Política

ANÁLISE

O que a vitória do DEM na Câmara mostra da conjuntura política?

A vitória de Rodrigo Maia do DEM na disputa da presidência da Câmara de Deputados marca um fortalecimento de forças privatistas e neoliberais no parlamento. O que isto aponta sobre as tendências no governo Temer e na crise política nacional?

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quinta-feira 14 de julho de 2016| Edição do dia

Depois de 13 anos sem assumir a presidência da Câmara, um deputado do DEM retorna ao posto em que o antigo PFL desfilou por longos anos durante os governos Itamar e FHC. O golpista e privatista Rodrigo Maia saiu vitorioso com votos do PSDB e também do PT e PcdoB, derrotando o candidato apoiado por Eduardo Cunha e boa parte do “centrão”, a quem o DEM sempre se associou. Este resultado cheio de novidades é um “prato cheio” para entender mudanças na conjuntura política e o que elas apontam sobre o governo Temer, a crise política e seus agentes.

Com mãozinha de Lula e do PT golpistas vão galgando posições

Os primeiros dias de Temer começaram turbulentos: sob críticas da mídia e empresários por não desferir os ataques que prometeu (e ainda não cumpriu), enfrentando repetidas porém dispersas mobilizações populares, com a queda de 4 ministros por corrupção, entre outras mostras de debilidade. Porém, o governo golpista conseguiu se aguentar e está gozando de uma relativa estabilidade.

Lula que aconselhava a CUT a não incendiar o país e agora fala que ao invés de gritar fora Temer é preciso mandar zapzap aos senadores é diretamente responsável por isso. Um dos cenários que se vislumbrava no começo turbulento era a queda de Temer por ação das massas. O PT contribuiu para que isso fosse descartado. As fontes de instabilidade, agora advém somente de outro lado que não o dos sindicatos. Partindo desse ponto forte os golpistas partem para vôos mais altos. O pequeno DEM torna-se grande novamente. O famoso racista Bornhausen do DEM volta a erguer sua voz contra Lula. Vitoriosos tripudiam, quem os votou à presidência.

Os neoliberais, de principato e glamour à la tucanato paulista, junto aos neoliberais filhos da oligarquia, do carlismo bahiano, e seus primos de outras oligarquias nordestinas, cariocas e catarinenses do DEM agradecem essa posição conquistada, e mais ainda os votos “contra o mal maior” que o PT e o PCdoB deram a Rodrigo Maia.

Em que pese os terríveis níveis de aprovação popular comparáveis somente aos de Dilma, em que pese as ameaças de Moro (como as que ele fez hoje nos EUA), Temer e uma ala mais neoliberal do golpismo estão conseguindo manter-se de pé e fincar posições, nem que seja por um breve período até que surjam novidades nos seus fronts mais débeis: o judiciário e a evolução da economia internacional. Enquanto isso não se deteriora, fortificam-se.

Temer e golpismo neoliberal com posições fortes

O golpe foi dado por uma frente que envolvia a grande mídia, o judiciário em suas mais diversas alas, o PMDB em suas mais diversas alas e caciques (com uma ou outra exceção, mas algo bem tolerável ao consórcio de mercenários, tanto que Picciani que “lutou” contra o impeachment é ministro), a plêiade de pequenos partidos burgueses do Congresso, o PSDB, o DEM e muitos empresários, os mais notórios sendo as federações industriais da FIESP e FIRJAN e a CNA da agricultura, mas chegavam até o Habib’s que quis associar (por ideologia ou marketing) suas esfias à coxinhada de classe média acomodada que era tropa terrestre do golpe. Está frente está se desfazendo, a pluralidade de interesses e jogadas política coloca volta e meia uma ala em choque com outra.

O judiciário bate cabeça entre suas distintas alas, e é fonte de instabilidade quando resolve agir. No parlamento, pela primeira vez desde o golpe o vozerio do sem fim de pequenos partidos e mercenários de plantão foi silenciado por outra ala do golpismo, os mais neoliberais declarados do PSDB e DEM (com ajuda decisiva do PT e PCdoB, vale insistir).

Na esplanada dos ministérios e na pena dos jornalistas de todos grandes meios, gozam de alta reputação os mais neoliberais ministros: Meirelles e Serra, o também tucano e repressor Alexandre de Moraes, e o responsável pelo plano de privatizações, o PMDBista Moreira Franco, parente da esposa do novo presidente da Câmara.

Oferecer caras neoliberais e de tradição como Serra e Maia dá uma cara de estabilidade ao governo golpista, busca tornar vendável o novo produto que os brasileiros ainda não engoliram (só 13% aprovam Temer). Arma-se um discurso nos meios enfatizando uma ideia que poderíamos traduzir no seguinte mantra: “os tempos de Dilma e Cunha ficaram para trás, uma salva de vivas ao novo reino de Temer, Meirelles, Serra, e Maia, que conduzirá o Brasil à terra da abundância e do fim da corrupção.” Nem Sérgio Moro, cai nisso, eis seu recado em terra de Tio Sam hoje.

