CONTRA O RACISMO QUE MATA A CADA DIA

O mesmo racismo que matou João Pedro, Miguel e George Floyd é o que mata por COVID-19

A luta antirracista desencadeada pelo assassinato de George Floyd pela polícia se alastra no mundo, enquanto vemos os negros contabilizarem o maior número de mortes e contágios pelo coronavírus em todas as partes. A luta contra o racismo é também a luta por condições de vida adequadas para enfrentar a pandemia.

Fernando Pardal

@fepardal

domingo 7 de junho| Edição do dia

Foto: Leonardo Cassano

O racismo mata. Todos os dias. Como vimos nos recentes casos revoltantes e abomináveis como os de George Floyd – sufocado pelo joelho de um policial – ou de João Pedro – assassinado pelas balas da polícia enquanto estava com a família dentro de casa – a repressão policial continua sendo um dos instrumentos mais explícitos e eficazes para expressar o racismo estrutural próprio ao sistema capitalista. Mas não são apenas as mãos da polícia que derramam o sangue dos negros a cada dia.

O caso de Miguel, uma criança de apenas 5 anos que morreu pelas atitudes criminosas de uma mulher rica, patroa de sua mãe, enquanto esta passeava com os cachorros da mulher que permitiu que seu filho caísse do nono andar, é mais uma face desse racismo. É uma história que conta muito: fala do maior batalhão da classe trabalhadora em nosso país, o das empregadas domésticas, mais de sete milhões – quase todas mulheres negras – que seguem sofrendo a mais inclemente exploração em meio à pandemia. Um “serviço essencial”, segundo os setores da classe dominante que, apesar de lhe pagarem salários miseráveis, não conseguem viver sem uma trabalhadora que cozinhe, lave, passe, cuide de seus filhos, passeie com seus cachorros.

Mirtes, mãe de Miguel, é uma entre milhões. Os trabalhadores da Rappi, “o aplicativo que escraviza o pai de família”, como denunciou um de seus “colaboradores” (a forma “moderna” de se referir a um trabalhador precarizado e sem direitos trabalhistas), tomaram a Avenida Paulista nessa semana denunciando suas condições de trabalho, no qual recebem 4 reais por entrega. Como bem expressaram, não são “empreendedores”, mas sim escravos assalariados. Estão todos os dias submetidos ao contágio, e podem perder o emprego por pegar um frasco de álcool gel.

Além de representarem grande parte dos entregadores, empregadas domésticas, e tantas outras categorias que não tem direito à quarentena, nem recebem equipamentos e condições adequadas de proteção do contágio, grande parte dos negros no Brasil vive em condições degradantes em diversos níveis, como casas sem saneamento básico, uma alimentação deficitária, sem os nutrientes adequados para manter a imunidade alta, as casas pequenas localizadas em bairros periféricos que obrigam a tomar conduções lotadas onde o contágio é muito mais provável. São essas algumas das causas que fazem com que os negros sejam as maiores vítimas do coronavírus, como explicou Letícia Parks no vídeo abaixo:

Assim, hoje, quando centenas de milhares de pessoas tomam as ruas em diversos países do mundo para gritar que as vidas negras importam, temos que dizer um basta à violência racista e assassina da polícia, mas também gritar alto que nossa demanda é por condições dignas de vida, para que se tenha recursos para enfrentar a pandemia e acabar com as milhares de mortes de negros por COVID-19, que não são um “acaso” promovido pelo contágio de um vírus, mas sim o fruto da herança da escravidão, do racismo inerente ao capitalismo.

A luta deve ser pela proibição das demissões, que vem atingindo sobretudo o povo negro, conforme os capitalistas vem tirando o sustento dos trabalhadores para jogar sobre as nossas costas os efeitos da crise que sua própria ganância criou. A exposição de trabalhadores domésticos, funcionários de call center, entre tantas outras categorias que desempenham serviços não-essenciais, é um absurdo: nossa luta precisa ser para que todos os trabalhadores de serviços não-essenciais sejam dispensados e recebam seus salários integralmente. Que seja garantido para todos os que precisem ficar em casa não apenas o auxílio emergencial de R$ 600 proposto pelos corruptos e privilegiados parlamentares, mas sim uma renda garantida de R$ 2 mil para cada um que precise ficar em casa na pandemia.

Aliado a isso, temos que aprofundar a luta contra o negacionismo do governo, que agora promoveu a medida escandalosa de simplesmente ocultar o número de mortos por COVID-19 em nosso país, lembrando os “heróis” de Bolsonaro, militares, empresários e torturadores da ditadura que assassinavam e ocultavam as mortes e cadáveres. Queremos a volta dos dados, mas não aqueles números camuflados e subnotificados que desde o começo da pandemia escondem a situação real: é preciso exigir testes massivos para todos, para que se saiba exatamente quem são os contaminados, onde eles vivem e trabalham, e que recebam todo o tratamento adequado, tendo acesso a locais salubres de isolamento com o confisco de hotéis, resorts e SPAs dessa mesma burguesia que lucra arrancando o couro do povo negro. A miséria que bate à porta de milhões de famílias hoje é uma monstruosidade em si mesma, e além disso propicia o contágio ao tornar mais vulneráveis os que se alimentam mal. Cestas básicas, suplementos vitamínicos, lazer e descanso devem ser garantidos para todas as comunidades vulneráveis, a começar pelo povo negro e pelas pessoas em grupos de risco.

Enquanto os ricos pagam e recebem os melhores tratamentos disponíveis para a COVID-19, os negros e trabalhadores seguem sem leitos nos hospitais, sem respiradores, sem condições de melhoria. Os cortes de financiamento do SUS que vieram com a Emenda Constitucional do teto de gastos agravaram muito a situação. Agora, é preciso dizer que não aceitamos esse tratamento, que o sistema público e privado de saúde precisam ser unificados, sob controle dos trabalhadores, com uma fila única para o tratamento da COVID-19, tomando os leitos ociosos do sistema privado para atender a toda a população. Que todos os tratamentos experimentais para a COVID-19 sejam também acessíveis ao povo negro, que deve ter a seu dispor os recursos científicos mais avançados, hoje apenas utilizados com pacientes de hospitais como Albert Einstein ou Sírio-Libanês.

Todas essas medidas podem ser garantidas tomando os lucros daqueles que fizeram fortuna explorando os trabalhadores, e sobretudo os trabalhadores negros. Taxação das grandes fortunas e o fim do pagamento da dívida pública são as primeiras e mais elementares medidas para isso. Para que coloquemos tudo isso em prática, vamos às ruas lutando não apenas para tirar do governo o assassino de extrema-direita Bolsonaro, mas também Mourão e toda a corja de militares, e para obter isso precisamos conquistar uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, conduzida pelos trabalhadores, onde os negros terão a representação que lhes cabe como maioria do povo, e que poderão decidir sobre os rumos do país ao lado de cada setor explorado e oprimido, reescrevendo essas leis que só servem aos capitalistas. Esse sentido profundo da luta antirracista precisa ser almejado e conquistado a cada passo de nossa luta. Nem mais um morto pelo racismo e o capitalismo, seja pelas balas da polícia, seja pelo desemprego, a fome e a pandemia. Essa é a nossa luta contra o racismo e capitalismo.

Veja também: "Vamos nas manifestações de domingo contra o racismo e por uma nova Constituinte contra Bolsonaro", diz Marcello Pablito




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