Internacional

ATENTADO BRUXELAS

O novo reformismo adota os eixos fundamentais da guerra contra o terrorismo

A participação na comissão de prosseguimento do Pacto Antijihadista, os apelos à unidade dos democratas e o reforço do aparato policial de inteligência do Estado, são as três coincidências chaves com a política oficial.

segunda-feira 28 de março de 2016| Edição do dia

As reações aos atentados de Bruxelas por parte do conjunto dos governos da União Europeia já era esperada. A condenação dos fatos seguiu-se de uma apologia aos “valores europeus” e à defesa da “democracia”, acompanhada da reafirmação da escalada liberticida, a política xenófoba contra imigrantes e refugiados e o compromisso de manter as distintas intervenções imperialistas que os governos da União Europeia (UE) e a OTAN têm implantadas pelo Oriente Médio, Ásia Central e África.

No Estado Espanhol, o triunvirato que decide as “questões de Estado” o PP, o PSOE e CS, voltaram a ativa convocando uma nova reunião com Partido Antijihadista. Um acordo firmado após os atentados do 13N em Paris, que é parte da onda de cortes de direitos e liberdades que está sendo levado em todos os países da UE em nome da guerra contra o terrorismo. Um novo, o enésimo, endurecimento do Código Penal que incluía a prisão perpétua – prisão permanente – e facilita, entre outras coisas, a intervenção da polícia sobre chamadas telefônicas, redes sociais e outros aparelhos de informática.

Por sua vez, o Partido de Pablo Iglesias decidiu não se somar formalmente a este pacto. Mas podemos dizer que sua crítica foi muito fraca. Prova disto é que desde o início Rafael Mayoral, o responsável pelas relações com os movimentos sociais, participou das reuniões da comissão de prosseguimento do dito pacto em qualidade de observador. Também o fez na nova convocatória que aconteceu na quarta-feira passada.

As declarações públicas realizadas pelos dirigentes do Podemos nesses dias também estão na linha de não se precipitar nos discursos oficiais. Nas primeiras declarações, realizadas na concentração convocada pela Prefeitura de Madri no mesmo dia dos atentados, Iglesias fez mais uma vez um apelo à unidade dos democratas. Além disso, a proposta principal do Podemos frente ao problema do terrorismo jihadista não é outra senão aumentar o orçamento e equipamento para as forças de segurança e os serviços de inteligência. Isto é, a via principal coincide com a que propôs o triunvirato PP-PSOE-Cs, o combate policial e judicial.

Desta vez, diferente dos atentados do 13N, nem sequer fizeram referência aos vínculos existentes entre o ISIS e os países aliados dos EUA e UE, como Turquia e Arábia Saudita, e sua cumplicidade com os canais de financiamento deste grupo.

Esta é a atitude da principal força política da chamada “mudança” diante de uma das “questões de Estado” que mais geram consenso reacionário. O curso liberticida se deixa passar, e inclusive se legitima com a presença em qualidade de observador no principal acordo que impulsiona e se apoia como seu eixo fundamental, o reforço do aparato policial e de inteligência do Estado.

Sobre a responsabilidade direta dos países imperialistas na origem de fenômenos tão bizarros como o terrorismo do ISIS, nenhuma palavra. E mais, coloca o ex-JEMAD Julio Rodríguez (responsável direto pelas intervenções imperialistas como a do Líbano ou da Líbia) à frente da equipe do Podemos que trata da questão da luta contra o terrorismo.

A respeito de como se endurece a política contra os refugiados e imigrantes, com o apoio ativo do governo em funções do PP, tudo se encerra em declarações de condenação. Mas não se move nem um dedo para enfrentar medidas tão dantescas como o acordo com Turquia e as deportações massivas.

Iñigo Errejón, em um artigo da revista Circular em que defende abertamente o projeto do Podemos para impulsionar um novo “compromisso histórico”, reconhecia que um dos pontos do consenso de 78 fora justamente a unidade frente ao terrorismo do ETA. Assim explicava: “O outro grande ingrediente que mantém unido este bloco histórico é (...) a construção de diferentes inimigos externos que manteriam a coesão do regime e nos reafirmariam como democracia: “Somos democratas, não tanto pelas virtudes que temos dentro, senão pelos inimigos maus que não são democratas. Aqui o rol do conflito terrorismo/antiterrorismo desempenha um papel ideológico definitivo na construção desta noção de democracia para um bloco histórico.”

Uma descrição bastante acertada do húmus ideológico do Regime de 78, ou ao menos de um de seus pilares. Mas como toda análise, esta pode ser usada para a crítica e superação ou para a rivalidade. E parece que o Podemos optou pela segunda opção. A política “antiterrorista” da “mudança” opta por manter-se dentro dos limites marcados pelo triunvirato reacionário, que é o que seguem todos os governos da UE, incluindo o de sua referência Tsipras que se encontra na vanguarda em favor do pacto de deportações massivas à Turquia.

Como em tantas outras “questões de Estado”, os dirigentes do Podemos se somam ao “não há alternativa”. Com base nisso já renunciaram a questionar a Corona, o não pagamento da dívida pública ou a saída da OTAN. Hoje seguem dizendo que fundamentalmente a forma de acabar com o terrorismo do ISIS é o curso seguido pelos países imperialistas, com algum atenuante do discurso liberticida que é cada vez mais imperceptível.

Um novo equívoco que seguramente não é compartilhado por muitos militantes, simpatizantes e votantes, especialmente em um país com uma tradição de movimentos sociais contra as guerras imperialistas. Diante dessa aceitação dos eixos de um curso brutalmente reacionário contra os povos do Oriente Médio, África e Ásia, contra os imigrantes e refugiados e contra os direitos e liberdades democráticas, é urgente levantar um grande movimento nas ruas, nos locais de estudo e de trabalho contra o Pacto Antijihadista, pela retirada de todas as tropas espanholas no estrangeiro, contra a polícia racista da UE e o governo espanhol e pela abertura das fronteiras e reconhecimento de todos os direitos de asilo, políticos e sociais aos refugiados e imigrantes.

Um movimento sob estes eixos é o único que poderá por fim a crescente retirada de liberdades, perseguições xenófobas e expoliação e dominação de povos inteiros pelos Estados e exércitos espanhóis, o único caminho realista e não reacionário para acabar com a espiral de barbárie que está se estendendo do Oriente Médio até a Europa.




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