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O novo panorama da luta de classes nos Estados Unidos

Juan Cruz Ferre

Foto: Paul Merrill

O novo panorama da luta de classes nos Estados Unidos

Juan Cruz Ferre

Está em curso um novo período na luta de classes marcado por um giro à esquerda, com tentativas de cooptar o explosivo movimento contra o racismo e a polícia, e dois atores: a classe operária e a esquerda socialista, que podem emergir fortalecidos se estiverem à altura das circunstâncias.

Desde o começo de 2020 dois terremotos políticos sacudiram os Estados Unidos. O primeiro são as consequências econômicas, sociais e políticas aprofundadas pela pandemia do COVID-19. O segundo são os levantamentos contra a repressão policial racista. A combinação entre os dois eventos estão transformando os parâmetros da luta de classes nos Estados Unidos. Apresentamos na sequência seis aspectos desta transformação em curso.

1. Giro à esquerda

O primeiro elemento a enfatizar é que a revolta em curso contra a brutalidade policial e o racismo sistêmico representam um giro à esquerda na situação política. Não somente houve grandes (e em alguns casos massivas) mobilizações durante três semanas seguidas em dezenas de cidades ao largo do país, como também, e esta é a chave, o apoio para aqueles que se mobilizam é massivo apesar do risco da expansão da COVID-19. As pesquisas mostram que a maioria das pessoas reconhecem e condenam a brutalidade policial racista, e estas porcentagens chegam a alcançar 80% entre os jovens. Semelhante questionamento, profundo, em relação a primeira linha de defesa do estado capitalista, a polícia, marca uma mudança na maneira que a população pensa a política e o governo.

Em 2016, a eleição de Donald Trump marcou um giro à direita na situação política dos Estados Unidos. Porém, tal como assinalamos nas páginas do Left Voice, a situação geral estava caracterizada principalmente por uma maior polarização que por um giro unilateral à direita. Em outras palavras, Donald Trump implantou políticas mais reacionárias que a verdadeira consciência política da classe trabalhadora e a relação de força entre as classes.

Agora vemos um giro à esquerda marcado por massas de pessoas condenando a polícia e confrontadas, uma vez mais, com a continuidade do racismo brutal nos Estados Unidos. Não nos chama atenção que Trump esteve constantemente deslocalizado desde que os protestos começaram. Em lugar de encher a boca propagando ideais liberais de democracia e igualdade pra diminuir as tensões, Trump jogou lenha na fogueira com ameaças no Twitter contra os manifestantes além da negativa em reconhecer a ilegalidade da ação policial. Por conta disto, se afunda nas pesquisas da eleição presidencial deste ano.

2. Duas pernas que se quebram

Dois pilares da democracia capitalista enfrentam um questionamento ampliado: o despotismo do capital nos lugares de trabalho e o respeito pela lei e ordem, em particular o respeito aos agentes das forças repressivas. Enquanto a pandemia avança nos Estados Unidos ceifando a vida de trabalhadores da saúde e outros trabalhadores essenciais que carecem do mínimo de proteção contra o vírus, muitos perderam o medo de confrontar seus chefes. A contradição entre aqueles que devem trabalhar todos os dias para manter sua renda arriscando suas vidas e as de sua família, e aqueles que os contratam, extraindo lucros sem ter que arriscar seu pescoço, emergiu em um claro contraste. Trabalhadores da saúde nos hospitais de Nova York denunciaram seus CEOs, que haviam se abrigado na Flórida. Trabalhadores da Amazon denunciaram suas insalubres condições de trabalho, enquanto Jeff Bezos adiciona milhões de dólares a sua fortuna.

Alguns meses após o início da pandemia, assim que viralizou o vídeo do assassinato de George Floyd, a opinião pública começou a questionar as políticas de lei e ordem. Não é que a polícia fosse particularmente querida antes do escandaloso assassinato de Floyd pelas mãos das forças repressivas de Minneapolis. Porém, a combinação das execuções racistas de Floyd e Breonna Taylor (e também Ahmaud Arbery, que foi assassinado por um ex policial), com a brutal repressão aos manifestantes, resultou em uma maior deslegitimação das forças da ordem. Os trabalhadores da saúde que eram reinvindicados como heróis no pico da pandemia, agora estão sendo detidos pela polícia de Nova York. Massas de manifestantes desafiaram os toques de recolher, denunciaram a brutalidade policial e a opinião pública girou rapidamente a um forte apoio as mobilizações por Black Lives Matter.