Temer fortalecido na Câmara, maior facilidade para os ataques e “centrão” com preços no desconto

Esta vitória dá maior calmaria a Temer. Negociar com o DEM, apoiado pelo PSDB e PSB, partidos mais centralizados que a plêiade que se organizou por trás de Rosso (PSD) com apoio de Cunha é mais fácil. Os cargos, verbas e outros negócios podem ser negociados no atacado e não no varejo. O centrão, para oferecer seus serviços terá que rebaixar seus preços. Possivelmente isso leve até mesmo até a alguma mudança de ministérios, mas sobretudo dá uma mostra de correlação de forças entre os golpistas enquanto todos esperam a real “medição”, as urnas em outubro.

Para Temer ter um golpista e neoliberal à cabeça da Câmara permite vislumbrar maior facilidade para que coloque em votação, quando quiser, os ataques a aposentadoria e outros que tem planejados. A mídia e o PSDB já saíram aos ventos defendendo que uma prioridade de Maia deveria ser implementar uma reforma política que reduzisse o número de partidos. Com a desculpa de atacar a corrupção, seu resultado real seria dificultar ainda mais a expressão dos trabalhadores e da esquerda, mas não a corrupção e fisiologismo pois o máximo que resultaria seria alguns caciques de pequenos partidos buscarem abrigos nas grandes federações de caciques o PMDB, PP e DEM, não à toa todos eles base histórica do “centrão” e partidos oriundos do regime militar.

Maia disse em reunião com Aécio concordar com essa prioridade, mas não parece ser um cálculo político razoável até outubro, pois poderia desgastar o DEM com seus aliados em centenas de prefeituras, mas serve de ameaça para que os “nanicos” deem um desconto ainda maior em seus preços.

Das cinzas no lulismo, renasce a fênix da oligarquia e neoliberalismo, o DEM

Experts em malandragem política os parlamentares do DEM são vários deles oriundos da ditadura. Ou são filhos de eminências daquele regime. Na crise da ditadura romperam com a ARENA para formar uma “direita moderna” que apoiasse a democracia. Deixaram ao PP de Maluf o título de continuidade. Junto ao PMDB formaram o “centrão” na Constituinte para conter suas votações, garantir a tutela dos militares e que os interesses da burguesia não fossem afetados. A Collor brindaram todo apoio, e souberam noblesse oblige votar seu impeachment, assumiram posições com Itamar e FHC. Com Lula recusaram-se. Foram à guerra.

Eram os paladinos da moral, até o judiciário cortar as asas de seu herói o senador e procurador da república Demóstenes Torres, e lhe meter em cana junto ao cassado governador Arruda, em esquema de corrupção conhecido como “mensalão do DEM”.

Neste esquema houve comprovado envio de dinheiro a Rodrigo Maia, a quem o judiciário não tocou, coisa que pode mudar nos jogos de poder que a toga promove.
Na guerra contra o lulismo sofreram numerosos danos. De suas fileiras mercenárias Lula soube criar um partido, o PSD de Kassab e com ele levar quase metade da bancada para junto do PMDB, PRB, PR, PP fazer do velho “centrão” sua base aliada.

O DEM virou um partido pequeno. Com o golpe renasce. Já controlava o importante ministério da educação e agora tem a presidência da Câmara. Maia é o novo sucessor de Temer caso este caia.

Nos anos de FHC e quando Demóstenes Torres era o queridinho da Veja (tanto quanto Moro hoje em dia) o DEM mostrava seus dentes a seus irmãos neoliberais do PSDB. O renascimento do partido de ACM, Bornhausen e Maia é um gol a favor do neoliberalismo mas também um outro para competição entre quem será o capitão dos interesses americanos em terras pátrias o principado do tucanato paulista ou os herdeiros da Arena? O judiciário permitirá o retorno deste ator, ou podem desenterrar os mil podres da família Maia?

O retorno do médio prazo na política, falta combinar com as togas e com a economia mundial

Outro fato chamativo desta eleição foi o retorno do médio prazo. Desde março de 2015 com as grandes manifestações contra Dilma o que menos existe no Brasil é previsibilidade. Oscilações violentas de conjunturas, jogos de poder e mudanças de posições abruptas. Havia dias que os mais experimentados analistas e os mais velhacos políticos profissionais não tinham a menor previsão do que ocorreria. Com a estabilização de Temer frente a luta de classes, graças a Lula, PT e CUT, o médio prazo voltou à política nacional.

Maia, Rosso, Temer e Aécio travaram uma série de disputas antes da eleição na Câmara pensando nas eleições para a mesma casa em 2017. Daqui a um ano e meio. Um mundo de tempo no Brasil de um mês atrás.

Este retorno, é no entanto, relativo. Falta combinar com as togas do Supremo. Com a incombinável economia mundial com suas frequentes surpresas e contradições como aquelas alimentadas pelo Brexit. E por essa via, por mais que se esforce o PT, pode abrir espaço para que a politização vire descontentamento e mesmo luta de classes.

Um filho da política neoliberal e oligárquica na presidência da Câmara é uma marca da conjuntura. Mais um sinal de estabilização do governo golpista com a dupla ajuda petista, primeiro na luta de classes agora direta, com voto e tudo. Porém, este fortalecimento é relativo, ele ainda está prenhe de contradições passadas e que o próprio jogo dos atores vai acrescentando. O retorno do DEM ao centro da política nacional trás estabilidade na conjuntura, mas no médio prazo é uma fonte para instabilidades futuras. A vitória de ontem pode tornar-se fonte de dor de cabeça amanhã.




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