Política

FRENTE À CRISE DA PETROBRÁS

O olhar imperialista sobre o petróleo brasileiro

A atual queda dos preços do petróleo em todo o mundo a as consequentes dificuldades adicionais que esse fenômeno acarreta para os países mais pobres constitui-se como um cenário favorável para o imperialismo redobrar suas pressões. Particularmente no Brasil, os escândalos de corrupção na Petrobrás abrem uma janela especial de oportunidades para que as multinacionais ligadas a esse ramo da economia busquem penetrar numa escala superior em terras tupiniquins.

Daniel Matos

São Paulo | @DanielMatos1917

terça-feira 7 de julho de 2015| Edição do dia

Relatório da Agência de Informação de Energia (EIA) dos Estados Unidos publicado em dezembro de 2014 destacou que: “O aumento da produção nacional de petróleo tem sido uma meta de longo prazo do governo brasileiro, e as recentes descobertas das grandes bacias do Pré-Sal poderiam transformar o Brasil em um dos maiores produtores de petróleo do mundo”.

Segundo dados da revista Forbes, entre 2010 e 2014, 63% das descobertas de petróleo em águas profundas do mundo foram feitos no Brasil. Graças às bacias do Pré-Sal, 36% das descobertas de petróleo do mundo nos últimos quatro anos foram brasileiras.

A revista especialista em política exterior norte-americana, Foreing Affairs, destaca que a Petrobrás ainda detém 90% da exploração de petróleo no Brasil, e apesar de ter seu capital aberto na bolsa de valores, possui controle majoritário do Estado brasileiro. Obviamente, com isso dita agência de propaganda imperialista esconde que por trás do controle majoritário do Estado sobre as ações com direito a voto na gigantesca estatal encontra-se uma enorme presença majoritária de capital privado nativo e estrangeiro como detentores das ações com direito a lucros e dividendos. Ainda assim, a revista reclama que as mudanças legislativas durante o governo de Lula e de Dilma em relação às normas estabelecidas por FHC dificultaram o acesso do capital estrangeiro à exploração do Pré-Sal e alerta: “Na época, alguns observadores expressaram sua preocupação sobre a natureza restritiva dos regulamentos e o potencial de corrupção na ausência de licitação aberta [ao capital estrangeiro]. Estas preocupações foram em grande parte justificadas: uma investigação federal em curso revelou que algumas das maiores empresas de construção do Brasil podem ter pagado subornos para a Petrobrás”.

Vejam só como os imperialistas são bonzinhos. Preocupam-se sinceramente com a corrupção no Brasil. Quem poderia suspeitar dos bons interesses “justiceiros” de suas próprias multinacionais...

O Washington Post, conhecido como um jornal norte-americano editorialmente ligado ao Partido Democrata, assim expressa sua visão sobre o petróleo brasileiro: “(...) o Brasil precisa de reformas mais liberalizantes. A corrupção da Petrobras foi em grande parte subproduto de políticas equivocadas de Dilma, como tentar restringir seus fornecedores para as empresas brasileiras”.

Sim, e para corrigir os “equívocos” propõem trocar a Odebrecht pelas grandes construtoras norte-americanas, seguramente muito mais “honestas” e “bem intencionadas”, salvo pela sua necessidade de extrair a maior quantidade de lucro possível às custas dos trabalhadores e das riquezas nacionais do Brasil.

O Brasil foi um dos importantes temas de debate da Underwater Technology Conference (Conferência de tecnologia sob a água”), recentemente realizada em Bergen, na Noruega. Especialistas consultados pelo jornal Valor disseram que o Brasil não pode mais se dar ao luxo de ignorar a necessidade de mudar seu modelo atual de proteção da industria nacional, que seria ineficiente e está afastando projetos que se destinam para a China. Para a empresa de consultoria na área, Bain & Company, “Precisamos de um conjunto de políticas industriais mais agressivas para desenvolver a cadeia de fornecedores no Brasil. Para começar, o mercado não pode ser monopsônio [forma de mercado de apenas um comprador]. Um fornecedor que cresce aprendendo a vender apenas para um comprador, nacional, não consegue se tornar competitivo numa indústria global como a de óleo e gás”. De acordo com o CEO dessa consultora, o Brasil deveria aprender com o modelo norueguês, que privilegia a cooperação com o capital estrangeiro em detrimento do conteúdo nacional.

De conjunto, durante os últimos anos em que o preço do petróleo esteve excepcionalmente alto e as economias dos chamados “emergentes” em uma janela de crescimento excepcional, alguns desses países aproveitaram para aumentar a margem de manobra de seus Estados sobre a exploração do ouro negro, e com isso amliar sua tímida e relativa autonomia. O atoleiro dos EUA nas guerras do Oriente Médio e a preocupação da Europa com seus problemas internos favoreceu essas medidas em países como o Brasil. Entretanto, a crise histórica em que a economia internacional está imersa obriga os países imperialistas a redobrar a espoliação dobre os países atrasados para buscar alternativas para seus monopólios.

A atual queda dos preços do petróleo em todo o mundo a as consequentes dificuldades adicionais que esse fenômeno acarreta para os países mais pobres constitui-se como um cenário favorável para o imperialismo redobrar suas pressões. Particularmente no Brasil, os escândalos de corrupção na Petrobrás abrem uma janela especial de oportunidades para que as multinacionais ligadas a esse ramo da economia busquem penetrar numa escala superior em terras tupiniquins.

A partir do Esquerda Diário, fazemos um chamado ao PSOL e ao PSTU a impulsionar uma ampla campanha nacional que mostre a necessidade de lutar para que a Petrobrás seja não somente 100% estatal, mas que seja administrada pelos próprios trabalhadores através de uma nova forma de democracia baseada em seus organismos de base.

>> Leia nos artigos abaixo nosso Dossiê especial sobre a crise da Petrobrás, os interesses imperialistas por trás da operação Lava-Jato e os escândalos de corrupção, as distintas formas de privatização e entrega por parte de tucanos e petistas e qual pode ser uma resposta da classe trabalhadora para essa crise.

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