Juventude

ÀS NOVAS GERAÇÕES

O papel do movimento estudantil ontem e hoje: o legado das lutas da geração que combateu a ditadura militar

Em meio a um governo como o de Bolsonaro, que quer despejar ataques neoliberais sobre as costas da classe trabalhadora e que convoca os militares a comemorar o golpe de 64, qual é o papel que o movimento estudantil pode cumprir no enfrentamento contra os governos? E mais do que isso, qual foi o papel histórico que a juventude cumpriu na luta contra a ditadura? Como podemos tirar lições daquele momento para atuar hoje?

segunda-feira 1º de abril| Edição do dia

Quantos são hoje os jovens no Brasil que carregam em sua história as memórias de familiares que foram combatentes durante a ditadura militar? Quantos são os jovens que carregam as memórias de lutadoras e lutadores torturados, assassinados e desaparecidos durante o regime militar? Avós, avôs, tios, tias, mães e pais. E quantos destes, a cada ano que passa, retomam e retocam a memória dos lutadores que nos foram tirados, e dos que sobreviveram. Renovam seus gritos e clamores por justiça por todas as atrocidades cometidas pela ditadura. E se preenchem de um ódio mais do que repleto de sentido ao ver sair dos porões do DOPS e do DOI-CODI a carapuça mais desprezível dos militares com suas comemorações nos quarteis, e também as oficiais do governo Bolsonaro, ao golpe de 64.

Pois então, eu como jovem de hoje, me dirijo aos jovens de hoje, e aos jovens e combatentes de ontem, com esse texto:

Não esquecemos. Não perdoamos. Ainda hoje temos que levantar as vozes pra exigir justiça por todos as vidas dos nossos que foram arrancadas durante a ditadura militar. E com que perspectiva fazemos isso hoje, nós jovens? Nos vemos de frente a um governo Bolsonaro. Racista, misógino, lgbtfóbico e um defensor da ditadura no Brasil, das ditaduras pró-imperialistas em toda a América Latina, da tortura, dos assassinatos, dos grupos de extermínio e de tudo o que há de mais asqueroso dessa corja de militares e ultrarreacionários que se embandeiram de um dos momentos mais sombrios da história do Brasil.

Nos vemos de frente a um governo que comemora o golpe de 64 – ou, para eles, a “revolução de 64” - e que diariamente deixa claro que veio para atacar nossos direitos. Muitos deles, adquiridos e arrancados dos patrões e dos governos por essa geração de lutadores que hoje nos vê erguidos para se enfrentar contra todos os ataques. A História dá voltas, mas enquanto forem voltas dentro do sistema capitalista, sempre acabará por nos colocar novamente em enfrentamentos mais profundos entre os interesses das massas de trabalhadores e jovens, por um lado; e, do outro lado, a burguesia, os patrões, os governos e seus interesses.

Essa geração que se enfrentou com o golpe de 64, que viu o ascender repressivo do AI-5 em 68, as mortes e torturas, foi a mesma geração que viu as greves operárias na década de 60. Foi parte da explosão da juventude em 1968, inspirada no "maio de 68" francês. Foi a geração que viu e lutou nas greves de 78. Foi a geração que colocou o movimento estudantil no front de batalha contra a ditadura militar. Uma geração de jovens combatentes que incendiou de energia de luta da classe trabalhadora para lutar contra o regime militar, assim como foi nas lutas em Osasco e Contagem em 68. “Dois relâmpagos na noite do arrocho”. Foi uma geração de jovens que se colocou lado a lado com os trabalhadores para enfrentar a superexploração, a miséria do “milagre econômico” e a repressão militar.

Se hoje vemos no governo as forças mais reacionárias do país, de outro ângulo vemos também uma geração de jovens que desde 2013, no eclodir das manifestações de massas em junho, se colocou nas ruas para lutar por seus direitos. Não é essa a juventude que pediu o golpe. Essa é a juventude que ocupou escolas, que fez greves nas universidades, que se colocou ao lado das greves de trabalhadores em 2014 e nas greves contra Temer e as reformas em 2017.

E qual papel toda essa nova geração de jovens combatentes pode cumprir na História?

Primeiro de tudo, o papel de retomar a própria história das gerações passadas, de descobrir e relembrar o papel a nível nacional que a juventude e o movimento estudantil cumpriram para o enfrentamento com a ditadura militar, a partir de se aliar com as lutas dos trabalhadores, e colocar a luta e a força dos estudantes em prol da classe trabalhadora.

Afinal, desde o início do golpe de 64, já era claro o medo que tinham os militares e o imperialismo do que poderia fazer a juventude organizada. Na noite do 1º de abril de 1964, menos de vinte e quatro horas após João Goulart ser deposto, os militares invadiram a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) na Praia do Flamengo, número 132, e atearam-lhe fogo. Não é casual o primeiro ataque do regime ter sido desferido contra o movimento estudantil – os estudantes representavam um enorme potencial de resistência aos planos dos militares.

E de fato demonstraram partes do enorme potencial de resistência daquela jovem geração. Com o desenrolar dos anos e a entrada nos anos de chumbo, o explodir da juventude e do movimento estudantil como ator da resistência tem fatos marcantes.