3. A polícia não é amiga dos trabalhadores

A luta dentro das próprias fileiras de trabalhadores para expulsar a polícia de nossas organizações ganhou um impulso renovado. Começou com o presidente da seção de Minnesota da AFL-CIO (a maior central trabalhista do país) pedindo a renúncia do presidente do Sindicato Policial de Minnesota, uma exigência repetida por muitos outros. Alguns sindicatos foram mais longe, exigindo a expulsão dos sindicatos policiais da AFL-CIO.

Este é um debate necessário dentro de nossos sindicatos que podem elevar a consciência da classe dos afiliados. A polícia sempre foi e sempre será inimiga da classe trabalhadora, dos organizadores e ativistas que ultrapassam os limites impostos pelas patronais e o governo, implementando ações legais e ilegais para lutar a favor do interesse dos trabalhadores. A polícia sempre será inimiga das minorias da classe trabalhadora, aqueles que sofrem uma maior opressão entre os próprios operários.

E este aspecto tem uma implicação particular sobre a estratégia e a tática da esquerda. Alguns socialistas confusos discutem que os policiais são "trabalhadores de uniforme", ignorando o fato de que a polícia tem uma função especial pra exercer na sociedade capitalista: reprimir trabalhadores grevistas, aterrorizar e disciplinar aos mais oprimidos entre nossas fileiras, e impedi-los de se rebelarem contra um sistema profundamente injusto. Para poder ganhar aos mais oprimidos de nossa classe para uma perspectiva socialista, se elevando para uma força potencialmente revolucionária, necessitamos demonstrar a toda a classe trabalhadora e suas organizações que podemos e efetivamente enfrentaremos o racismo, o sexismo e toda forma de opressão. Se aproveitamos o atual descontentamento contra a polícia e aproveitamos esse sentimento de rechaço em uma campanha pela expulsão da polícia do movimento dos trabalhadores, os sindicatos se encontrarão imediatamente fortalecidos e em melhores condições de enfrentar o sistema capitalista racista.

Esta possibilidade chega em um momento em que os sindicatos se encontram sobre pressão para ser transformados, democratizados, e aumentar sua combatividade. Durante a pandemia da COVID-19, houve uma onda de greves selvagens, interrupções laborais e retirada em massa de trabalhadores das fábricas. Em alguns casos, como na greve de Instacart, estas ações tiveram alcançe nacional. Com a crise econômica atual, a expansão do coronavírus e a radicalização gerada pelos protestos anti-policiais, podemos esperar muitos mais casos em que os movimentos de base desafiem a suas direções sindicais.

4. Cooptação vinda de cima com algumas vitórias do movimento

Muitos municípios implementaram a proibição dos estrangulamentos, impuseram pequenos cortes no salário dos policiais, detiveram a transferência de equipamento militar a departamentos policiais locais e, de palavra, se comprometeram a que a polícia enfrente a consequência de suas ações daqui pra frente. Tudo isto são concessões simbólicas, principalmente se levarmos em conta que um grande setor de manifestantes exige a abolição da polícia. E não esquecemos que Eric Garner morreu enforcado por um policial em 2014, onze anos depois de que a Cidade de Nova York já havia proibido os estrangulamentos. Sobre uma enorme pressão do movimento contra a brutalidade policial, uma maioria absoluta da Legislatura da Cidade de Minneapolis votou por desmontar seu departamento policial. Ainda assim, se desconhece em detalhes o que irá lhe substituir. É claro que não se pode ter a extinção das forças policiais sobre o capitalismo. Enquanto nossa sociedade se encontre dividida em classes, com uma delas disfrutando do controle absoluto dos recursos produtivos, e a outra, composta por uma enorme maioria, lutando por sua sobrevivência no mercado de trabalho, ou forçada a suportar o desemprego crônico e as privações, haverá a necessidade de um aparato repressivo do estado.

