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O que a política do PT tem a oferecer para a juventude e os trabalhadores?

Nos últimos dias tivemos dois exemplos contundentes de por que é preciso superar pela esquerda a estratégia petista de conciliação de classes

Thiago Flamé

São Paulo

sábado 7 de dezembro de 2019| Edição do dia

Por mais que o PT, de sob a batuta de Lula e José Dirceu, se proclame como de esquerda e até socialista, por mais comprometido com as causas populares que possam parecer os discursos de Lula e por mais que a grande mídia fale do radicalismo e da intransigência petistas, esse partido atua incansavelmente para deixar que ataques aos direitos trabalhistas e sociais ocorram sem que ocorra ativa e combativa resistência da luta de classes, como vemos na França e no Chile. O PT orienta a que ocorram no máximo protestos controlados ou chamados a ações completamente descoladas da base das categorias, ou apenas discursos parlamentares que preparam o terreno eleitoral para daqui vários anos, mas luta de classes... nada.

Vejamos dois episódios recentes: o fim melancólico da greve dos professores do Paraná e a votação do pacote anticrime na Câmara dos Deputados.

No primeiro caso, temos que relembrar a combatividade que vêm demonstrando os professores e professoras paranaenses nós últimos anos, junto com todo o setor da educação do Paraná - aliás, em todo o país. Mas é significativa essa vontade de luta expressa no estado de Sérgio Moro. O sindicato dos professores do estado, o APP-Sindicato, é dirigido pela CUT. O que fez para levar ao triunfo a luta contra a reforma da previdência do governador Ratinho? Nada. Simplesmente declarou depois de aprovada a votação por uma diferença esmagadora, que era hora de terminar a greve e que, se novos ataques viessem a acontecer, entrariam em greve novamente. Nada muito diferente da APEOESP que nada fez em SP ou do Cepers no Rio Grande do Sul, que dirige uma greve sem nenhuma estratégia para triunfar. São três formas que são o exato oposto de como organizar uma resistência séria contra as reformas da previdência estaduais.

A força demonstrada pelo magistério paranaense e gaúcho poderiam ser um grande ativo para organizar a resistência em todo o país. Uma direção sindical séria, comprometida com a luta contra a reforma da previdência, teria preparado essas greves como grandes batalhas da luta de classes, se inspirando nos exemplos do Chile e do Equador - para não falar da classe trabalhadora francesa que iniciou nessa quinta uma forte greve geral contra a reforma da previdência de Macron. Em todo o país os sindicatos da CUT e as entidades estudantis estariam colocando suas energias para divulgar essas lutas e furar o bloqueio da mídia. Dias nacionais de luta e, se possível, greves de solidariedade teriam sido convocadas em todo o país. Um grande movimento popular poderia ser gestado nesses estados, abrindo as escolas para as comunidades e conclamando a unidade com os secundaristas e as universidades. Nada disso foi feito e a força das greves, em especial a do magistério gaúcho, pode ser desperdiçada se essa estratégia não for revertida.

Mas por que as direções petistas não organizam um movimento assim? A pista é dada pela política dos governadores do PT. No primeiro semestre, queriam negociar ponto a ponto com o governo Bolsonaro a reforma de Guedes. Agora, também aplicam reformas da previdência nos estados que governam, como fez Fátima Bezerra no RN. Se, durante período em que era oposição ao governo FHC, o PT semeava a ilusão de que "um outro mundo seria possível" com um governos petista, agora, a ilusão que se propaga parece ser mais humilde, oferecendo um outro ajuste contra o povo, mais ameno que o de Guedes e Bolsonaro.

Isso vimos exatamente assim na aprovação do pacote anticrime. Derrotaram as medidas mais abertamente assassinas do pacote, como o excludentes de ilicitude. Mas o que foi aprovado ao final, com o voto de esmagadora maioria dos deputados petistas, foi um pacote que, entre outras coisas, aumenta a pena máxima de trinta para quarenta anos e outras medidas de endurecimento do código penal. Código Penal esse que, como tudo nesse país, é herança da escravidão e da luta dos senhores de escravos para manter seu cruel domínio sobre o povo negro. Talvez a maior ironia seja que, enquanto Lula faz um discurso em que coloca o dedo nessa chaga, o PT com o seu apoio se alia aos escravagistas.

Não podemos esperar outra coisa do PT, que vai atuar como um partido de traidores, usando sua autoridade entre o povo para garantir a estabilidade que, de outra forma, as elites não conseguiriam. Por trás dos discursos de esquerda está em curso um pacto entre o PT e o centrão de Rodrigo Maia, em que o PT se compromete mais uma vez com a estabilidade e a ordem.

Para romper esse ciclo perverso, apostamos unicamente da mobilização da juventude, da classe trabalhadora, do povo negro e todos oprimidos desse nosso imenso Brasil. O Esquerda Diário tem se colocado como uma tribuna para expressar as lutas populares e a necessidade de um partido revolucionário que aponte uma outra perspectiva. Nossos exemplos, que divulgamos amplamente para que seja do conhecimento da classe trabalhadora brasileira e sejam fonte de inspiração e aprendizado, vem da enorme luta do povo chileno e da grande batalha que se inicia na França, que pode fazer recuar o governo de Macron.




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