A morte do secundarista Edson Dias, que moveu multidões pelas ruas, a famosa batalha da Maria Antonia e a morte do estudante José Guimarães, pela mão dos grupos proto-fascistas do Mackenzie. O apoio às greves no fim da década de 60 e na onda de greves em 78, sendo parte de um profundo movimento de auto-organização dos trabalhadores que se enfrentavam com as burocracias dos sindicatos que buscavam separar as lutas operárias da luta contra o regime militar, no caso tanto os “sindicalistas autênticos”, de onde surgiu Lula, mas também mais tarde o próprio PT desde a sua formação.

Todos os fatos históricos colocados acima servem pra expressar algo que hoje em dia, com a dinâmica institucionalizada do movimento estudantil, muitas vezes esquecemos que o movimento estudantil pode cumprir um papel fundamental como ator da política, se nessa atuação colocar toda sua força e energia para apoiar as lutas do movimento operário. É só pensarmos no quanto a força do levante estudantil em 68 cumpriu para ascender os operários em diversas fábricas do país, já duramente castigados pela repressão da ditadura, e carregando em suas costas o peso de diversas lutas passadas, e dos riscos de se levantar novamente, superando em alguns casos, os entraves dessas burocracias sindicais.

Hoje não falta revolta entre os estudantes de todos o país. Não falta raiva dos ataques aos trabalhadores e à própria juventude. Não falta energia para se organizar e se colocar em marcha contra os ataques de Bolsonaro. Mas essa energia, infelizmente, vem sendo conscientemente dissipada pelas direções do próprio movimento estudantil. Nacionalmente, a UNE, dirigida hoje majoritariamente pela UJS (juventude do PcdoB) não só não organiza essa energia, como acaba diretamente cumprindo um papel de freio na mobilização estudantil em universidades em todo o país, de formas bastante similares ao que fazem a CUT e a CTB, além das outras centrais sindicais, com o movimento operário. A partir dos DCEs e CAs, impedem que se realizem debates profundos desde as bases de cada faculdade, de cada curso, e que a partir de espaços como assembleias e outros espaços de debate, se fomente a organização dos estudantes para enfrentar os ataques.

Basta pensar o que seria se em todo o país os estudantes tivessem assembleias e fóruns de debate que permitissem ao conjunto dos estudantes refletir e decidir como encaminhar nossas lutas e como fortalecer nossa mobilização. Imaginem então, se essa massa de estudantes, dispostos a se enfrentar com cada ataque de Bolsonaro, se colocasse como aliados dos trabalhadores para enfrentar a crise, canalizasse suas energias para exigir das centrais sindicais, da CUT e da CTB, que as mesmas rompam com a paralisia que impera nas cúpulas da burocracia sindical, e organizem um plano de lutas concreto para enfrentarmos a Reforma da Previdência, mas também os avanços do autoritarismo do judiciário, e os avanços da ingerência imperialista na América Latina.

É por isso que nós, da Faísca – Anticapitalista e Revolucionária, estamos na USP e UNICAMP levantando a proposta da realização de um Congresso dos Estudantes. Um espaço onde toda a esquerda e principalmente a base dos estudantes se proponha a debater profundamente o cenário nacional e internacional, além do próprio papel do movimento estudantil para os enfrentamentos que estão colocados à nossa frente.
Um Congresso baseado e construído a partir de muito debate entre a base dos estudantes de cada cursos das universidades para que possamos rearmar e reorganizar o movimento estudantil; para que ele possa voltar a ser essa chama que renova e dá fôlego para as lutas operárias. A partir dai, podemos tirar medidas mais avançadas e que fortaleçam a mobilização para termos um plano de lutas desde o movimento estudantil, de juntar forças para superar a barreira que são hoje as direções das centrais sindicais e as direções das entidades estudantis.

Reivindiquemos, nós jovens, nosso papel de incendiários para as lutas operárias.

Reivindiquemos que podemos ser a faísca que ascenda essa chama e que a carregue de conteúdo, questionando cada pequeno aspecto da exploração e da miséria que o capitalismo nos reserva, da mesma forma que faziam os jovens e trabalhadores durante a ditadura.

Reivindiquemos essa geração de meninas e mulheres, de negros e negras que se levantam contra o machismo e o racismo em todo o mundo, cada vez desde mais jovens. Que toda essa energia que nos pertence seja canalizada para renovarmos a cara do movimento estudantil e renovar as forças de luta do movimento de trabalhadores, para batalhar pela construção de uma nova sociedade. Uma que não seja fundamentada na dominação de uma minoria sobre a maioria esmagadora. Que não relegue à tortura, à miséria e a morte gerações e gerações de jovens e trabalhadores, como quer Bolsonaro e companhia, com a Reforma da Previdência, por exemplo, nos fazendo trabalhar até morrer, e deixando a juventude sem um futuro.

Essa é a juventude que pode construir uma sociedade sem exploração e opressão. Uma sociedade em que possamos colher a flor viva da vida e fazer valer a luta de cada uma das gerações que se colocou em combate contra esse velho mundo.




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