Ao mesmo tempo, o questionamento e a possível anulação da "Imunidade qualificada" (impossibilidade de acusar legalmente a um oficial de polícia), a detenção de transferência de equipamento militar a estes departamentos policiais, se é efetiva, e a restrição formal do uso de força, incluindo o uso das armas de controle de multidões, são todas concessões que fortalecem o movimento. Maior controle, limites mais estritos ao comportamento policial e o fim da impunidade garantida por lei, implicam numa redução do poder de fogo do estado. Fixa limites "ao uso legítimo da violência" que o estado pode utilizar contra quem questione o regime.

5. Radicalização de uma nova geração de socialistas

Nos últimos anos, uma jovem geração de socialistas estava sendo cozinhada a fogo lento, motivada pela queda de sua qualidade de vida em comparação a de seus pais, mobilizados pela chegada a Casa Branca de um racista e energizados por campanhas eleitorais, especialmente a tentativa de Bernie Sanders de alcançar a nominação democrata para as eleições presidencias. Agora existe uma intensa luta de classes. Um novo período se abriu com a primavera docente de 2018-2019 e a luta contra as condições de trabalho insalubres durante a pandemia aceleraram a luta de classes. Porém, os protestos anti racistas que se seguiram ao assassinato de George Floyd aumentou sua intensidade em uma enome magnitude. Esta nova geração de socialistas se encontra agora participando de choques violentos com a polícia, atravessando uma experiência com governadores e prefeitos Democratas que não tem nada para oferecer em contraposição ao bando Republicano. Há uma brecha para que a esquerda socialista intervenha nestas lutas com suas próprias bandeiras, para avançar em um programa anti capitalista que se expresse em seus próprios candidatos socialistas independentes, e ajudar a formar e coordenar o movimento à nível nacional. A única organização que poderia cumprir com esta necessidade hoje é o Democratic Socialists of America (DSA, a maior organização socialista do país), porém, seus esforços tem se demonstrado insuficientes em face as exigências postas por estas novas circunstâncias. A convergência do novo movimento socialista, o movimento contra o racismo e a brutalidade policial tem o potencial de transformar a política estadounidense.

6. A economia continuará representando um fator disruptivo

A baixa dos números de desemprego, duas semanas atrás, surpreendeu quase todo o mundo. Ainda quando a Oficina de Estatísticas Trabalhistas admitiu que a taxa de desemprego de Maio havia sido subestimada devido a um "erro de classificação", Trump cantou vitória. Qualquer pessoa que evite enganar a si mesma sabe que a recuperação econômica se encontra ainda mais distante no horizonte. Mesmo que tenha sido negada ajuda governamental para milhões de pessoas, os cheques de estímulo (algo similar ao nosso programa de auxílio emergencial, no valor de 1200 dólares, NdT) e o aumento dos benefícios para os desempregados estão contendo o impacto da crise entre a classe trabalhadora. O dinheiro advindo do pacote de estímulo se acabou faz algum tempo, e os benefícios para os desempregados não vão durar o mesmo tempo que a crise. É possível que vejamos maior descontentamento à medida que a crise se amplie e os trabalhadores e pequenos comerciantes enfrentem maiores e mais duras dificuldades para subsistir.

Somado a isto, a bolsa recuperou quase tudo o que havia perdido nos trágicos dias de Março, porém a instabilidade não desapareceu. Na semana passada, a bolsa caiu outra vez, demonstrando que a volatilidade é a regra. Estas oscilações são apenas pequenos anúncios de um enorme crack que se avizinha para a economia global. Como assinala Michael Roberts, a boa performance dos mercados financeiros é resultado direto da massiva injeção de dinheiro dos bancos centrais, que para fins de 2020 equivaleria a praticamente um quarto do PIB nominal mundial. Em outras palavras, as ações em alta são apenas a expressão visível de uma bolha financeira mundial sustentada pelos bancos centrais. As consequências políticas de um crack financeiro no futuro próximo, somado ao desemprego ampliado, as mobilizações de massas e o questionamento ao estado (pelo menos contra seu braço repressivo), são difíceis de vislumbrar.

Tradução: Lucas Santiago.

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