, utilizando as maiúsculas para enfatizar seu entusiasmo. A mesma coisa foi feita pelo governo do Japão, ainda que o giro “diplomático” de Trump complicou o primeiro ministro Abe, já que em sintonia com o clima de guerra, estava avançando com sua própria política de remilitarização.

Neste primeiro momento primam as miragens e todos podem se declarar vitoriosos.
O que por agora parece ter mais se beneficiado é Kim Jong-un. Entre seus objetivos prioritários está a sobrevivência de seu regime e negociar como um estado nuclear. Em sua estratégia não lhe foi tão mal. No imediato, posando de pacifista, tirou a legitimidade a qualquer tentativa militar de mudança de regime por parte dos Estados Unidos. Insuspeito de destreza diplomática, surpreendeu a todos. Conseguiu entrar na liga dos grandes à força de ensaios nucleares e mísseis de longo alcance. Este foi seu passaporte para se sentar com Xi Jinping apesar da hostilidade que lhe manifesta o presidente chinês. E agora espera Trump em um território neutro, mas mais perto da Coréia do Norte, o que o coloca em pé de igualdade com o presidente norte-americano, falando por si mesmo da decadência da liderança dos Estados Unidos.

O outro que se apresenta ganhador é Moon Jae-in que, com seu gesto diplomático, mostrou uma certa vontade de independência com respeito a seu sócio maior depois de ter fracassado na tentativa de ser consultado por Trump antes de tomar alguma decisão sobre o conflito na península. A política belicosa dos Estados Unidos em relação ao regime norte-coreano, com o Pentágono já calculando as porcentagens de probabilidades de uma guerra, como se tratasse da chuva, tinha colocado Seul na mira dos mísseis norte-coreanos. Qualquer escalada militar, inclusive acidental, tinha como primeiro campo de batalha a capital do Sul. Isso permitiu a Moon recuperar parte da popularidade perdida por ter se submetido rapidamente a Washington e aceitar o escudo de defesa anti-mísseis, depois de ter ganhado as eleições com um programa de centro-esquerda e a promessa de reconciliação com o Norte. A rua o recompensou com manifestações de apoio a sua política de diálogo.

Como era de se esperar, Trump atribui o êxito como resultado de sua política de combinar a ameaça militar com o endurecimento das sanções econômicas contra Pyongyang, e sobretudo, de pressionar a China para que coloque em caixa seu aliado díscolo. Ainda que não seja suficientemente convincente para apagar a marca aventureira de sua política exterior. Fiel a seu estilo, já está comemorando antes do tempo.

O governo chinês também se vê como o artífice de ter feito a política belicosa dos Estados Unidos retroceder e de ter moderado Kim, pelo menos parcialmente, ao se somar à ronda de sanções impostas pelas Nações Unidas que afetaram seriamente a economia da Coréia do Norte, que depende em 90% da China. As tensões deste vínculo, que remonta à guerra da Coréia de 1951, quando a China combateu do lado do Norte, são bastante transparentes: o regime norte-coreano é um aliado incômodo para a China, que parece ter adquirido a arte de manipular a seu favor os temores da burocracia de Pequim. Mais além das diferenças com a política de Kim, à hora da política, Xi Jinping segue priorizando a estabilidade em suas fronteiras, e na balança segue pesando seu valor estratégico como estado de tampa. Por agora segue funcionando a mútua conveniência. Kim chegou à cúpula com a Coréia do Sul e eventualmente com Estados Unidos mostrando que a China lhe cobre as costas. E Pequim mostra sua vontade de influir.

É impossível não ver a marca chinesa na proposta de desnuclearização geral da península, o que implicaria clara e simplesmente a retirada do armamento e das tropas norte-americanas na Coréia do Sul, ainda que desde já isto não aparece sugerido na declaração de Panmunjon. Para a China significaria se liberar da ameaça mais concreta da intervenção dos Estados Unidos, que busca frear seu avanço na região, e levar para mais perto de sua órbita a península coreana.

Neste complexo xadrez, onde há mais de dois jogadores, mais que antecipar movimentos, o aconselhável é abrir cenários alternativos em função de objetivos máximos, intermédios e mínimos que perseguem os atores.

Desde que assumiu a presidência da Coréia do Norte, Kim adotou uma política dupla, conhecida como byungin, para a sobrevivência do regime e dos privilégios da elite burocrático-militar: avançar no desenvolvimento do armamento nuclear e introduzir reformas econômicas que afastem o fantasma da fome dos ’90. No último pleno do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores, a instituição fundamental em que se apoia Kim para contra-arrestar o condicionamento do aparato militar, o líder norte-coreano proclamou o triunfo desta política quanto ao armamento nuclear e anunciou que agora a prioridade seria a “reconstrução socialista” (sic) da economia. A escassa informação que sai à luz indica que com Kim se acelerou a introdução de reformas que favorecem a elite que compõe a burocracia estatal e militar, com um boom em construções na capital e certas facilidades para o acesso ao consumo. Esta política se viu ameaçada pelas sanções, e estrategicamente limitada por sua dependência exclusiva da China. O cenário mais provável é que Kim use a carta da negociação para obter concessões, como fizeram seu avô e seu pai, sem renunciar a suas ambições nucleares.

Trump se entusiasma com a possibilidade de que sejam os Estados Unidos sob seu governo o que dite os términos não só de um eventual acordo com a Coréia do Norte, mas também de uma possível reaproximação com o Sul. Com a vantagem de que em uma relação bilateral os compromissos são ainda mais leves. Os Estados Unidos já se retiraram de acordos com o regime norte-coreano. Sem ir mais longe, George W. Bush não só suspendeu toda assistência econômica, mas também colocou a Coréia do Norte como parte do “eixo do mal”. A contradição que Trump enfrenta é que se a cúpula termina em um fracasso, lhe sobrariam poucas opções além de escalar.

Tradução: Lara Zaramella




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