Teoria

ECOSSOCIALISMO

O “proletariado ambiental” de J Bellamy Foster e os limites políticos de certo ecossocialismo

A luta contra a devastação ambiental tem atraído uma valorosa geração de intelectuais, que procuram se localizar no campo marxista na intenção de dar mais consequência ao seu combate. A produção de textos nessa esfera tem sido farta e certamente J Bellamy Foster se destaca como um dos pensadores de vanguarda na questão ambiental dentre aqueles que expressamente procuram se referenciar por Marx. No entanto, da mesma forma ocorre na política da esquerda, também no ambientalismo de esquerda comparece o vírus do ecletismo e do reformismo, também no caso, ambiental envolto por um palavreado radical-marxista.

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 18 de agosto| Edição do dia

Em recente artigo na revista Monthly Review de dezembro de 2015, Foster, em nome de uma “great transition” [grande transição] histórica, depois de proceder a um resgate histórico-teórico do pensamento de Marx na ecologia, termina por resvalar para o mais impotente possibilismo.

Isto é, levanta bandeiras ambientais “para agora”, que “podem ser feitas agora” [isto é, nos marcos do capitalismo] e que seriam o “ponto de partida racional e realista para uma revolução ecológica”, segundo diz, e alegando que “não podemos substituir todo o sistema do dia para a noite”, defende que tais bandeiras devam ser a transição “para um novo metabolismo social, voltado para o desenvolvimento humano sustentável” quando então, em futuro não muito distante, profetiza ele, surgirá “quase inevitavelmente, um ´proletariado ambiental”.

Quais seriam as bandeiras para hoje?

Cortes nos gastos militares para financiar a energia solar e eólica; moratória do crescimento econômico das economias ricas para reduzir emissões de carbono; distribuição “radical de rendimentos para proteger os menos favorecidos”; impostos sobre emissão de carbono com a receita sendo redistribuída à população; proibição de fábricas movidas por combustíveis fosseis; negociações internacionais sobre o clima tomando como base os princípios “igualitários e ecocêntricos do Acordo dos Povos realizado na Bolívia em 2010”.

Depois de reconhecer que tais “medidas de emergência chocam contra a lógica predominante de acumulação do capital”, argumenta que “no entanto, podem ser desenvolvidas sob as condições atuais”.

Temos aqui um claro problema político de perspectiva.

Sejamos diretos: tais medidas atentam contra a lógica de acumulação do capital mas vamos [quem?] exigir que os próprios donos do capital cedam, isto é, rompam com aquela lógica.

Nada de novo nesse discurso “ambientalmente correto”. Kautski, Bernstein, mas também Morales e o conjunto do movimento ambiental do stablishment e governos “progressistas” latino-americanos assinaria embaixo na linha de iniciativas do tipo Eco-92, “metas para o milênio” e que tais.

Aliás, nesse caso, nem é preciso [e nem adequado] recorrer a Karl Marx.

Muito menos ficar acenando com um “proletariado ambiental”. É necessária uma colossal imaginação utópico-romântico-quase delirante para imaginar que os Obama-Clinton-Hollande etc possam cortar gastos militares decisivamente para limpar o planeta da sujeira – especialmente químico/radioativa - que eles promovem todo o tempo e cada vez mais, justamente por sua condição incontornável de personas do sistema político do capital.

No Uruguai tem ganhado alguma visibilidade um ecologista que trabalha nessa mesma perspectiva [Eduardo Gudynas, pesquisador do FLACSO, que se auto-intitula “ecólogo social”]. Falando em nome do “bem estar” dos povos e circulando com desembaraço nas altas esferas de governos latino-americanos tipo Equador, Bolívia, tem aparecido como referente ambientalista. Como é usual entre os ecologistas de esquerda, esse autor, depois de agitar conceitos indeterminados como o “bem viver”, de defender o “desenvolvimento sustentável” – sem nunca diagnosticar claramente o papel antinacional e ecocida dos grandes oligopólios imperialistas e seus governos locais - e de criticar a visão dominante de desenvolvimento como sendo crescimento econômico continuado, passa a elogiar os “governos progressistas e da nova esquerda” da América Latina, tipo Morales, Chávez; finalmente abraça, em todos os sentidos, a proposta político/ambiental mais vaga e eclética possível. Em primeiro lugar agita algumas teses do tipo: “o mercado por si só não é a solução, mas tampouco o é o Estado” ... “O bem-viver se orienta a travar vinculações dinâmicas e construtivas entre o mercado, a sociedade e o Estado ... onde se busca construir uma sociedade com diversidade de tipos de mercados, para não ter uma `sociedade de mercado”. Ou seja, depois de acumular contradição em cima de contradição, cai na vala comum do senso político e reformista light de procurar algum governo “progressista” que abrace a indeterminação [conceito vazio] da “autosustentabilidade” e do “bem-viver”.

Em alguma medida estamos diante do seguinte problema: “realismo”, possibilismo, adequação política aos governos realmente existentes são elementos que podem terminar comprometendo as melhores intenções dos ambientalistas que se localizam pela esquerda, mas passam ao largo do único sujeito político que poderia consumar aquelas demandas ambientais.

É importantíssimo que os ecologistas mais consequentes promovam um debate, com base nos sindicatos combativos, estudantes, juventude e núcleos de trabalhadores e partidos de esquerda, por uma perspectiva ambientalmente realista. Portanto outra perspectiva programática. E jamais em uma perspectiva funcional para o capitalismo, que atribua à burguesia, seja ela travestida de pós-neoliberal ou de antineoliberal, ou “sustentável”, qualquer capacidade para mudar um mundo de superexploração, precarização do trabalho e do meio ambiente que eles mesmos engendram e do qual arrancam seus lucros, status e altos rendimentos.

Na verdade, deve ser questionado esse ecossocialismo que a partir da sua “zona de conforto” e em nome de Marx - e depois de redigir belas denúncias ambientalmente corretas – pensa em reformas ambientais que separam reformas [medidas ecológicas urgentes e imediatas] da construção do proletariado como sujeito para dar o combate revolucionário por medidas ecológicas e pela transformação social que passem pela encampação dos oligopólios capitalistas e que ponha abaixo o sistema de exploração do homem pelo homem.

Em seu lugar, que se abra o debate em nome da estratégia dos trabalhadores, e de uma perspectiva que una os dois programas [o imediato e o estratégico] para conformar forças de massa, do proletariado que não mais aceitem a direção da burguesia e seus prepostos como possíveis atores da emancipação ambiental. Emancipação que, em primeiro lugar, é social e política e, em segundo, jamais poderá ser burguesa.




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