Sociedade

pobreza e a infância

O menino que desenha suas figurinhas para copa e os sonhos das crianças no capitalismo

A história de um garotinho de 8 anos que desenha suas próprias figurinhas para o álbum da copa do mundo ganhou as páginas dos jornais, ao mesmo tempo que o escândalo das crianças imigrantes enjauladas pela politica imperialista norte-americana, agora aprofundada por Trump. Qual o futuro o capitalismo reserva para as crianças?

Odete Cristina

São Paulo

sexta-feira 22 de junho| Edição do dia

Essa semana nos encantamos com o talento e a criatividade de Pedro Henrique Blaco Arouca, um menino de 8 anos, morador de Bauru (SP) que chamou atenção dos colegas e professores ao pintar suas próprias figurinhas para o álbum da Copa do Mundo de 2018. Ao mesmo tempo nos chocamos mais um vez com a situação de barbaridade em que estão condenadas milhares de crianças imigrantes enjauladas pela política xenófoba do imperialismo norte-americano. Tudo isso nos leva a refletir qual o futuro que a sociedade capitalista reserva para as crianças, e como a crise tende a agravar ainda mais essa situação.

Pedro começou a desenhar suas próprias figurinhas porque sua família não tinha dinheiro para comprar as oficiais, sob controle da Panini. Sua mãe, Gleice Barizon Blanco, recebe pouco mais de um salário mínimo como trabalhadora de um caixa de supermercado, e não teve condições de comprar as famosas figurinhas para o filho. Mesmo assim, o menino deu aquele famoso jeitinho brasileiro e com muita criatividade fez seu próprio álbum, numa versão exclusiva com seus próprios desenhos. Hoje as figurinhas da copa, ambicionadas por milhares de crianças e adultos em todo país, são na verdade um lucrativo negócio. Cada pacote com 5 figurinhas custa em média 2 reais, cada álbum custa 7,90 reais. No total foram 7 milhões de álbuns impressas e a cada dia são tiradas 40 milhões de figurinhas. Para superar essa adversidade, Pedro começou a desenhar suas próprias gravuras com os jogadores da competição mais importante do futebol mundial. Para isso ele consultava o álbum coletivo que fica no corredor da escola em que estuda. Nos desenhos do menino estão grandes nomes do futebol mundial como Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e até o Pelé.

A copa do mundo sempre foi tida como um momento de grande paixão nacional, em que o país para, pra ver a seleção entrar em campo. Paixão essa que nasce nos campos de várzea, nas partidas improvisadas nas ruas, onde meninos, jovens e trabalhadores encontram no esporte um refúgio da vida cinza e da rotina de trabalho pesado. Mas como tudo no capitalismo, o futebol foi transformado numa lucrativa mercadoria, com partidas e eventos que rendem milhões, com jogadores vendidos por transações multimilionárias. E todo um falso glamour do mundo do futebol que na verdade se restringe a uma ínfima minoria dos grandes jogadores dos times de elite, enquanto a maioria dos atletas profissionais é relegada condições bastante precárias de emprego, e o futebol feminino é totalmente inviabilizado, como mais um reflexo da organização machista da sociedade capitalista. A copa é o ápice desse mercantilização do esporte, um grande evento que rende milhões aos grandes empresários capitalistas, enquanto vendem a ilusão para as crianças e o povo trabalhador de que seus sonhos podem ser possível, basta se esforçar e fazer por merecer. Oferecem 90 minutos de distração e alegria por torcer pelo seu time, enquanto planejam como retirar cada vez mais a vida dessas pessoas, aumentando ainda mais os níveis de exploração e opressão.

Ao mesmo tempo que a história de Pedro chama atenção pela sua criatividade ao driblar a ganância capitalista e fazer suas próprias figurinhas, o mundo inteiro se choca com a bárbara situação das crianças imigrantes enjauladas e dopadas a força nos EUA. Fruto da política de tolerância zero dos governos norte-americanos, levada adiante seja por republicanos, seja por democratas, mas exacerbada pelo reacionário Donald Trump, chocando o mundo com esses absurdos. O grande exemplo da máxima democracia capitalista enjaula os sonhos das crianças em campos de detenção, e por meio de remédios e medicações retiram delas toda as espontaneidade e o direito de serem livres.

Conforme colocou o grande revolucionário russo, Leon Trotski em sua autobiografia intitulada Minha Vida,

"Dizem que a infância é a época mais feliz da vida. Será sempre assim? Não. São poucos aqueles cuja infância é feliz. A idealização da infância tem sua origem na antiga literatura dos privilegiados. Uma infância provida de tudo, ensolarada, vivida em uma família aristocrática, rica e instruída, cheia de carinhos e de brincadeiras, fica na memória como uma clareira inundada de sol no início do caminho da vida. Os grandes senhores da literatura (ou os plebeus que o cantaram) idealizaram esta ideia de infância penetrada de espírito aristocrático. A imensa maioria das pessoas, ao olharem para trás, vislumbram, ao contrário, uma infância sombria, mal nutrida, servil. A vida golpeia os fracos, e quem será mais fraco do que as crianças?"

Tanto a história dessa criança brasileira, quanto a das milhares de crianças imigrantes, são duas faces diferentes de como o capitalismo é um sistema podre, que em nome da sede de lucros dos capitalistas e da manutenção da dominação imperialista é capaz de transformar sonhos em um grande negócio, ao mesmo tempo que nega sistematicamente o direito ao futuro dessas crianças. Seja literalmente enjaulando-as como animais, seja retirando qualquer perspectiva de futuro aplicando uma série de reformas e ajustes para que sejam os trabalhadores e as futuras gerações aqueles que paguem pela crise capitalista. E a única forma de responder a isso é transformar nosso ódio por tamanha barbaridade e nosso desejo de que as crianças possam ter o direito de sonhar e viver plenamente, em uma ferramenta de luta e organização capaz de destruir esse sistema capitalista, que a cada dia prova que só merece perecer de uma vez por todas.




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